03
set
2016
Os filmes perdidos do “found footage”!
Categorias: Listas Radioativas • Postado por: Convidado Especial

O found footage é um formato fílmico que você já deve conhecer e inclusive deve gostar. Trata-se de um termo para designar filmes de ficção que são apresentados como se o material tivesse sido encontrado ou gravado em vídeo por algum dos personagens com uma câmera em mãos, frequentemente deixado para trás por protagonistas mortos ou desaparecidos. Dessa forma, dá pra entender como o dispositivo pode ser empregado tão bem dentro do cinema de horror, desde o clássico A Bruxa de Blair (1999) até a série de filmes mais recente que iniciou com Atividade Paranormal (2007).

Hoje, optei por um post indicando algumas produções de found footage que não sejam exatamente todas aquelas que você já deve ter visto (quer dizer que eu não pretendo mencionar [Rec], 2007, ou Cloverfield, 2008) e que não sejam necessariamente filmes de horror (posso incluir também falsos documentários construídos no mesmo estilo). Fãs mais assíduos do gênero provavelmente já devem ter visto As Fitas de Poughkeepsie (2007), onde as fitas encontradas documentam o trabalho de um serial killer e o desespero de todos os assassinados, mas agora te daremos mais opções:

Post-Mortem (Anthony Spadaccini, 2010)

postmortem

Iniciando a lista com um filme de horror para ambientar melhor a situação. Post-Mortem faz parte de uma série de filmes experimentais de found footage do mesmo diretor, que também inclui Head Case (2007) e O Ritual (2009). Segundo o IMDB, seu plot é de que um garoto adolescente suicida faz amizade com um serial killer sádico que promete libertá-lo de sua família viciada em drogas. A montagem do filme usa material captado pelo próprio assassino, John, imagens do vídeo-diário do garoto, Seth, e ainda, vídeos de webcam postados por membros de grupos de apoio a suicidas – se são reais ou encenações, eu ainda não sei.

Hate Crime (James Cullen Bressack, 2013)

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Escolhi colocar esse filme aqui porque ele já impressiona, assusta e incomoda quem ainda não assistiu pelo tema empregado: anti-semitismo. Do título, em inglês “crime de ódio”, dá pra sacar mais ou menos o que acontece quando uma família judia, recém-chegada na vizinhança, filma a celebração do aniversário do filho mais novo e a casa é invadida por um grupo de lunáticos neonazistas intoxicados e identificados pelos codinomes One, Two e Three. O filme retrata o terror real de seu início ao fim, já que logo após os créditos, sem qualquer introdução, os três agressores entram na casa e passam a estuprar, assassinar e torturar a família. O completo caos e violência são arremessados sem pena na tela, então provavelmente não é uma boa exibir esse filme pra alguém acostumado apenas com horror mainstream. Ou talvez sim!

Night of the Dolls (Daniel Murphy, 2014)

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Essa postagem não estaria completa sem um filme de horror softcore independente de baixo orçamento com um título que ajuda ainda mais a abaixar as expectativas. Kari, Lydia, Chloe e Molly são quatro garotas numa banda de punk chamada The Lolita Dolls, cuja vocalista (Kari) é obcecada pelas histórias das vítimas do Dr. Graves, que realizava experimentos absurdos e doentios em pacientes mulheres do sanatório Brookhurst. Eis que Kari recebe um e-mail misterioso de uma “fã” que convida a banda para filmar um videoclipe para o seu novo CD, Fallen Angels, no sanatório. As quatro arranjam uma van e, com os dois amigos Lenny e Steve, vão ao encontro do lugar para nunca mais serem vistas. Deu pra sacar que é incrível só pelos nomes das personagens, né? E preparem-se, porque o desfecho final desse é surpreendente. Sim, e isso é extremamente louvável em 2014.

Loss of Life (David Damiata e Michael Matteo Rossi, 2013)

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 Este é um filme besta de horror qualquer, mas que eu e você adoramos assistir enquanto procrastinamos outras atividades mais importantes. Mereceu estar aqui porque gosto da imagem do pôster do filme, e porque se passa durante o halloween de 2012, quando um grupo de amigos no ensino médio simplesmente decide filmar a saída à noite; eles são jovens e é 2012, afinal… Daí que eles acabam filmando um ataque sangrento que rapidamente se torna a pior noite de suas vidas, que depois alguém decide compilar e transformar nesse filme. É importante que a pipoca esteja crocante, quentinha, talvez com um pouco de manteiga pra te ajudar a aguentar toda essa baboseira de filme ruim com bom humor. Às vezes faz bem. Filme mal feito deve ser motivo pra risada e aprendizado e construção crítica, jamais pra gente sentir só ódio!

Zero Day (Ben Coccio, 2003)

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Ahhh, SIM! Esse é um dos meus filmes preferidos, então eu peço que todo mundo o trate com cautela. É baseado nos eventos de Columbine High School em 1999, em que os adolescentes Dylan Klebold e Eric Harris planejaram por meses um genocídio contra outros estudantes, o “NBK” (que vem de Natural Born Killers, que também é um ótimo filme). Só que nesse caso, o massacre de Columbine foi real, e Zero Day talvez nem seja tão baseado exatamente nesse evento específico (apesar de continuar sendo o filme que se mantém mais fiel aos fatos reais de 20 de abril, se for comparar a outras representações e adaptações), mas em todos os school shootings que vem ocorrendo nas últimas décadas, especialmente em cidades pequenas dos Estados Unidos. Ben Coccio usou isso pra criar um found footage com Cal e Andre, dois adolescentes normais e saudáveis que iniciam um diário em vídeo enquanto planejam meticulosamente um massacre. Contém imagens de uma filmadora portátil, de câmeras de segurança da escola e tudo mais. É extremamente crível, e se você assistir, irá entender por que é tão fascinante ver como um diretor jovem e dois garotos com pouca experiência conseguem se entender tão bem quando um projeto dá muito certo.

Jeopardy (2002-2004)

jeopardy
Existe um quiz-game-show aleatório atualmente no ar na TV americana com esse mesmo nome, mas Jeopardy é uma série britânica onde oito estudantes de um clube de ufologia e seu professor são enviados a um bosque na Austrália para procurar OVNIs. A cada um deles, é dada uma câmera para gravar quaisquer evidências, e a série faz bastante uso de imagens de arquivo tremidas e mal captadas. Um aspecto adorável é que a série abrange todas as personas clichês e esteriotipadas de uma narrativa típuca adolescente: há o líder, a tomboy, a hippie, o heroico, a tímida, o atleta, a garota popular, etc., e todos eles se veem sozinhos num interior quando o professor Gerry desaparece. Não deve chegar a ser o Arquivo X infantil, mas as três temporadas de Jeopardy te permitem conhecer cada um dos personagens com suas personalidades bem definidas, escolher quem você vai torcer pra que seja abduzido, acompanhar os relacionamentos e problemas de cada um, e dar mais uma chance para a ficção da TV britânica, o que é sempre legal.

The Last Horror Movie (Julian Richards, 2003)

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Eu acredito fortemente que esse filme perde um pouco da graça se eu contar aqui o que acontece, ao invés de você ir direto assistir sem saber nada sobre. Mas posso adiantar que: é um found footage que recomendo bastante; a sequência que abre o filme é tão bonita com seu charme low budget; trata de um serial killer excêntrico e com uma presença um tanto bizarra; é mais especial pra quem esteve familiarizado com a época mais ou menos pré-2003 de aluguel de fitas VHS em locadoras. É um psicopata com sotaque inglês e uma câmera na mão, intitulando o projeto como “o último filme de horror”, então já dá pra tirar que tem sua graça. E eu garanto, assistam!

Mean Creek (Jacob Aaron Estes, 2004)

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E pra fechar, Mean Creek, que no Brasil foi lançado com os títulos de Pacto Maldito e Quase um Segredo. Esse é um filme independente que eu gosto bastante e que não é de todo um filme de found footage, mas o é parcialmente porque inclui gravações em vídeo feitas por um dos personagens. Ele é um garoto interpretado por Josh Peck (o Josh Nichols de Drake & Josh!) que tem alguma dificuldade em se relacionar com os outros e uma vontade imensa de filmar e documentar a própria vida de alguma forma, tentando exteriorizar o conteúdo de sua mente com uma câmera em frente ao espelho no seu quarto. Ao mesmo tempo, ele é um bully com umas menções pesadas de homofobia e completa falta de noção e compaixão com um garoto cujo pai cometeu suicídio, o que leva o irmão dele e amigos a planejarem vingança, encontrando uma forma de leva-lo a um passeio de barco no meio de uma floresta e ensinar-lhe uma lição. Na metade desse andamento, a maior parte desiste do plano, mas George vai se mostrando cada vez mais insuportável e um deles recusa desistir e pretende continuar. Nesse aspecto, é um pouco parecido com Bully (2001) com o Brad Renfro, que é um filme brilhante, mas a dramaticidade dos dois é completamente diferente. Bully é cru e todo o crime se passa na Flórida, com jovens imersos numa vida bastante adulta. Em Mean Creek, temos um elenco com Rory Culkin (nomeado por mim mesma como o melhor dos irmãos Culkin) e outras crianças com performances naturais, onde as fitas gravadas por George ajudam a construir alguma empatia e um maremoto de tristeza nos atinge cruelmente.

Autora do Post: Mariana Nascimento, ex-colaboradora do Pipoca Radioativa.



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