13
set
2016
Os Finais dos Filmes e os Spoilers!
Categorias: Especiais • Postado por: Matheus Benjamin

Recentemente comecei a pensar sobre três coisas muito intrigantes nesses tempos modernos com relação ao mundo do cinema: as pessoas que necessitam saber de todos os detalhes do filme para então assisti-lo, as pessoas que demonizam filmes inteiros porque não gostaram do final e as pessoas que decidem não assistir mais a um determinado filme porque alguém lhes deu um grande spoiler. E com esse texto pretendo falar um pouco sobre essas ideias e de quanto nós podemos ser mais livres conosco mesmos.

Em A História Secreta, livro da best-seller norte-americana Donna Tartt, nas primeiras páginas sabemos sobre um crime e quem o comete. Logo de cara a própria autora dá um spoiler gigantesco de sua história ao leitor e com isso nos prova que não faz mal saber um grande fato narrativo da trama, colocando suspense na forma como o crime é resolvido e o porquê de aquilo ter acontecido. Isso invalidaria a obra de alguma maneira? Ah, mas podem argumentar de que isso é uma exceção à regra ou de que não havia apego sequer a nenhum dos personagens, mas ainda assim trata-se de um spoiler.

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Cena de “O Sexto Sentido”, de M. Night Shyamalan.

Filmes antigos geralmente fazem com que certos grupos de pessoas pensem que todos já viram e que podem ser comentados sem medo. Durante muito tempo eu soube do plot twist de O Sexto Sentido, filme de 1999 dirigido por M. Night Shyamalan e não quis assistir ao filme até esquecer completamente sobre o que de fato a história tratava, mas agora, já amadurecendo a ideia, vejo que eu não sei nada sobre o longa e que assisti-lo mesmo sabendo seu provável desfecho não vai invalidá-lo de forma total. Claro que o exemplo citado aqui é de um filme de suspense em que é bacana ser surpreendido, mas mesmo assim não perde sua graça, pois o desenvolvimento e as explicações podem ser muito maiores do que este simples fato narrativo.

Nos dias de hoje é difícil ser surpreendente, pois as pessoas querem saber de todos os mínimos detalhes de seus filmes para só assim assisti-los. Seja a leitura da sinopse, a assistir ao trailer, teasers, imagens, comentários de pessoas que já assistiram, entrevistas, uma infinidade de possibilidades que podem te revelar várias coisas da história. Sou o tipo de pessoa que gosta de ser surpreendido sempre; não gosto de ver trailers, raramente leio sinopses e comentários, críticas então só depois de assistir aos filmes, é uma escolha minha e ligando com os parágrafos acima: estou aprendendo a não me importar com spoilers, afinal de contas a forma é mais importante que o fato em si. Assistir a algum filme (ou até mesmo série ou minissérie) é um exercício de descobertas, entro na sala do cinema querendo descobrir o que o diretor e sua equipe pensaram para o espectador e fico bastante feliz quando eles conseguem surpreender positivamente (ou, até em alguns casos, negativamente). É o caso de Incêndios, longa de 2010 dirigido por Dennis Villeneuve, que eu recomendo que seja assistido sem saber qualquer detalhe de sua história, pois as surpresas narrativas são incríveis. Mas, caso você as saiba, procure não ignorar a grandeza que o filme tem por trás de todos esses fatos.

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Cena de “Incêndios”, de Dennis Villeneuve.

E ligando novamente Incêndios ao assunto do post, vejo muitas pessoas que demonizam o filme por completo porque ficaram insatisfeitas com o seu desfecho. E aqui levanto uma questão: a gente deve mesmo julgar toda uma obra por uma pequena parte? É isso que geralmente se faz quando se demoniza um filme todo pelo seu final. Acredito ser uma coisa mesquinha da parte do espectador, pois se o filme tem aspectos positivos em todos os campos de produção (direção, trilha sonora, arte, fotografia, elenco e etc) e dá ao espectador uma infinidade de bons sentimentos, em alguns casos até grandes lições e questionamentos, vale mesmo julga-lo por uma pequena parcela?

Vou falar de um caso que aconteceu comigo e que me fez repensar muitas coisas: eu assisti ao longa Cidades de Papel (baseado no livro homônimo escrito por John Green) por conta da grande recomendação de um amigo, que foi ao cinema e se apaixonou pelo enredo. Acabei assistindo tempos depois; achei o primeiro ato falho e a passagem para o segundo ato bastante interessante, continuei assistindo até me pegar altamente cativado pelos personagens que ali foram inseridos e o contexto de sua road trip, onde a trilha sonora me deu alguns tapas e me fez chorar. Achei o resto da história péssimo, sem falar que a atriz principal não me convenceu. Dei uma nota neutra ao filme (3 – nem bom, nem ruim) por ele não ter me cativado por inteiro, mas por ter me dado bons momentos enquanto o assistia. Certas cenas me fizeram refletir sobre o fato de termos que tomar decisões na vida, decisões que nos são impostas quando completamos uma certa idade e adquirimos responsabilidades.

Cidades de Papel, longa dirigido por Jake Schreier.

Cidades de Papel, longa dirigido por Jake Schreier.

Hoje em dia passo a não invalidar mais os filmes, as minisséries e as séries por conta de pequenos detalhes que são falhos, afinal de contas são feitos por humanos e errar é humano (perdoe a frase clichê). É notável sabermos aproveitar as boas coisas, os bons momentos em que passamos assistindo, afinal gastamos um tempo de nossas vida nos dedicando, é bom que ele tenha coisas a nos acrescentar.

Acho que é isso. Vamos ser mais livres com nossos filmes, vamos aproveitá-los em sua totalidade mesmo que já saibamos detalhes de sua história, mesmo que o final seja ruim, mas  o resto seja bom e mesmo que não saibamos absolutamente nada sobre eles. Bons filmes!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.