11
set
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “O Sétimo Continente”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Pedro Bonavita
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O Sétimo Continente (Der Siebente Kontinent)

Michael Haneke, 1989
Roteiro: Michael Haneke
Áustria
Wega Film

4.5

Michael Haneke é um diretor para poucos. O austríaco é um dos cineastas que melhor consegue transmitir a angústia do ser humano. A forma como ele destrincha a psicologia humana é de tirar o chapéu. Porém, suas obras não podem ser vistas a qualquer momento. É necessário que o espectador esteja bem consigo mesmo para não ter seu emocional muito afetado por tudo aquilo que o filme se propõe a discutir das relações humanas. Se um longa de terror mexe com a nossa cabeça de maneira que faz com que a gente tenha medo de qualquer barulhinho estranho por algumas horas, os filmes dirigidos por Haneke mexem com o psicológico por dias. É impossível passar por uma de suas obras sem um (grande) momento de reflexão. E, por exemplo, quando um título sugere um filme mais amigável, como Amor, o diretor consegue ao final deixar o espectador ainda mais angustiado do que nos seus longas mais depressivos, como esse O Sétimo Continente.

O roteiro acompanha a história de uma família de classe média alta, com uma vida aparentemente normal e bem resolvida, ao menos financeiramente. O cotidiano que envolve aquele pai (Dieter Berner), mãe (Birgit Doll) e a filha (Leni Tanzer) é o mais comum possível: acordar cedo, escovar os dentes, tomar café da manhã, ir trabalhar, ir pra escola, voltar pra casa e dormir. A aparência de família feliz, daquelas parecidas com comercial de margarina. Com o passar do tempo, quando tudo parece que vai apenas melhorar (já que Georg, o pai, é promovido), é quando o mundo daquelas pessoas começa a desabar, justamente por causa da monotonia com que vivem.

Não querendo deixar o espectador confortável em um só segundo, Haneke consegue nos tirar da zona de conforto desde a primeira sequência. Ainda sem contar nada sobre a história, o longa começa com planos de um carro sendo lavado em um lava-jato, trazendo detalhes de como aquela máquina limpa os veículos, praticamente em tempo real, mostrando desde o início um tom claustrofóbico da película. Em seguida, a apresentação da família se dá sem que seus rostos sejam mostrados, apenas detalhes dos corpos e da rotina. Porém, só começamos a conhecer de verdade aquela família quando Anna começa a ler uma carta que escreveu para seus sogros, contando como estavam suas vidas naquele momento. A escolha do diretor por esse tipo de apresentação afasta as personagens do espectador, ao mesmo tempo em que aguça a curiosidade que faz com que ninguém desligue o filme ou saia da sala de exibição. Haneke consegue prender a atenção através da angustia que nos causa.

A descrição da vida sem problemas, quase perfeita daquela família feita na carta enviadas aos avós da menina Evi, contrapõe totalmente com o ambiente narrativo proposto pelo diretor. Isso porque todo o ambiente ali retratado consegue causar um desconforto gigante em nossos sentidos. Não só pelos planos mais fechados do lava-jato, mas também pela escolha do uso de sons diegéticos do cotidiano da cidade (trânsito, barulho de obra, etc.); o vento forte presente na rua, o cinza de um inverno escuro; todos os elementos técnicos contribuem para mostrar a tristeza e o vazio da vida daquelas três pessoas.

A própria mise-en-scène criada por Haneke acaba contribuindo para essa frieza passada pelas lentes. Um exemplo claro disso é na cena onde o casal transa, perto da hora do despertador tocar. O inverno austríaco não permite a entrada da luz do nascer do sol pela janela e o quarto permanece mal iluminado, enquanto a câmera nos revela um sexo sem tesão algum, com o casal vestido, cumprindo apenas um protocolo do matrimônio. A intenção do diretor não é retratar um casal que não se ama, muito pelo contrário, com o desenrolar do roteiro descobrimos inclusive uma cumplicidade bonita neles, porém, acaba sendo um retrato de uma sociedade com outras prioridades, onde a carreira profissional acaba ofuscando os momentos mais belos o ser humano tem pra viver. A frieza não é retratada somente no seio daquela família, mas também em toda a sociedade: quando o antigo chefe de Georg volta pra pegar suas coisas na empresa, descobre que está tudo encaixotado no RH, é como se a fila tivesse andado sem nenhum ressentimento, nem ao menos um agradecimento a tudo que aquele senhor já devia ter feito pela empresa; outro momento marcante é quando Anna está na fila do consultório médico, sentada com mais duas pessoas em um banco, quando uma delas se levanta pra entrar na sala de atendimento, Anna sutilmente chega para o lado, deslizando pelo assento e se afastando do desconhecido, que está o tempo todo lendo uma revista, dando a mínima para o que passa em volta. Nesse sentido, Haneke mostra que a falta de empatia é presente no cotidiano da sociedade desde sempre e que os smartphones não são os únicos culpados pela falta de diálogo atualmente, é apenas mais uma peça que contribui para o afastando do ser humano.

Se o destino conspira a meu favor? Não sei. Porém, assisti a O Sétimo Continente dias depois de Aquarius e não é muito difícil fazer uma comparação entre as duas obras. Enquanto o longa brasileiro é praticamente uma ode à vida e às nossas memórias (belas ou ruins), o austríaco é exatamente o contrário. A família não tem apego algum à vida e aos objetos que conquistaram. Não existe apego nem pela vida, a impressão que se tem é que ao enjoar, ela é jogada fora sem ressentimento algum, sem ao menos se importar com aquele que o cerca. Pouco se importam para as memórias de sua casa e de que cada coisa dali representa. Se entregam à depressão com uma facilidade que grita aos olhos. É angustiante a forma como se isolam em um ambiente totalmente destruído por eles mesmos.

Haneke consegue mostrar que não existe uma fórmula pra felicidade. E que se a fórmula existisse passaria muito longe da conta bancária e do sucesso profissional. Quando há um vazio na vida da pessoa, não é o dinheiro que preenche.

O Sétimo Continente é um retrato angustiante da sociedade ocidental, que deposita no emprego todo o seu futuro. Retrata, de maneira crua, pessoas que ao dar tanto valor às conquistas na carreira, deixam de lado as melhores razões para acreditar na vida, e ao perceber o tempo perdido, a vida já não faz nenhum sentido. Haneke, então, deixa uma importante lição para que o ser humano viva mais intensamente com aqueles que se ama e deixe a frieza reservada ao material.

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Na próxima semana a Volta ao Mundo em 80 Filmes permanece na Europa. O desembarque dessa vez será na Bélgica com o longa O Filho.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.