15
set
2016
Pipoca Clássicos: “Um Dia de Cão”
Categorias: Pipoca Clássicos • Postado por: Matheus Petris

Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon)

Sidney Lumet, 1975

Roteiro: Frank Pierson
Prêmios:  Melhor Roteiro Original – Óscar

Melhor Ator (Al Pacino), Melhor Edição – BAFTA

Warner Bros

5

Entre os aspectos que fazem os filmes de Sidney Lumet serem tão apreciados, com certeza poderíamos destacar sua mise-en-scène, notável em praticamente toda a sua carreira, desde a estreia em longas com 12 Angry Men, passando por Serpico, Network e The Verdict, entre outros. Em Dog Day Afternoon, não seria diferente.

Partindo de um caso verídico de um assalto a banco, poderíamos chegar a incontáveis filmes de ação ou dramáticos. Porém, neste caso, há de tudo um pouco, nunca se fixando em um gênero só. Quando nos deparamos pela primeira vez com os assaltantes, logo percebemos que são amadores, a começar pelo próprio líder, Sonny (Al Pacino), cujo nervosismo torna difícil esperar por um bom final para esta empreitada. Com o banco basicamente vazio e o assalto anunciado, eles até demonstram saber sobre características bancárias que nem todo cidadão comum conhece – motivo futuramente explicado pelo personagem de Al Pacino ter trabalhado em um banco. Porém, ao se depararem com o inesperado, a incompetência da gangue se mostra explícita. Sal (John Cazale), inicialmente sereno, acaba se revelando tão despreparado quanto Sonny. Ainda sobre Al Pacino, é impossível não relembrar a sua atuação em Serpico, filme anterior de Lumet, onde interpretava um agente da lei, situação exatamente oposta ao seu papel em Dog Day Afternoon.

A relação dos assaltantes com os funcionários do banco é curiosa e (até certo ponto) verossímil, pois todos acabam se sentindo vítimas da sociedade. A distribuição de renda e a relação trabalho-tempo-dinheiro ainda germinam incontáveis manifestações, algo muito bem representado neste filme, principalmente no diálogo telefônico entre Sonny e um repórter televisivo, cuja transmissão foi interrompida por ter falado a realidade da sociedade estadunidense de uma forma que a mídia não consegue aceitar, algo que viria a ser mais desenvolvido em Network, o trabalho seguinte de Lumet na direção.

Dog Day Afternoon corrobora uma relação entre classes, criando uma certa afeição entre os assaltantes e os empregados do banco – exceto pelo gerente, a representação do “patrão”, que age de forma egoísta em determinadas situações. Em certos momentos, os personagens fazem brincadeiras enquanto o tempo passa, em uma interessante relação de afeto que poderia não ser nada crível para alguns.

A crítica social deste filme encontra um ponto crucial no momento da soltura do primeiro refém, “confundido” com um dos assaltantes por ser negro e preso “por engano” pelos policiais, que ainda tentam justificar o injustificável, demonstrando um completo despreparo tático. Em outra situação, fala-se em um assassinato em massa causado pela polícia na tentativa de impedir outro assalto a banco ocorrido recentemente. Em uma terceira ocasião, um dos pontos de ebulição da trama, mais erros por parte da polícia, desta vez ao tentar invadir o banco pelos fundos, levando ao primeiro tiro disparado em cena (aos 53 minutos de projeção), o que é mostrado em uma decupagem bastante hitchcockiana, complementada por uma montagem acelerada e uma mise-en-scène apurada, elevando a tensão ao máximo.
Vale observar a desmistificação do american way of life por Lumet, algo bastante claro na montagem, no roteiro e na cenografia, como em uma placa no caixa do banco com os seguintes dizeres: “To change your vacation dreams into a reality”.

O personagem de Sonny é lírico, o que fica mais evidente com o desenrolar da história. Embora casado com mulher e tem filhos, seu coração pertence a outro homem. Aliás, um dos objetivos centrais do assalto para o protagonista é conseguir dinheiro para arcar com os custos da cirurgia de mudança de sexo de seu verdadeiro amor. A relação entre os dois é bela e poética, algo muito bem aproveitada por Lumet. Com tantas características “subversivas”, o público médio se sentiria ofendido com o filme, mas isso não ocorre em nenhum momento, pois tudo é feito de uma maneira bem ponderada.

E se no final a polícia alcança seu objetivo, isso se deve à origem do roteiro em uma história real, podendo não haver uma boa recepção do público se o final fosse outro.
Dog Day Afternoon confirma claramente o poder de direção de Sidney Lumet, em mais um de seus filmes clássicos, permanecendo extremamente atual.



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: "Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente". Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.