04
set
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Candy”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin
Candy

Candy

Neil Armfield, 2006
Roteiro: Neil Armfield e Luke Davies
Austrália
Califórnia Filmes

4.5

Desembarcamos na Oceania para conhecer a Austrália com um filme incrível dirigido por Neil Armfield. Candy tem um sabor amargo em seu roteiro, uma melancolia latente em sua arte e fotografia, além de uma crueza infinita por parte de sua direção. É um filme com cenas pesadas, com tramas dramáticas e personagens cheios de erros e acertos.

Baseado no livro Candy: A Novel of Love and Addiction, de Luke Davies e dividido em 3 partes: Heaven (Céu), Earth (Terra) e Hell (Inferno), o espectador conhece o casal formado por Candice (Abbie Cornish) e Dan (Heath Ledger). Os dois são artistas um tanto quanto fracassados em suas áreas; ela uma pintora e ele um poeta. Além de não conseguirem emprego no que gostam e passarem por certas dificuldades para manterem-se em pé, eles são viciados em drogas, sobretudo a heroína, e para sustentar seu vício fazem qualquer coisa, desde aplicar pequenos golpes em comerciantes e lojas grandes à prostituição e roubos valiosos. E o filme é basicamente sobre isso: um casal viciado em drogas que vai aos poucos se autodestruindo, ruindo qualquer passo de progresso em suas vidas, cuja tendência é terminar com algo extremamente ruim.

Essa trama por si só já seria o bastante para sustentar sua duração e mostrar, até didaticamente, os perigos que as drogas podem causar, sobretudo sua dependência (há cenas intensas e muito bem orquestradas sobre a abstinência que os dois enfrentam em determinado período) e em foco também entra a família de Candy. Seu pai (Tony Martin) parece saber dos perigos que cercam sua filha e tenta de alguma forma alertá-la, conversando por algumas vezes com Dan a respeito do que não quer que aconteça para ela. Já a mãe (Noni Hazelhurst) tem uma relação conturbada com a própria Candy, em intensa pressão, fazendo inúmeras cobranças e críticas que provocam algumas discussões sérias no decorrer da história.

As partes que procuram contar a história são bem marcadas. No Céu, há a felicidade e uma falsa plenitude do casal junto às drogas. Os dois vivem felizes, mesmo que com algumas dificuldades para conseguirem se manter e com ataques colaterais devido ao uso excessivo da heroína. É nessa parte em que o casamento e as declarações ficam claras. Na Terra, parece haver um choque de realidade, quando a vida cotidiana parece assolá-los. As discussões familiares vêm à tona, os dilemas, as crises. Candy passa a se prostituir para pagar as contas e cansada discute a todo momento com Dan, que parece não compreender. Ela até sugere que este faça programas, mas Dan não dá muita bola e começa a planejar alguma forma de ganhar dinheiro. É no final deste capítulo que o espectador descobre a gravidez de Candy e as decisões que os dois tomam para levar essa gestação a diante. É no desenrolar desses fatos que temos a cena mais triste e brutal do longa. É uma cena que entra facilmente na cabeça do espectador, mas ficará com ele ainda por muito tempo, mesmo depois da subida dos créditos. A construção narrativa, a direção de Armfield e a química dos atores em tela é algo impressionante e tocante, sobretudo por conta da fragilidade em que todos os personagens se encontram.

Há ainda a última parte, o Inferno, onde as coisas começam a desandar ainda mais. É nesse período, que vai encaminhando-se para o desfecho, que vemos a degradação e a constatação que um dos membros deste casal tem de que os dois não se fazem bem. É melhor que fiquem afastados por conta das circunstâncias. Candy vai enlouquecendo aos poucos e fazendo com que a sanidade de Dan também acabe sendo abalada. As drogas não fazem bem e demora para que os dois percebam. E o assunto abordado no filme vem a calhar no país onde o consumo de drogas recreativas é o mais alto do mundo, segundo o Relatório Mundial sobre Drogas de 2014, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC).

A trilha sonora tem pontos muito marcantes e o longa ainda conta com algumas narrações dos pensamentos dos protagonistas durante momentos muito impressionantes de suas tramas. A direção de arte trabalha com tons muito opacos, muitas vezes neutros e com cenários aparentemente calmos; em cenas de maior dramaticidade há a mescla com cores mais tensas e quentes. A fotografia é quase completamente aberta e aliada à direção é bastante distante em determinadas cenas. Há ainda a participação especial do incrível Geoffrey Rush (que, para quem não sabe, é australiano).

A aura melancólica, munida de excelentes atuações, drama na medida certa e com um roteiro intenso e brutal faz de Candy um dos filmes mais pesados sobre o tema. Merece ser visto por uma série de fatores, sobretudo o da conscientização. É um belo e tenro exemplo de como o vício às drogas podem levar à autodestruição de uma pessoa que tinha tudo para ser feliz de todas as formas. O desfecho é marcante e dá um pouco de esperança para aqueles personagens.

Na semana que vem, iremos viajar para a Áustria com o filme O Sétimo Continente, de Michael Haneke! Fique ligado!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.