18
set
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “O Filho”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva
20150529160749

O Filho (Le Fils)

Jean-Pierre e Luc Dardenne, 2002
Roteiro: Jean-Pierre e Luc Dardenne
Bélgica
Archipel 35, Les Films du Fleuve e Radio Télévision Belge Francophone

3

Se fosse um filme hollywoodiano, O Filho teria diálogos marcados por ressentimento, dor e culpa, trilha sonora melancólica e desfecho inspirador – seria, enfim, um típico drama sobre redenção. Mas esse não é o caso, já que estamos falando de um longa dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne. Com quase 40 anos de experiência na direção, a dupla tem no currículo duas Palmas de Ouro em Cannes (por Rosetta, lançado em 1999, e A Criança, de 2005) e um estilo marcado pelo olhar realista sobre a classe trabalhadora da Bélgica.

Em O Filho, temos a história de Olivier (Olivier Gourmet), um carpinteiro que aceita como aprendiz o jovem Francis Thorion (Morgan Marinne), que, cinco anos atrás, foi o responsável pelo assassinato do seu filho. Ainda atormentado pela perda, Olivier desenvolve uma obsessão por Francis, que não sabe que o seu mestre era o pai da vítima. Em pouco tempo, o carpinteiro acaba se aproximando e ganhando a confiança do jovem. O problema é que a hora de contar a verdade vai, aos poucos, chegando.

Os primeiros instantes já denunciam como vai ser o filme: a câmera segue os movimentos de Olivier em planos fechados no rosto do personagem. É a partir das ações dele que o espectador é levado a acompanhar o desenrolar da trama, que começa um tanto quanto enigmática – como não li a sinopse antes, fiquei curioso sobre o motivo do interesse do protagonista em Francis, chegando até mesmo a supor que o rapaz seria algum filho perdido seu (teoria reforçada pelo título do longa). Quando a ligação de Francis com o passado de Olivier é revelada, dei-me conta de que a situação era muito mais complexa. Olhar todos os dias para o rosto de alguém que lhe causou tanta dor não é nada fácil. Quando questionado sobre o motivo de ter aceito o jovem como aprendiz (e mais ainda, de mantê-lo sempre por perto), a resposta de Olivier é um “Não sei”. Confuso, ele não é um homem de muitas palavras: não são os diálogos que expressam grande parte dos seus sentimentos, mas, sim, os gestos e movimentos, sempre acompanhados de perto pela câmera dos Dardenne.

Transformado em um tipo extremamente realista pelo roteiro – um trabalhador de feições comuns e marcado por incertezas -, Olivier Gourmet mostra-se o ator perfeito para interpretar o personagem de mesmo nome. Não à toa, Gourmet ganhou, por esse papel, o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes. Logo atrás, o também talentoso Morgan Marinne injeta um misto de inocência e remorso a Francis, cujo crime encontra justificativa no fato de ter sua unidade familiar desestruturada.

Falando propriamente do roteiro, é evidente a intenção dos Dardenne de manter o controle sobre o espectador, que fica na expectativa do momento em que Francis descobrirá quem é o seu mestre. Sem pressa, eles costuram a história e vão mostrando como Olivier vai ganhando a confiança do assassino de seu filho – o ápice disso é quando Francis pede a ele para ser seu tutor. E todas essas cenas são construídas sem o auxílio da trilha sonora, pois, como dito antes, O Filho é um filme construído nos gestos, nos movimentos, nos olhares, ou seja, no silêncio. Sendo assim, muitos espectadores podem ficar descontentes com o final, que dispensa qualquer tipo de moralismo fácil. Mais que um conto sobre como o trabalho pode aproximar indivíduos, o longa dos Dardenne é um belo exercício de cinema, um retrato fidedigno da vida em sociedade.

Nossa Volta ao Mundo continua semana que vem, quando vamos visitar a Bolívia, representada pelo documentário Cocalero. Fique de olho!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!