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out
2016
Pipoca Clássicos: “Agora Seremos Felizes”
Categorias: Pipoca Clássicos • Postado por: Andressa Gomes
capa

Agora Seremos Felizes (Meet me in Saint Louis)

Vincente Minnelli, 1944
Roteiro: Irving Brecher, Fred F. Finklehoffe
MGM

5

Longa-metragem inspirado nas histórias da infância de Sally Benson, publicadas através da série 5135 Kensington Avenue, na revista The New Yorker, Agora Seremos Felizes é uma obra difícil de sumarizar. Seu enredo se estrutura em blocos, divididos de acordo com as estações do ano, conforme vai passando o tempo na história, que se inicia no verão de 1903 e se passa na cidade de Saint Louis. Temos como protagonista a família Smith, composta pelos pais: Anna (Mary Astor) e Alonzo (Leon Ames),  pelo avô (Harry Davenport), cujo nome não é mencionado, e pelos 5 filhos: Os jovens Lon (Henry H. Daniels Jr.), Esther (Judy Garland) e Rose (Lucille Bremer), e as crianças Tootie (Margaret O’Brien) e Agnes (Joan Carroll), além de Katie (Marjorie Main), a empregada que está há anos com a família.

Não existe um único conflito, plot ou acontecimento que se desenrola durante todo o filme, mas vários pequenos plots, tendo como foco diferentes personagens e suas aspirações, paixões, e medos com relação ao futuro. Em determinado momento, o pai recebe uma proposta de trabalho em Nova York, o que abala toda a família.

Um fator interessante é que todos as grandes mudanças, boas ou ruins, estão sempre prestes a acontecer dentro da família ou na cidade, pouco testemunhamos, como público, dessas mudanças se concretizando ou desse “futuro” chegando. Isso se reflete em algumas canções. Como por exemplo have yourself a merry little Christmas, na qual Esther, apesar de estar triste por romper com o namorado, procura esquecer sua tristeza por alguns momentos para consolar sua irmã mais nova, garantindo que tudo ficará bem, mesmo sem ter convicção no que diz.

As angústias que surgem sempre dão lugar a um sentimento otimista, normalmente proporcionado por outro membro da família. Aliás, esse é o grande tema do filme. Não existe nada mais importante que a família. Não importa onde você esteja, estará feliz e a salvo enquanto sua família estiver por perto. A personagem de Garland, inclusive, deixa isso bem explícito, quando precisa escolher entre seus familiares e seu namorado, John (Tom Drake).

De formar similar ao filme O Mágico de Oz (também estrelado por Judy Garland), a mensagem que fica é: Não há lugar melhor do que a nossa casa. Por casa, entendemos aqueles que nos rodeiam, aqueles que amamos e a quem chamamos de família. Nessa obra, os Smith possuem afeto e apego por Saint Louis, por tudo que a cidade testemunhou e proporcionou durante a vida deles. Todas as suas memórias, amigos e hábitos estão em Saint Louis. Para eles é só questão de tempo até que o mundo todo se renda à beleza e magia presentes na cidade.

Essa mensagem otimista não estava ali por acaso. No início da década de 1940, os musicais da Metro Goldwyn Mayer estavam no auge. Esse sucesso se dava, em parte, devido à natureza nostálgica de grande parte dos filmes do gênero. Enquanto a realidade do mundo era a guerra, a preferência do espectador tendia para os musicais de época, que proporcionavam momentos de alegria e escapismo.

Importante mencionar alguns fatos a respeito de Vincente Minnelli, um dos diretores mais talentosos que já trabalhou em Hollywood. Vindo de uma família de artistas e intelectuais, Minnelli trabalhou no teatro muitos anos, como cenógrafo e diretor, em Chicago e na Broadway. Em 1940, foi descoberto pelo chefe do departamento de musicais da MGM, Arthur Freed quando estava na Broadway. A principio Minnelli ficou no departamento de arte e de criação de números musicais de outros filmes, até começar a dirigir seus primeiros filmes. Em parceria com Freed, realizou diversos filmes, incluindo Agora Seremos Felizes., que foi o terceiro de sua carreira e primeiro em Tecnicolor.

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O diretor Vincente Minnelli e o produtor/músico Arthur Freed.

Sua experiência no teatro e paixão pela arte, se refletem em seu estilo. Muitos descreviam seu trabalho como artesanal, ele buscava a harmonia estética do quadro , assim como um pintor. Cada cor, luz, objeto de cena e figurino presentes em cada plano, normalmente, está pensado em uma lógica de simetria e proporcionalidade. Perfeccionista ao extremo, Minelli pesquisou a arquitetura da época e pediu o auxílio de Sally Benson, que no filme foi representada pela filha caçula Tootie, para que esta descrevesse cada detalhe do bairro e da casa em que a família vivia, pois queria que os cenários fossem os mais autênticos possíveis.

O que mais chama a atenção nesse e em outros de seus filmes é a extrema sofisticação nos cenários, figurinos, atores e todos os elementos que compõem o quadro. Ainda que a família Smith não fosse rica ou que os cenários nem sempre fossem sofisticados, Minnelli tinha talento para, através de sua lente, mostrar ao público, a beleza escondida na simplicidade e no cotidiano. A personagem de Judy Garland, por exemplo, toda vez que tem um solo, é enquadrada como numa pintura ou porta-retratos. O amadurecimento e estado emocional dela e dos outros personagens se refletem também nas cores das roupa que vestem. A música, o ambiente e o sentimento dos personagens, estão sempre em harmonia.

Em Agora seremos Felizes, Minnelli iniciou uma tendência na linguagem do gênero. Ele quebrou a divisão que existia entre a narrativa e as performances musicais. Até então, grandes musicais como A alegre divorciada (The Gay Divorcieé, 1934), Duas Semanas de Prazer ( Holyday Inn, 1942 ), Vamos dançar? (Shall we Dance?, 1937) eram predominantemente expositivos com relação aos números musicais. As canções não tinham tanta substância, não moviam a história nem acrescentavam informações sobre os personagens. Ainda que belos, sofisticados, e as vezes faraônicos, a maior parte dos números, poderia ser deletada dos filmes sem prejudicar o enredo.

Na linguagem de Minnelli, a maior parte das performances revelam, de forma direta ou indireta, algo novo a respeito da história e dos personagens. Os diálogos, ações, pensamentos e delírios estão entrelaçados de forma orgânica e graciosa. A música conduz e não interrompe a ação da trama. A canção surge a partir de uma ação ou situação cotidiana simples, mas que ganha um outro ar, sob a ótica do diretor. A performance de Judy Garland com a canção The Boy Next door, por exemplo, expressa os sentimentos de sua personagem na canção, além de externar e transmitir visualmente, toda uma vulnerabilidade por parte da personagem. Esther, neste momento, está mais apaixonada pela ideia de se apaixonar do que pela pessoa de seu vizinho. Não existe uma coreografia extravagante ou qualquer outro objeto no quadro, que não seja Esther, perdida em seus pensamentos. Minnelli consegue revelar a profundidade presente no momento e permitir que o público entre nos pensamentos da personagem.

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Judy Garland em cena, cantando “The Boy Next Door”.

Na canção The Trolley Song, que se passa em um bonde, Esther está rodeada de amigos, mas ansiosa, esperando John chegar. Ela aos poucos se deixa contagiar por eles e começa a cantar sem nem notar a chegada de John e, quando o vê, fica visivelmente sem graça. A personagem está em processo de amadurecimento, ainda não deixou totalmente a adolescência. Mais uma vez, demonstra estar mais confortável com uma idealização de John do que com o próprio. Na sequência , ela é a única vestida de preto e sem chapéu. Sua alegria e simplicidade é emoldurada pelo colorido calculado dos figurinos e do movimento dos coadjuvantes em harmonia com o seu.

O mundo de Agora Seremos Felizes é utópico, e promove os valores do chamado “American Way of Life“, o que é compreensível pelo momento histórico em que foi produzido. Notam-se nos personagens, alguns reflexos da mudança do papel da mulher na sociedade, que passava a ter mais voz, e não se limitar a ser do lar. O pai, por exemplo, demonstra mais preocupação em ver a filha na Universidade do que casada.

Qualquer um que possui muitos irmãos ou simplesmente cresceu em um ambiente com família grande irá se identificar em vários momentos, se divertir com as piadas atemporais, físicas e verbais, e também se emocionar com os momentos tristes e com os gestos de amor que os membros da família Smith tem uns com os outros e que seja a ser quase palpável para o espectador.

Todo o elenco esta muito bem, em particular, Leon Ames, como o líder da família, que consegue transmitir muito bem a rigidez e seriedade de seu personagem, sem nunca perder a doçura e o elemento cômico. Sem dúvida nenhuma, o personagem mais divertido do filme. Judy Garland está em seu melhor momento, mais madura e segura no domínio da personagem. Ela já vinha buscando se livrar do estigma infantil de Dorothy há algum tempo e concretiza isso de forma brilhante.

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A família Smith.

Se alguém me pedisse para apresentar o trabalho de Minnelli, sem dúvida nenhuma, indicaria esse filme. Agora Seremos Felizes é uma verdadeira síntese de todos os elementos constantes em sua obra. Minnelli enxergava o cinema como mais uma forma de expressão artística, e, por isso, um meio que tinha como uma das funções essenciais: encantar e fazer o público sonhar, buscar a beleza. Seu universo é mágico, repleto de infinitas possibilidades, com elementos cômicos e de melodrama.

Os personagens e a química entre eles, fazem o espectador se interessar pela família e acompanhá-la. O carisma, e a dinâmica entre os atores na família, prende a atenção e ganha o espectador logo de cara em um roteiro aparentemente “parado”. Um elenco sem a mesma química, tornaria o filme arrastado. Como em uma sitcom, os personagens, na sua convivência e a forma como lidam com situações cotidianas, são o principal atrativo, e não as grandes reviravoltas ou a trama. Desde a primeira sequência, já somos colocados na cozinha, um dos cômodos mais íntimos de um lar. A câmera de Minnelli cativa o público e torna facilmente cativantes aqueles personagens, consegue dar a impressão de que estamos olhando pelo buraco da fechadura.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em "The Big Bang Theory", alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.