25
out
2016
Entrevista: Luiz Antônio Lobue, o dublador do Dr. House, Piccolo e muitos outros!
Categorias: Entrevistas • Postado por: Marcelo Silva

“Dublado ou legendado?”. Sempre que essa pergunta era feita em sala de aula, os ânimos se exaltavam e a classe se dividia em duas. “Vocês não sabem ler, não?”, atacava um dos lados. O outro retrucava: “coloca dublado. Não tô com vontade de ficar lendo”.

No meio disso tudo, estava eu. Na época, não sabia nada de inglês, odiava ler legendas e só assistia a filmes dublados, usando sempre o argumento de que era preciso valorizar a nossa língua (??).

Hoje – uns seis ou sete anos depois dessa fase -, opto sempre pela trilha original de tudo o que vou assistir. Mesmo assim, minha curiosidade sobre o trabalho de um dublador sempre foi grande. Como esses profissionais se preparam para emprestar a voz a um personagem? Dublar animação é mais fácil? É verdade que temos a melhor dublagem do mundo?

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Luiz Antônio Lobue (ao centro) e alguns dos personagens para os quais emprestou sua voz.

Para responder essas e outras perguntas, bati um papo com o dublador profissional Luiz Antônio Lobue, que tem uma ampla experiência dublando personagens de filmes, séries, desenhos e animes. Entre eles, estão o Dr. House (da série House), John Locke (Lost), Piccolo (Dragon Ball Z), Kowalski (Os Pinguins de Madagascar), Aioria de Leão (Os Cavaleiros do Zodíaco) e Bill (Kill Bill 2). Confira a entrevista:

Pipoca Radioativa:  É comum ouvir pessoas falando que a dublagem tira o “brilho” da atuação dos atores que vemos em cena, já que substitui a voz deles. Outro argumento recorrente é o de que muitas pessoas só escolhem ver um filme dublado por terem preguiça de ler as legendas. Na condição de dublador, como você enxerga essas críticas? Elas têm algum fundamento para você?

Luiz Antônio Lobue: Houve um tempo em que muita gente preferia o áudio original com legenda porque, depois de finalizada a dublagem, a qualidade do áudio caia vertiginosamente. Isso acontecia porque a mixagem era feita em acetato, aquela fita de vídeo-cassete. Depois do advento da tecnologia digital, a diferença de som na mixagem final é imperceptível e os fãs passaram a prestar mais atenção ao trabalho da dublagem também. Em um filme de ação, os efeitos sonoros ficavam muito ruins –  o que agora está equalizado.

Quanto a tirar o brilho da atuação, tive vários exemplos de colegas que são venerados justamente porque tinham um timbre de voz e uma interpretação muito melhores do que a do ator do filme. Mas é difícil responder a isso; teríamos que fazer uma pesquisa de mercado para avaliar. Eu costumo dizer que a pessoa que assiste a um filme do Hitchcock legendado perderá o que era uma marca registrada dele: ele sempre aparecia de costas ou de passagem em uma cena. Quem vê um filme legendado invariavelmente está olhando para o pé da tela.

PR: Como é a preparação para dublar um personagem? Há algum tipo de treinamento e estudo específico para cada papel?

Lobue: Não, o ator [dubladores também são considerados atores] chega ao estúdio e o diretor diz a ele como é a linha do personagem. O dublador trabalha com uma tela à sua frente e uma estante onde deve estar o texto do filme traduzido e um fone de ouvido. Daí, já com o fone e uma caneta na mão, ele ensaia a cena fazendo as devidas anotações ou correções de texto – pode pedir para ensaiar mais de uma vez e depois gravar. No caso de séries, em que o dublador fará vários capítulos e terá a oportunidade de viver situações diferentes, ele acaba criando uma identidade com o ator do filme.

PR: Você tem experiência dublando tanto personagens de filmes live-action – ou seja, “de carne e osso” – quanto de produções animadas. Já vi comentários dizendo que dublar animação é relativamente mais fácil. Isso é verdade? Por quê?

Lobue: Não é uma verdade absoluta. No desenho, você tem mais liberdade,  já que pode criar e brincar mais com o personagem que está fazendo. Torna-se mais divertido e parece ser mais fácil, mas já enfrentei desenhos bem difíceis de se dublar.

PR: Outra ideia muito disseminada na Internet é a de que a dublagem brasileira é uma das melhores do mundo. Você concorda com essa afirmação? Se sim, o que a nossa dublagem tem a mais do que a de outros países?

Lobue: Tenho que concordar, até porque é uma opinião não apenas brasileira, mas também internacional e existe uma resposta para isso. Nosso trabalho é mais cuidadoso no tocante a sincronismo e interpretação. Em muitos países, não existe esse cuidado – para eles, basta que seja colocado na língua local e as pessoas entendam. 

PR: A maioria das salas dos cinemas comerciais é ocupada por filmes em cópias dubladas. De algum tempo para cá, muitos canais de TV a cabo (como o Universal Channel) deixaram de oferecer apenas a opção legendada e incluíram o áudio dublado. Sendo assim, é possível dizer que o mercado da dublagem mantém-se forte no Brasil? As oportunidades para quem quer trabalhar na área são numerosas?

Lobue: Como costuma se dizer, não existe almoço grátis. É claro que os canais a cabo sentiram que as produções dubladas estavam atingindo uma massa maior de espectadores. Se quisessem se manter com a audiência desejada, precisariam dispor dessa opção –  o que veio a aumentar substancialmente nossos trabalhos. Oportunidade sempre existe em todos os ramos, cada um com sua especificidade. Dizer que é só chegar que tem muito trabalho não é verdade. Dizer que tem trabalho, mas precisa estar apto para realizá-lo é mais verdadeiro.

No nosso ramo, especificamente, é preciso investir tempo porque tem um lado técnico. É preciso estar absolutamente ligado no trabalho dos profissionais que já atuam e absorver o talento de cada um. E, por último, aquilo que a gente só vai saber quando a pessoa já estiver fazendo alguns trabalhos: o próprio talento, que é o que diferencia um dublador de outro.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!