22
out
2016
Festivais: “40º Mostra de São Paulo – Dia 1”
Categorias: Festivais • Postado por: Matheus Petris

Comentários sobre os filmes vistos no 1º dia da 40º Mostra Internacional de Cinema São Paulo Int’l Film Festival.

280462

Interrupção

Direção: Yorgos Zois

País: Grécia, França, Croácia

Ano: 2015

Os contos da mitologia grega são inúmeros, volumosos diga-se. Já foram adaptados de várias maneiras, seja em música, teatro, cinema, pintura, etc. Aquilo que ‘Interruption’ faz, é um pouco diferente do que estamos habituados. Ele adapta o conto de Orestes em forma teatral para o cinema.

O comandante da peça, ao utilizar pessoas da plateia para reproduzirem o mito de Orestes, faz questionamentos básicos, falando calmamente com cada participante, e nessa conversa podemos absorver um pouco de cada um e de seus anseios. Ele – o protagonista – faz basicamente uma análise de perfil psicológico de cada um. Assim, acaba por demonstrar a própria condição humana, uma condição naturalmente infeliz. E é exatamente sobre isso que o filme trata: humanidade ou a falta dela.

O filme acaba se mostrando também um terror psicológico em determinado ponto e beirando o surrealismo. Os personagens da peça não tem certeza se tudo aquilo é real ou uma encenação dentro de uma encenação, e é exatamente essa a sensação que nós como público sentimos. O design de som do filme é peça fundamental na inserção de todos na trama. Com uma ótima mixagem e edição, temos momentos chave comandos pelo som.

O que ali foi verdade, não saberemos – nem eles. Mas algo se mostrou certo ao longo da trama: nós, seres humanos, temos o prazer pelo mórbido e ver mais sangue ou violência sempre acaba despertando e atiçando nossas curiosidade. Isso se aplicou a plateia e a nós.

El Olivo

Direção: Sergi Galardo

País: Espanha

Ano: 2016

Orgulho é o sentimento chave dentro de ‘El Olivo’, ele o comanda. E claro, a inverossimilhança presente a quase todo momento. Com um roteiro bem típico de dramas que tentam arrancar lágrimas do telespectador a todo custo, ‘El Olivo’ se sustenta em alguns momentos cômicos, esperançosos e no amor de uma neta por seu avô.

Se existe algo de bonito no filme, são as oliveiras. A árvore que já é bonita e imponente por si só, acaba por ser um personagem dentro da trama. Ela é utilizado com um motivo bem extremo, bem diferente daquilo que vimos Kiarostami fazer em ‘Através das Oliveras’, mas é impossível ver um filme com oliveiras e não lembrar deste.

A verdade do filme consiste na viajem que eles fazem, quando filme se agarra no estilo ‘Road Movie’. A grande maioria da verdade contida no filme está nessa viajem e na relação entre os personagens que a protagonizam. O alivio cômico do filme é também o melhor personagem é Alcachofa (Javier Gutiérrez) – tio da protagonista. Seus momentos em tela são todos certeiros, seja pela própria atuação como escolha de roteiro. Em cenas icônicas do filme: como o roubo da estátua, a quebra da estátua e o recado que ele recebe por telefone e têm que dar a Alma (Anna Castillo), sua sobrinha.

Existem poucas coisas que nos fazem admitir nossos erros e perdoar o próximo. Reconhecer isso é algo trivial no relacionamento interpessoal, e descobrir isso através da dor é o pior choque de realidade que podemos receber. Seja como personagens de filmes ou como seres-hunanos.

Banco Imobiliário

Direção: Miguel Antunes Ramos

País: Brasil

Ano: 2015

Um documentário sobre o mercado imobiliário em São Paulo é algo deveras complexo. Megalópole que é, São Paulo se tornou um caos. É difícil encontrar algum morador – ou mesmo turista = que não reclame da cidade. Seja pelo trânsito, sujeira, segurança pública, etc.

A causa disso tudo? É quase que impossível responder essa pergunta de forma sintética. Mas obviamente quase tudo está ligando no rápido crescimento populacional, e no caso de São Paulo, na concentração das pessoas aqui. Que todos sabemos, o Brasil existe o eixo Rio-SãoPaulo, quase tudo se encontra por este eixo. Então é natural que isso atraia as pessoas para essas cidades. Mas aí é que a entra a questão: se não tem espaço o que fazer? Construir prédios e mais prédios.

Colhendo o depoimentos de trabalhadores da área do mercado imobiliário, desde corretores de terrenos, a construtoras e corretores imobiliários, o documentário está mais preocupado em nos jogar informação a todo minuto em tela do que qualquer outra coisa. Todos esses problemas pontuados já são de conhecimento público e devem ser dialogados. E neste caso, é um “monólogo”. Observando apenas um lado da moeda, temos a todo tempo a defesa do mercado e a busca pela benevolência por parte de seus personagens. Como estão acostumados, os corretores vendem sonhos também com ideias, não só com propriedades. Temos depoimento do tipo: não existe                 especulação imobiliária.

Se nos aspectos técnicos e na captura de São Paulo o documentário não deixa a desejar, temos a sensação de vazio, de algo faltando, de alguma coisa a ser dita. Fica-se a pergunta. Por quê?

Yohji Yamamoto | Dressmaker

Direção: Ngo The Chau

País: Alemanha

Ano: 2016

O artista deve fazer arte por amor. Aquela velha frase clichê mas que se encaixa perfeitamente em todo tipo de arte. Yohji Yamamoto é uma figura curioso e que prova a veracidade desta frase. Reconhecimento mundialmente como um dos mais estilistas de todos os tempos, ele ainda continua produzindo sua arte no mundo da moda.

Neste documentário sobre sua vida, conhecemos seu dia-a-dia de Yohji, os motivos que o levaram a desenhar/costurar roupas, seus medos e suas inspirações. O documentário é acessível a qualquer tipo de público, ele intriga até os que não conhecem absolutamente nada de moda – como eu. O fato dele ser um artista e amar o que faz, é o que traz o público bem pra perto. Ele a todo momento nos instiga a vivermos nossa vida como queremos e buscarmos incansavelmente por nossos sonhos.

Porém, como todo ser-humano, ele possuí seus momentos infelizes. Mesmo sendo rico, famoso, trabalhando com o que mais ama, ele ainda não é feliz. O mundo da moda é um mundo de aparências e socialização, e esses tipos de eventos superficiais e fabulosos incomodam Yohji. São apenas eventos de vaidade que ele acaba fazendo por obrigação.

A mente de um artista é sempre algo mais complexo do que sê imagina – por mais que imaginemos algo também complexo. Yohji com sua serenidade, nos ensina muito ao longo do filme e deixa várias frases cravadas em nossa memória.



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: “Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente”. Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.