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out
2016
Festivais: “40º Mostra de São Paulo – Dia 2”
Categorias: Festivais • Postado por: Matheus Petris

Comentários sobre os filmes vistos no 2º dia da 40º Mostra Internacional de Cinema São Paulo Int’l Film Festival.

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Tanna

Direção: Bentley Dean e Martin Butler

País: Austrália, Vanuatu

Ano: 2015

Representar uma história indígena é uma faca de dois gumes. É preciso ter total domínio sobre o que quer contar e a certeza de como irá fazer. Tanna é um ótimo exemplo de uma adaptação que deu extremamente certo. A escolha em utilizar os próprios índios para o elenco não poderia ter sido mais assertiva. Impossível não lembrar de ‘Roma, Cidade Aberta’ de Rossellini. A utilização de pessoas que vivem dentro daquele mundo imprime uma veracidade impossível de ser conquistada de outra forma.

A história por trás de ‘Tanna’ pode ser recheada de clichês, mas ela apresenta tanta verossimilhança que os clichês são esquecidos em meios as atuações indígenas e o amor que eles sentem por tudo aquilo. Todos os planos do filme possuem uma beleza natural, são tantos planos gerais de tirar o fôlego. E eles não são usados de forma gratuita, mas sempre em prol da narrativa. Assim como a própria trilha sonora, que lembra e muito cantos indígenas, sempre acompanha a vida daqueles personagens e permite que o público adentre ainda mais no filme.

É curioso como a cultura e os costumes são completamente diferente dos nossos, e mesmo assim, possuem tantas semelhanças. A inclinação humana às guerras parece ser algo natural, e ali ela também existe. Nós, que somos considerados uma “sociedade mais avançada” cometemos ainda os mesmos erros – e até piores. O egoísmo e a falta de complacência são sentimentos que ainda permeiam todos os seres-humanos, indiferente de sua cultura.

A necessidade de crer em algo maior, um ser-superior, é também um ponto chave das superstições indígenas. Eles a vivem como se aquilo fosse a verdade máxima, tal como a nossa “sociedade contemporânea”, que se diz tão avançada. Eles adoram um vulcão que representa seu Deus, com a diferença que eles podem vê-lo e ouvi-lo. A proximidade do vulcão e Deus também lembra um outro filme de Rossellini: Stromboli. Ingrid Bergman sobe o vulcão e se aproxima de “Deus”.

Tanna é um ótimo exercício para aprendermos com os índios e chegarmos bem próximo a eles. O amor é algo natural e forte por natureza, e sempre deve ser levado em consideração primeiro de qualquer crença ou costume. Assim como diz a música cantada por um dos chefes da tribo: “Vocês nos negaram uma vida juntos.”

Os Demônios

Direção: Philippe Lesage

País: Canadá

Ano: 2015

Tratar de temas como a pedofilia é algo extremamente perigoso. A forma de como deve ser feito têm que ser muito bem pensado e não recheado de cenas gratuitas para chocar o público. A escolha de representar a vida de uma criança e seu dia-a-dia, seus anseios e dúvidas é o ponto chave para que se preparemos para o que virá. O filme faz uma espécie de “cama”, para no momento do choque estarmos preparados.

Impossível não filmar crianças e mostrar aquela característica mais bonitas da infância, tal como a ingenuidade. A relação entre os irmãos é um grande ponto de apoio para a trama, que por ser uma relação de amigos, onde todos se ajudam e pensam um no outro. Se a relação conturbada da família é um problema, eles precisam de algum suporte, e esse suporte é feito de forma coletiva, como um sinal de irmandade.

Momentos que permeia a infância, como a paixão platônica também é algo bem exprimido dentro da trama – e bem aproveitado.

Os planos longos são uma ótima escolha que para que o filme não seja muito acelerado e para que possamos absorvendo aos poucos toda informação nos dada. O travelling da piscina é uma boa representação da paciência e preparo que o diretor tem para com seu público. Eles nos prepara para aquilo que seria iminente.

A Garota Desconhecida

Direção: Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

País: França e Bélgica

Ano: 2016

O exercício médico é uma das profissões mais exaustivas. É difícil não misturar sua vida pessoal com a vida médica, por mais que se tente. E se a protagonista aconselha seu estagiário a não fazê-lo, ela acaba por cometer o mesmo erro, e se envolvendo com tudo. Por ser uma médica familiar, ela acaba se envolvendo com os pacientes e a família deles. Isso é bem representado na cena em que um de seus pacientes toca uma música pra ela, e ela decide continuar sendo sua médica.

Se ela não aceitou o outro emprego que tinha conseguido, o único motivo está no sentimento de culpa que habita ela, pós os acontecimentos frente a seu escritório. Assim como a decisão do estagiário em não continuar sua faculdade de medicina, após as palavras ditas por ela.  Palavras que depois viram um outro arrependimento dentro de sua mente, mente que já estava se remoendo ao máximo de sua capacidade.

Pela própria cobrança da profissão, as cenas seguintes são de tensão e angústia, ela passa seu dia-a-dia em prol do ocorrido. Ela precisa descobrir o nome da mulher, paga por seu enterro, e investiga até mais que a própria polícia. Em determinados momentos se arrisca, e esquece da própria vida. O sentimento de culpa e arrependimento é algo atormentador para qualquer humano, ainda mais sobre a condição de uma vida que você poderia ter salvo. E se tratando de uma médica, esse sentimento de culpa se intensifica ainda mais.

Se a campainha estridente nos incomoda durante todo o filme – assim como ela se vê incomodada. Ela consegue tirar um pouco de alívio em meio a isso tudo e tentar seguir com sua vida, mas o sentimento de culpa e arrependimento nunca a abandonará.

The Handmaiden

Direção: Chan-Wook Park

País: Coréia do Sul

Ano: 2016

O novo trabalho de Chan-Wook Park continua com sua assinatura, um diretor notoriamente autoral e apaixonado por Hitchcock. Seu mais novo filme é mais uma prova que ele ama o cinema hitchcockiano e que também ama o fazê-lo.

Como de costume, o filme é recheado de travellings, movimentações de câmera, panorâmicas, contra-plongée e plongée. É difícil para um diretor utilizar todas essas ferramentas e não utilizá-los de forma gratuita. Chan-Wook sempre foi uma prova de que isso é possível, desde JSA – Joint Security Area, ao famigerado Oldboy ou até mesmo Stoker. Por se tratar de uma história antiga, o design de produção é extremamente cuidadoso em todos os cenários e locações do filme, é impossível não se impressionar com sua qualidade.

Que o cineasta gosta de plots’s twists nós sabemos, mas a forma como eles os usa nesse filme é digna de aplausos. O filme que é dividido em 3 partes, nos conta cada vez uma espécie de ponto de vista, e nos acrescenta ainda mais a grandes cenas já exibidas. Complementando-as e as justificando.

A história, adaptada de um livro de Sarah Waters, pode ser uma história com uma quantidade imensa de clichês, porém, a forma como ela é apresentada e justificada acaba por amenizar tudo isso e nos atordoar a cada nova revelação. Se as cenas de sexo geralmente são gratuitas, aqui elas tem uma beleza poética e demonstram muito da personalidade de seus personagens e do amor que ali estava nascendo. Com visuais viscerais, o filme supera toda expectativa que ele o cria.

Para não deixar a violência de lado – algo seminal na filmografia de Chan-Wook – temos uma “bonita” cena de tortura, com direito a características que só esse cineasta poderia nos apresentar.

Uma outra cena de violência – mesmo que não literal -, seria a destruição dos livros. Aquilo que representa a sensação de liberdade e que seria o momento de mais fúria por parte das personagens.

Se o amor vence? É difícil dizer. Mas o amor constrói belos relacionamentos, sejam eles duradouros ou não, o amor faz com que desabrochemos as melhores sensações possíveis e faz com que vivemos a vida intensamente. The Handmaiden é um grito de seu cineasta para que vivemos nossa vida intensamente, indiferente de qualquer coisa.



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: “Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente”. Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.