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out
2016
Festivais: “40º Mostra de São Paulo – Dia 3”
Categorias: Festivais • Postado por: Matheus Petris

Comentários sobre os filmes vistos no 3º dia da 40º Mostra Internacional de Cinema São Paulo Int’l Film Festival.

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O Anjo Ferido

Direção: Emir Baigazin

País: Cazaquistão, França, Alemanha

Ano: 2016

Viver acima dos nossos limites não é tarefa fácil, e isso as classes mais baixas fazem o tempo todo. Com dificuldades de trabalho, alimentação, moradia, saneamento, e todos os aspectos básicos que são necessários para ter uma vida no mínimo digna. Se existem mentes que conseguem superar isso e se erguer dessas condições, elas ão exceções. Em ‘O Anjo Ferido’ é para isso que torcemos que ocorra, que os personagens das 4 histórias que são contadas sejam as exceções e superem todas as adversidades.

Com todos os problemas já mencionados, eles ainda sofrem do corte de energia no período noturno – medida do governo para tentar minimizar o caos econômico em que o país vive.

Dentro de cada núcleo de personagens temos famílias guerreiras que lutam para que suas condições sejam alteradas, apesar de tudo, algumas dessas famílias tem problemas internos que acabam por piores os problemas do personagem central desta. Então, além de contar consigo mesmo, ele acaba dependendo das pessoas a seu redor.

Só os motivos iniciais já seriam suficientes para levar muitas pessoas a insanidade, mas apesar da diversidades, eles não o levam. Possuímos um instinto vivido de sobrevivência, mas ele pode ser afetado se o que mais amamos é nos tirado, seja algo que fazemos ou que possuímos, quando isso é tirado de nós, é que a ponte para a insanidade se abre.

Live Cargo

Direção: Logan Sandler

País: Bahamas, Estados Unidos

Ano: 2016

Buscar remissão em um lugar “distante” da sociedade e de nossas casas é um subterfúgio comum. Ao passarmos por momentos de dificuldades, é natural que tentemos fugir de nossas realidades. Se ‘Live Cargo’ se atentasse a isso, não teria desperdiçado uma boa história.

Ao se debruçar em um assunto tão complexo como o de tráfico de pessoas, ele se deixa levar pelos personagens que não fazem sentido a trama proposta. Os personagens são jogados mais como desculpa de roteiro do que como presentes dentro da história.

Escolhendo filmar em preto-e-branca, nada acrescenta, pelo contrário, toda a veracidade e paisagens por trás daquelas ilhas são perdidas. Que o tráfico de pessoas é algo triste e mórbido, isso é óbvio, tentar reafirmar isso utilizando de uma fotografia preto-e-branca é chamar o telespectador de incompetente.

O motivo de luto do casal demora a ser explicado e também é desperdiçado. Tudo que o filme constrói como uma possível verdade é usado apenas como base do desfecho trágico daquilo que iria ocorrer.

Nem o carisma do “dono” da ilha, que junto a protagonista, protagonizam os únicos momentos de paixão e verdade dentro do filme, salvam o desperdício daquilo que poderia ter sido um grande filme.

O Quarto Homem

Direção: Paul Verhoeven

País: Holanda

Ano: 1983

Escritor e imaginação fértil são simbioticamente sinônimos. A descrição da sinopse dita bem aquilo que constrói este clássico de Paul Verhoeven. O tom de mistério está presente também durante o filme todo. Desde as alucinações – ou sonhos – sofridas pelo protagonista, até seu início de relacionamento com Halslag. Em determinado momento do filme, vimos um plano detalhe de uma corda em forma de forca, seria uma pista daquilo que seria eminente?

A forma como a religiosidade é abordada é curiosa, é possível interpretar de forma a uma simples casualidade ou uma proposital provocação com os mais crentes.

Toques oníricos também podem ser representados e fazem parte quase que da trama toda. Em determinados momentos, nem temos certeza do que é real, sonho ou simplesmente alucinação.

O erro dos personagens seria a cobiça ou a luxuria? Ambos são “pecados” que são cometidos a todo momento. Resta a nós escolhermos o fim desta trágica história.

Desconhecida

Direção: Joshua Martons

País: Estados Unidos

Ano: 2016

Quem não queria viver outra vida? Recomeçar tudo de novo, com um novo nome, profissão, sonho? Esta é uma pergunta em quê o negativo seria muito improvável.

Está vontade imensa de fugir e tentar ser outra pessoa não precisa necessariamente de um forte motivo, apenas a vontade de tentar ser outra pessoa e viver a vida de forma diferente. Este é o ponto chave de ‘Desconhecida’.

Obviamente que em meio a tudo isso, mentiras são normal e frutíferas. Com aquilo que se poderia em certa medida ser chamado de mentirosa patológica. Discordo. Apenas acho que a condição exija que a mentira exista. Quando Michael Shannon percebe isso, ele se vê completamente preso a esse novo mundo e se entrega totalmente, de corpo e alma. Se ele não tivesse sido interrompido por Rachel Weisz, provavelmente teria encontrado uma “nova vida”.

Shannon é extremamente subestimado em hollywood, mas em boas mãos ele imprime um poder que poucos atores hoje em dia conseguem. A presença dele é sempre forte dentro de tela, e sentimos aquelas incertezas que permeiam seu personagem como se fossem em nós.

O plano final representa o incompleto, a sociedade como um todo. Somos todos estranhos tentando se encontrar em um mundo caótico.

Depois da Tempestade

Direção: Hirozaku Koreeda

País: Japão

Ano: 2016

Poucos diretores tem a habilidade de lidar com sentimentos como Koreeda. Em basicamente todos seus filmes os sentimentos são o ponto chave de toda a trama. E, em nenhum deles, ele se entrega a facilidade que melodrama o daria, ele opta pelo caminho mais difícil: o caminho humano e o mais real. E é justamente esse caminho que faz com que nos emocionemos muito mais, e de forma natural.

É difícil ser o que sonhamos. É difícil se sentir realizado. Em nosso infância, sempre sonhamos com nossos objetivos, aquilo que nos fará bem, nos fará viver com intensidade, mas poucos conseguem alcança-la.

A relação entre pai e filho acaba por ensinar isso, que a vida não é tão simples quanto se parece na infância, ela é mais dura e fria do que se imagina.

Nada melhor que um escritor frustrado – que trabalha como detetive – , é separado e ainda apaixonado por sua ex-mulher, para nos contar de como é difícil ser o que não quer ser.

Ele, ensinando a nós, aprende com si próprio. Reconhece que seu pai não era tão ruim como ele pensava, que sua insistência com sua mulher já não poderá dar mais frutos e que seu relacionamento com seu filho ainda pode ser restaurado.

Se os personagens da trama nos ensinam tanto, eles também aprendem com si próprios.

Eis a naturalidade de Koreeda, que nos atira em momentos de emoção total e de forma natural, tal como a cena do livro ou a do parque. Cenas que representam o cinema de verdade, a arte que por muitos foi esquecida.

 



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: "Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente". Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.