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out
2016
Festivais: “40º Mostra de São Paulo – Dia 4”
Categorias: Festivais • Postado por: Matheus Petris

Comentários sobre os filmes vistos no 4º dia da 40º Mostra Internacional de Cinema São Paulo Int’l Film Festival.

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Invasão Zumbi

Direção: Yeon Sang-Ho

País: Coréia do Sul

Ano: 2016

Ao nos depararmos com um risco eminente as nossas vidas, é natural que lutemos pela sobrevivência, isso faz parte do nosso instinto. O que as grandes guerras ou conflitos nos mostraram, é que o ser-humano é egoísta por natureza. E, usando apenas seu instinto de sobrevivência, ele é capaz de passar por cima de tudo e todos para alcançar seu objetivo: sobreviver. Qualquer espécie de “apocalipse”, traz à tona o mesmo instinto. Em ‘Invasão Zumbi’, fica claro como algum de nós se portaria frente a uma ameaça tão estrondosa quanto.

Utilizando da jornada do herói como escopo, com um roteiro previsível e sem muitas delongas, comanda o primeiro longa deste diretor.

Conflitos entre pai e filha, que possuem uma relação conturbada, são desenvolvidos durante o filme. O pai – protagonista e herói – muda sua personalidade e ações por completo ao longo da trama. Ele, que ao adentrar na “jornada do herói’, aprende com seus próprios erros e com os companheiros que o cercam.

O vilão não está composto nos zumbis ou no vírus, pelo contrário, ele é personificado em um dos personagens que usa seu “instinto” de sobrevivência ao máximo, colocando em risco a vida de qualquer um ao seu lado, tudo em troca de sua própria sobrevivência.

Este mesmo vilão é usado como metáfora na tentativa de desmistificar o preconceito inerente a nós. Ele, bem vestido e bem sucedido é um completo asco, enquanto um mendigo dentro da trama é o oposto, e luta ao máximo não apenas pela sua sobrevivência, mas também de todos aqueles que o cercam.

Belos Sonhos

Direção: Marco Bellocchio

País: Itália, França

Ano: 2016

O mais recente longa-metragem de Marco Bellocchio – o homenageado da mostra – é um pouco diferente daquilo que estamos habituados a ver. Por mais que algumas críticas ainda existam, este filme está mais preocupado em demonstrar sentimentos e emoções, do que criticar propriamente dizendo. Com um tom um tanto quanto pessoal, o longa se demonstra bem construído e é extremamente eficiente em tudo aquilo que se propõe. Ao se passar em 3 épocas diferentes – o que é sempre um desafio ao design de produção -, temos uma construção de cenários e figurinos excelentes, o que nos demonstra um tom de veracidade incrível.

A perda de um ente querido é sempre uma enorme dificuldade a ser vencida, para algumas pessoas esse trauma nunca é superado. Quando se trata de um ente tão próximo como uma mãe, é ainda mais difícil aceitar tal condição. E o pior, perder um ente tão próximo e tão vivo no nosso dia-dia-dia é exaltar o máximo de sofrimento possível.

Desde os planos iniciais do filme, já percebemos a forte relação entre mãe e filho, o amor que um sente pelo outro é notório. São como unha e carne, ela faz parte de todo o desenvolvimento dele como humano, e em certa medida representa também um pouco da figura paterna, que é distante e autoritária, o que é sempre um problema na infância.

Por mais que o filme trate por excelência do tema que o cerca, a crítica ainda está presente em Bellocchio, e ela é extremamente útil na compreensão da trama. A religião, como de costume, é usada como desculpa e usada como mentira – ou desculpa – para a morte da mãe daquele menino que tanto ama sua mãe. A religião acaba por aumentar o desespero daquela mente perturbada. A loucura é outro ponto que chega próximo àquela mente. Ele quase rompe a barreira da sanidade em alguns momentos, que por sorte é mantida intacta.

Por mais que os anos passem, é impossível esquecer um grande trauma. E se ele foi acompanhado de tantas mentiras, o sofrimento ainda persistirá, e aos nos confrontarmos com a verdade – mesmo que nunca fundo já há conhecemos – a intensificação deste sofrimento é algo que lhe deixa a beira do abismo.

Leste Oeste

Direção: Rodrigo Grota

País: Brasil

Ano: 2016

No primeiro longa-metragem de Rodrigo Grota – que inclusive já foi comentado por João Moreno aqui no site –, tomamos conhecimento um pouco dos sentimentos do cineasta. Com um filme bem pessoal e que carrega certa melancolia, o longa metragem é extremamente funcional naquilo que se propõe.

Já antes dos créditos iniciais, nos deparamos com uma espécie de monólogo ou discurso do protagonista Ezequiel, que fala um pouco da sua jornada e de suas incertezas. Com apenas este breve “discurso”, podemos conhecer muito deste personagem, que é uma presença extremamente forte durante todo o longa-metragem.

A escolha de Grota – também montador – em não buscar linearidade é também assertiva. E, é papel do próprio telespectador montar o quebra-cabeça que nos é dado. “Papel” que nos deixa ainda mais presos na trama.

Outra presença muito forte no filme é de João – irmão do protagonista. Por mais que ele não apareça no longa, é possível sentir a sua presença a todo momento, sejam nos diálogos ou nos olhares dos atores que compõe a cena. A presença dele é tão forte quanto dos próprios personagens do filme.

Ezequiel, com seu tom misterioso, e em certa medida calado, retorna a sua cidade com um intuito simples, mas acaba mexendo com os sentimentos de todos que o cercam. A figura paterna – que ele não chama de pai em nenhum momento – é a típica barreira, e possivelmente também um dos motivos que o tenha deixado longe por tanto tempo.

O plano inicial e final se completam, e nos falam um pouco daquilo que seria a tortuosa vida. A “Estrada da Vida” – tal como Federico Fellini já nos mostrou – tem um começo meio e fim e, infelizmente, nem tudo é como desejamos.



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: “Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente”. Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.