26
out
2016
Festivais: “40º Mostra de São Paulo – Dia 6”
Categorias: Festivais • Postado por: Matheus Petris

Comentários sobre os filmes vistos no 6º dia da 40º Mostra Internacional de Cinema São Paulo Int’l Film Festival.

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Elle

Direção: Paul Verhoeven

País: França, Alemanha

Ano: 2016

 Michèle (Isabelle Huppert) superou todas as adversidades de sua vida e é uma mulher de “sucesso”. Pós tragédia inicial, ela demonstra uma espécie de força descomunal e em certa medida não parece dar a mínima para o que lhe ocorreu. Ela é rodeada de pessoas problemáticas – inclusive ela –, este talvez sendo um dos motivos de sua frieza. A história de sua família é traumática, e devido a isso, ela parece ter absorvido, em certa medida, características psicóticas.

As consequências pós traumáticas são eminentes, por mais que ela se esforce em provar o contrário. Ela que se “livrou” de um grande carma de sua família, prefere não tornar púbico os acontecimentos, decisão que dificulta sua recuperação. Se Michèle demonstra ser egoísta, fria e calculista, as pessoas ao seu redor se preocupam com ela, e estão sempre dispostas a ajudar e servi de ombro amigo.

Elle é um filme complexo e perturbador, e tudo que o compõe é construído para isso.

Dolores

Direção: Michael Rösel

País: Alemanha

Ano: 2016

A metáfora por trás de ‘Dolores’ é tão boba e prepotente, que acaba por estragar todo um filme. Em seu primeiro longa-metragem, Michael Rösel tenta abraçar o mundo – e não o consegue nem parcialmente. Com uma trama fantasiosa, que remete ao clássico da década de 90 ‘Jumanji’, o filme não se suporta, e não consegue fomentar nem o proposto.

A verdade por trás do amor pela arte do protagonista é palatável, um dos poucos méritos do filme. Porém, o filme consegue descontruir até os pontos positivos que ele cria, e acaba por castrar as expectativas dos telespectadores. Com um vilão caricato bem próximo a telenovela mexicana, o protagonista começa mostrar “seu verdadeiro eu”, e o poder que o é fornecido escancara seu egoísmo prepotente – tal como do próprio diretor.

Com um trilha pesada e incômoda – que mais atrapalha do que acrescenta –, que tenta maximizar tudo que ali acontece, por mais que tudo seja simples ao extremo, ela só funciona como escape de uma trama vazia. Se o roteiro é repleto de clichês, os mesmos clichês são simplificados.

Ao abraçar o tom ‘vilanesco’ a seu protagonista, Michael Rösel finaliza seu longa da forma como começou: vazio e arrogante.

Poesia Sem Fim

Direção: Alejandro Jodorowsky

País: França, Chile

Ano: 2016

‘Poesia Sem Fim’ é uma espécie de autobiografia de Alejandro Jodorowsky. Ele, que conquistou fama e notoriedade persistindo, nos conta um pouco dos árduos momentos que antecederam sua chega ao “El Topo”. Com um visual deslumbrante e vívido, mesmo com pouquíssimo dinheiro o filme é extremamente funcional no quesito arte, isso claro é ponto chave para entender artistas, que com pouco conseguem fazer muito.

A família de Jodorowsky é a típica família pseudo-burguesa retrógrada e preconceituosa, e adiciona um obstáculo vivido por tantos artistas em sua fase juvenil: ser contra e tentar obrigar a ser o que eles acham o certo. O não reconhecimento do meio artístico ainda é um tabu na sociedade contemporânea, que mesmo com incontáveis artistas tendo alcançado êxito, a sociedade continua a negá-los.

A busca por fazer aquilo que se ama é uma das tantas lições que Jodorowsky no ensina neste filme. E se falta de dinheiro foi um problema para a realização de tantos de seus filmes, neste ele satiriza esse problema e o transforma em arte.

E se nada têm sentido para alguns, que bom!

“A vida não tem sentido, você apenas têm que vive-la.” 

Animais Noturnos

Direção: Tom Ford

País: Estados Unidos

Ano: 2016

“Animais Noturnos” é um filme de camadas, que conta várias histórias tocantes e em certa medida vazias.  Se os problemas vividos pela protagonista Susan (Amy Adams) foram frutos de sua própria inconsequência, ela demonstra arrependimento. O poder de uma história bem contada faz com que isso ocorra, faz com que ela se sentida arrependida e mais vazia do hoje é. Mesmo sendo dona de uma galeria de arte, ela não reconhece as próprias obras que a compõe.

Jake Gyllenhaal é o autor da obra e protagonista da mesma, ele cria uma personagem que saí da felicidade para a ira, depois para o arrependimento e acaba no vazio extremo. São tantas relações conturbadas que fica difícil se agarrar a uma, e isso é positivo dentro da trama que é proposta.

Se a busca por justiça é acompanhada de um companheiro, a conclusão do objetivo é certa. Michael Shanon é o típico homem que está disposto a tudo, e quando está em cena, chama atenção pra si – assim como comentei em outro filme exibido da mostra em que ele está presente.

A trilha sonora e o design de som nos tira um pouco de fôlego que resta, e o vazio e o silêncio no final tomaram conta de nós e dos personagens que o cercam.

 



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: “Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente”. Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.