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out
2016
Filmoteca do Horror Brasileiro: o maior acervo de filmes nacionais de horror!
Categorias: Entrevistas, Especiais • Postado por: Marcelo Silva

Já em clima de Halloween, o Pipoca Radioativa traz aos nossos leitores a Filmoteca do Horror Brasileiro, o maior acervo de produções nacionais de horror! Idealizada pelo jornalista, crítico e pesquisador de cinema Carlos Primati, a página reúne mais de 600 títulos do gênero – incluindo longas-metragens, curtas, séries e documentários –  para serem vistos online ou por meio de downloads. O acervo possui desde os filmes icônicos de José Mojica Marins, o Zé do Caixão (clique aqui para ler o nosso especial sobre ele), até as novas produções independentes.

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Arte da página Filmoteca do Horror Brasileiro (Divulgação/Facebook)

O Pipoca Radioativa bateu um papo com Primati para saber mais sobre a filmoteca e, também, sobre o gênero do horror no Brasil e no mundo. Qual a diferença entre horror e terror? Por que os filmes nacionais dificilmente chegam às salas de cinema? E ainda: que filme ele recomendaria para o presidente Michel Temer assistir no Halloween? Confira:

Pipoca Radioativa: Como surgiu a ideia da Filmoteca do Horror Brasileiro

Carlos Primati: A Filmoteca do Horror Brasileiro surgiu a partir da necessidade de se disponibilizar, em um único espaço, o maior número possível de produções nacionais no gênero, principalmente porque é um tema pouco discutido e divulgado. É comum a noção de que não se faz – ou se faz pouco – cinema de horror no Brasil. Em meus cursos e palestras, invariavelmente eu me deparava com aficionados pelo gênero que não tinham conhecimento da nossa produção, mesmo que muitos desses filmes sejam facilmente encontráveis online. Com a Filmoteca, temos um acervo centralizado numa única página: atualmente estamos com mais de 600 títulos disponíveis, entre curtas, longas e documentários; alguns poucos não são necessariamente de horror, mas de cineastas identificados com o gênero (como José Mojica Marins e Carlos Hugo Christensen, por exemplo). Certamente é o maior acervo já reunidos sobre o tema em qualquer espaço dedicado à discussão sobre o nosso cinema.

PR: Até hoje, a classificação entre terror e horror é alvo de discussões e deixa muitos fãs confusos. Como você vê as diferenças entre um e outro? E por que resolveu batizar o projeto de Filmoteca do Horror e não Filmoteca do Terror?

Primati: A diferença entre terror e horror na narrativa de ficção vem da literatura, na verdade, mais especificamente quando a escritora Ann Radcliffe (1764–1823) traçou essa distinção, definindo que “terror” é caracterizado pela expectativa de estar diante de um acontecimento aterrorizante, enquanto que o “horror” é a reação diante de uma ocorrência grotesca. Ou seja, “terror” é a expectativa que antecipa o fato; “horror” é a constatação de um acontecimento apavorante. Ãlguns defendem a ideia – e eu gosto dessa perspectiva – que o “horror” é o “terror” somado à representação gráfica e explícita de um monstro, uma decapitação, um cadáver. Ou seja, o horror contém o terror e algo mais. Outros teóricos, como Devendra Varma e Stephen King, também contribuíram com suas definições dessas sutis diferenças, como pode ser conferido neste verbete.

Optei por chamar de Filmoteca do Horror Brasileiro e não de “terror” porque minha formação de cinéfilo de horror vem de livros estrangeiros, em geral escritos em inglês, e invariavelmente é usado o termo “horror”  para o gênero; e também porque, para mim, “terror” evoca temas de fora da ficção, como o terrorismo ou o terror causado por uma explosão, por ações de bandido ou polícia. “Horror”, para mim, evoca mais a poesia do macabro essencialmente da ficção.

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Matheus Nachtergaele caracterizado como Zé do Caixão na série especial do canal Space, que está disponível na Filmoteca do Horror Brasileiro

PR: Filmes de horror/terror, muitas vezes, vão além do mero susto e trazem cenas que chegam a ser consideradas impróprias por muitos espectadores. Em O Estranho Mundo de Zé do Caixão, de José Mojica Marins, por exemplo, há situações de canibalismo e necrofilia. Na parte das produções estrangeiras, o longa sérvio Terror Sem Limites (A Serbian Film, no original) traz o estupro de um recém-nascido. Você acha que deve haver limites para o grotesco no cinema ou se trata de um gênero que permite mostrar qualquer coisa, por mais perturbador que seja? Por quê?

PrimatiConsidero que o filme de horror tem um certo compromisso de testar os limites, inclusive para que nós, teóricos, tenhamos material para trabalhar em cima para discutirmos questões éticas. No que diz respeito à ficção, acredito que não devam existir limites: qualquer coisa conseguida por meio de efeitos especiais e simulação não vejo problema; o que entra em questão, então, é o bom ou mau gosto – o que é estritamente subjetivo.

A ética se torna um pouco mais problemática quando existe a exploração de sofrimento real numa narrativa de ficção: neste sentido, o caso mais notório (mas não o único) é o filme italiano Cannibal Holocaust [lançado em 1980 e traduzido no Brasil como Canibal Holocausto], no qual existem diversas cenas de crueldade e matança de animais. É um filme soberbo para a discussão sobre os limites do horror, sobre a permissividade para se conseguir um afeito aterrorizante no espectador, mas ao mesmo tempo é controverso em termos de ética. Costumo dizer que é ótimo que Cannibal Holocaust exista, e que é melhor ainda que ele jamais se repita. Para mim, o extremo do horror no cinema é isso – já que não acredito na existência de “snuff movies”, filmes clandestinos nos quais pessoas são assassinadas de verdade para fins de entretenimento; obviamente isso seria a coisa mais apavorante que poderia acontecer diante das câmeras.

PR: Invocação do Mal 2 fez um milhão de espectadores no Brasil já no seu fim de semana de estreia. Antes disso, Anabelle atraiu um público de 555 mil pessoas também no primeiro fim de semana. Esses dados mostram que o gênero horror/terror é forte entre os brasileiros. No entanto, as produções nacionais dificilmente chegam às salas comerciais. Por que isso acontece?

Primati: Esse é um problema imenso e quase insolúvel, que levaria a uma discussão quase interminável, mas para resumir o máximo possível, eu diria que todo o cinema brasileiro, independentemente de gênero, tem dificuldades para ocupar as salas comerciais, totalmente dominada pelo cinema estrangeiro, principalmente blockbusters de grandes estúdios. Existe um interesse mercadológico por trás disso que vai muito além de sucesso ou fracasso, e muito menos de qualquer proposta de oferecer diversidade de ideias ou propostas; isso sem falar na máquina poderosa de divulgação que convence o espectador a assistir tudo que é “da moda”. Mas, mesmo diante de todas essas dificuldades, muitos filmes brasileiros de horror chegaram às telas este ano, como Condado Macabro, Sinfonia da Necrópole, O Diabo Mora Aqui, O Caseiro, Mate-me Por Favor, e ainda deve estrear em breve Através da Sombra. O caminho, no momento, é vender os filmes para as TVs pagas ou plataformas digitais de VOD, como têm feito o Rodrigo Aragão (A Noite dos Chupacabras, Mar Negro), Paulo Biscaia Filho (Nervo Craniano Zero) e Renato Siqueira (Diário de um Exorcista).

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O cineasta Rodrigo Aragão, apontado por Primati como “o grande nome do horror brasileiro no momento”

PR: O cineasta José Mojica Marins é reconhecido como o grande representante da nossa produção de horror. Algum profissional da nova geração tem potencial para assumir o lugar do Mojica? Por quê?

Primati: A força de Mojica, e principalmente de seu personagem Zé do Caixão, um ícone do horror mundial, é algo incomparável no cinema brasileiro, e é muito difícil imaginar um cineasta capaz de desenvolver um trabalho que consiga o mesmo impacto. Mas o que temos de interessante na geração atual são os cineastas que se dedicam exclusivamente ao gênero, e que conseguem criar universos próprios para suas criações. É o caso do capixaba Rodrigo Aragão, que conseguiu evocar o horror ecológico de sua região – litoral do Espírito Santo – em tramas repletas de zumbis e outras criaturas sobrenaturais, com efeitos especiais espetaculares. Aragão é, sem dúvida, o grande nome do horror brasileiro no momento.

PR: Na última edição do jornal Rascunho que li, um jovem escritor foi questionado sobre que livro ele recomendaria ao presidente Michel Temer. Eu gostaria de terminar a entrevista repetindo essa brincadeira: qual filme você indicaria para Temer assistir no Halloween? Por quê?

Primati: Eu não acho que o Michel Temer (que tem no sobrenome um “temer” muito diferente do prazer que sentimos quando temos medo assistindo a um filme de terror…) mereça qualquer indicação, até porque qualquer terror/horror da ficção é pouco diante da destruição que ele está promovendo. Mas eu indicaria a todos os apoiadores dele e a qualquer brasileiro que faça pouco do período da Ditadura em nosso país que assistam ao arrebatador filme Prata Palomares, dirigido por André Faria em 1971, um dos mais impactantes relatos em forma de cinema fantástico sobre o período mais tenso de nossa sociedade. O fascismo, a hipocrisia, a intolerância, o fanatismo e a cegueira política retratada no filme – que tem momentos intensos de terror – não estão muito longe da nossa realidade.


Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!