08
out
2016
Pipoca Clássicos: “Olhos Diabólicos”
Categorias: Pipoca Clássicos • Postado por: Matheus Petris
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Olhos Diabólicos (La Ragazza Che Sapeva Troppo)

Mario Bava, 1963
Roteiro: Mario Bava, Enzo Corbucci, Ennio De Concini, Eliana De Sabata, Mino Guerrini, Franco Prosperi
Warner Bros.

4.5

No plano de abertura do filme, surge um avião, em uma clara referência hitchcockiana. Ainda mais pelo título do filme original, La Ragazza che Sapeva Troppo (em tradução literal, A Garota Que Sabia Demais, terrivelmente traduzido no Brasil para Olhos Diabólicos), uma evidente homenagem ao clássico O Homem Que Sabia Demais. Em ambos, os protagonistas são estrangeiros que vivem momentos de tensão nos países que estão visitando, chegando aos limites da insanidade.

O início é recheado de sugestões, menos para ajudar o telespectador do que o contrário. O livro que a protagonista está lendo dentro do avião é sobre casos de assassinatos. O cigarro que ela fumou, oferecido pelo passageiro ao lado, era de maconha. Esses pequenos detalhes serão postos a prova em determinado momento. O próprio Hitchcock assumidamente adorava oferecer pistas para o telespectador, inclusive algumas falsas. Nestes minutos iniciais, Bava deixa claro, de forma sutil, o tom hitchcockiano em seu filme, o qual se seguirá pelo filme todo. Outro exemplo: os constantes zoom-in/zoom-out nos rostos dos personagens ou em planos-detalhes. Mas o filme também possui suas particularidades autorais, em especial os fetiches e o tom onírico tão comuns por parte do cinema de Bava.

A chegada de Norma (Letícia Román) à casa em que ficará hospedada em Roma possui algumas sutilezas que, em certa medida, podem transpassar esse tom onírico. As trovoadas que ressoam enquanto Norma fala sobre o “terrível” tempo, comentário ignorado pelo Doutor Marcelo Bassi (John Saxon) – que se mostra extremamente cordial e interessado por ela. Temos uma dualidade interpretativa: ela imaginou ou ele ignorou por estar arrebatado pela sua beleza? Ressaltamos que tal beleza é fotografada com cuidado por Bava, também diretor de fotografia de diversos de seus filmes. Também na cena do assalto e após o assassinato, temos alguns artifícios utilizados na montagem e edição para dar a impressão de que nada pode ser concreto.

O tom de acusação e desconfiança direcionado a Norma após o trauma que vivenciou é um medo inerente a todos nós. Ao sermos confrontados com suposições do que vivenciamos ser fruto de nossa imaginação, naturalmente agimos de forma a comprovar a verossimilhança daquilo que afirmamos ter ocorrido. Ao termos a sanidade questionada, essa necessidade de expor os fatos cresce ainda mais.

Quando Norma acorda de seu acidente – já no hospital – , sua visão subjetiva é sempre em contra-plongée: ela se vê inferior diante de tantos questionamentos. Por sua vez, as pessoas ao seu redor têm uma visão em plongée, como se ela fosse inferior a eles. O fato de ser estrangeira, ler livros sobre o tema e ter sofrido dois traumas consecutivos corrobora para os pensamentos daqueles que a acusam de insanidade.
Mas Norma acaba por duvidar daquilo que viu – ou achou ter visto. Quando a “porteira” conta que há muitos anos ali ocorrera um assassinato nas mesmas condições, seria impossível não se perguntar se aquilo não teria sido uma criação de sua mente. Mas logo que isso ocorre, Bava não deixa essa dúvida por muito tempo. “Coincindentemente”, Norma encontra os recortes de jornais dos assassinatos e descobre ser verdade tudo o que ocorreu e que se trata de um assassino serial. Tais coincidências podem ser consideradas inverossímeis, até hoje mal vistas dentro dos filmes, algo bastante usado pelo próprio Hitchcock, conforme explicado no livro de entrevistas “Hitchcock/Truffaut”. A narração do filme é quase que um personagem dentro da trama, sempre acrescentando algo novo, como exemplo: os comentários sobre os antigos assassinatos que ocorreram naquelas condições.

Bava usa e abusa da importância do som neste filme, em mais um tributo ao suspense hitchcockiano, sempre a reforçar e impressionar em determinadas cenas. Assim como as belas elipses que o filme possuí, em particular a cena do primeiro beijo entre Norma e Doutor Bassi, que representa o início do relacionamento amoroso deles. O elemento romântico pode ter sido utilizado como subterfúgio às condições da trama, aliviando a pressão do tema e fomentando algum resquício da própria condição humana, a qual acaba por se mostrar assustadora para a vida de alguns personagens, tal como o “jornalista” ainda traumatizado pelo assassinato, algo essencial à cena do hospital citada no texto. Norma grita pelo terror que a assombrou e por ninguém acreditar nela, assim como no diálogo em que o “jornalista” afirma “ouvir” as vozes daquele que ajudou a prender injustamente, ecoando por anos em sua mente. Nesta mesma cena, Norma, ao ouvir o relato de dentro do prédio olhando para fora, sente-se presa, o que é representado pelas grades da janela. Esta cena, é possivelmente uma referência a Europa ’51 de Roberto Rossellini, no qual Ingrid Bergman passa por um dilema parecido com o de Norma quanto a ser tratada de forma insana, embora o contexto seja completamente diferente.

Citando Rossellini novamente, é impossível não identificar aspectos do neo-realismo italiano dentro do filme, principalmente quanto à forma como Roma é filmada, lembrando muito Viagem a Itália, também dirigido por Rossellini e estrelado por Bergman. Bava faz questão de mostrar a cidade como ela é, seus prédios e construções, seu povo, igrejas, estátuas, etc… A realidade por trás da cidade em que estão é muito vívida, todo detalhe chama atenção. E novamente tudo é realçado pela fotografia de Bava.

Quanto ao final, mais uma vez retornamos a Hitchcock, agora quanto à decupagem abrupta entre as duas cenas finais, com mudança de ritmo e tom. O happy end é subjetivo, ficando a nosso critério.

Eis o momento que podemos acatar as pistas que nos foram dadas ou simplesmente ignorá-las.



Trabalho na área de informática, cursei economia, e nada disso me fez feliz. É aí que entra minha verdadeira paixão pelo cinema. Encontrei no cinema aquilo que faltava em minha vida. Nas palavras de Fritz Lang: "Para mim, o cinema é um vício. Eu o amo intimamente". Fã incondicional de: Alfred Hitchcock, Akira Kurosawa, Chan-Wook Park e Nicolas Winding Refn.