30
out
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “A Noite da Verdade”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Pedro Bonavita
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A Noite da Verdade (La Nuit de la Vérité)

Fanta Régina Nacro, 2004
Roteiro: Fanta Régina Nacro
Burkina Faso
Filmes Floris

3

Existem diversos motivos que me fazem ter certeza de que muitas vezes os brasileiros reclamam de barriga cheia. Falarmos mal do nosso cinema é uma das categorias inseridas nessas reclamações exageradas sem motivo algum. Quando comparamos o cinema produzido aqui com muitos países do mundo, é evidente que temos talento. Mais que isso, temos também, ao menos da retomada pra cá, dinheiro suficiente pra fazer uma obra honesta. Nessa volta ao mundo do Pipoca Radioativa, assisto ao segundo filme africano e constato como, infelizmente, o dinheiro é de suma importância na criação de produtos audiovisuais.

O cinema africano não é ruim, mas falta investimento para ser ótimo. De boas intenções o inferno está cheio. As boas intenções na sétima arte, principalmente nas décadas passadas, precisam muito de verba para realizar com qualidade técnica e artísticas aceitáveis.

Deixando um pouco de lado essa discussão, é preciso dizer que as obras realizadas no continente, se não possuem uma qualidade técnica de encher os olhos, ao menos são importantes por conta da forma crua como a vida daquelas pessoas são retratadas. Abrem – ou ao menos deveria – os olhos das pessoas naquela direção.

São esses motivos que fazem com que as obras realizadas na África sejam tão parecidas umas com as outras, mesmo vindas de países e etnias diferentes.

A rivalidade entre grupos étnicos é um dos principais problemas dos países africanos. As guerras civis são, em sua maioria, por brigas duas ou mais etnias que desejam conquistar o controle local. Os europeus dividiram o continente com réguas. Não se importaram em nada com a vida daquelas pessoas. O reflexo dura séculos. A Noite da Verdade, longa da cineasta Fanta Régina Nacro, trata exatamente disso.

Em um país imaginário, os Nayaks e Bonandés resolvem fazer as pazes após anos de guerra civil. A tentativa de bandeira branca não é tão simples. Mortes assombram aquelas pessoas, das duas tribos. Coronéis têm pesadelos constantes com imagens da guerra. Trazendo um clima mais teatral, a diretora usa e abusa da tragédia, não através de imagens, mas contando com a atuação do seu elenco, nada sutil. 

Talvez por ser dirigido por uma mulher, A Noite da Verdade não utiliza de clichês de filmes de guerra, deixando de lado o voyeurismo presente em grande parte das sequencias de ação do gênero, onde o espectador fica apenas observando. As cenas de confronto e seus resultados estão presentes, é claro, mas com mais sutileza, já que em sua maioria são frutos dos pesadelos daqueles que sofreram durante os anos de confronto na região. Ou seja, dessa forma Nacro faz com que o teatro tome ainda mais conta do longa, fazendo com que imaginemos aquele confronto e mostrando flashes e todo o sangue existente de uma maneira mais lúdica, quase poética. Uma poesia sombria.

É, portanto, uma pena que uma ideia interessante e um roteiro bom sejas tão prejudicados por: atuações abaixo da média, fotografia, design de produção e trilha sonora ruins. Acaba mostrando que toda poesia existente na diretora faz com que ela não se aprofunde em nada na técnica cinematográfica. Não consegue fazer com que os elementos somem à narrativa. Percebe-se, dessa maneira, que nem tudo ali foi pensado.

A Noite da Verdade é um filme feito para não africanos. É, no fundo, um grito de socorro para que o mundo enxergue os dramas da sociedade africana.

Semana que vem, desembarcamos no Chade com o filme O Homem que Grita, não perca!



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.