23
out
2016
Volta Ao Mundo em 80 Filmes: “O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin

O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina (Svetat e Golyam I Spasenie Debne Otvsyakade)

Stephan Komandarev, 2008
Roteiro: Stephan Komandarev, Yurii Dachev, Dusan Milic e Sabine Pochhammer
Bulgária
 RFF International

4

Ao desembarcar na Bulgária com este filme em nossa volta ao mundo, viajamos por mais alguns países por tabela, tendo em vista que dentro da narrativa de O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina encontra-se uma espécie de road trip por alguns países europeus muito importantes para a construção do personagem central, que acaba perdendo sua memória em um acidente trágico.

Sashe, ou Alexander (Carlo Ljubek), é um jovem búlgaro que vive com os pais na Alemanha. Eles se exilaram durante os anos 80 fugindo de uma ditadura. Seus avós maternos, no entanto, ficaram em seu país de origem. É por conta de um acidente que tira a vida de seus pais e sua memória que faz com que seu avô (Miki Manojlovic) lhe encontre, o conquiste e o leve por uma viagem de autoconhecimento e em busca de sua identidade, memórias, lembranças e bagagem de vida. De início, o filme parece ser apenas um drama familiar permeado de tristeza latente, tendo em vista a carga dramática da história do protagonista, mas aos poucos percebe-se uma espécie de conforto ao retratar tal história com uma grandiosa leveza e alívios cômicos, que não são nem um pouco exagerados. Desde o início percebe-se uma delicada forma de contar sobre os vícios dos membros de sua família: a mãe gosta muito de literatura, o avô é viciado em um jogo de tabuleiro chamado Gamão e a avó é doida por doces. Seu pai é um operário quase descrente com a vida.

Em meio ao encontro de avô e neto, o espectador também acompanha paralelamente a vida da pequena família durante os anos difíceis do pós-guerra e sua fuga para um outro país europeu, onde as coisas se tornam muito mais complicadas e tensas. A paleta de cores é contrastada nesses dois períodos distintos; durante o passado é carregada de um tom amarelado e os personagens utilizam-se de cores pastéis, neutras e pouco chamativas. Durante os dias atuais, as cores frias e neutras (do azul, verde ao branco) vão mudando conforme as cenas caminham ao desfecho.

Durante 35 anos a Bulgária foi governada por Todor Zhivkov, um líder socialista, em meio guerra fria, aliado aos interesses soviéticos; isso é bem explorado em uma determinada cena do longa. Em seu governo, o setor industrial búlgaro cresceu rapidamente e em 1979 lançaram seu primeiro cosmonauta ao espaço, no âmbito do programa patrocinado pela URSS. No entanto, ao final dos anos 80 foi deposto. Nessa época, os pais de Sashe fogem para a Itália, onde residem em um abrigo com mais famílias em busca de uma nova vida, mas por lá encontram mais problemas. Desse passado tenebroso, Alexander vai recordando aos poucos, ao longo de sua cálida viagem ao lado do avô em cima de uma bicicleta com dois lugares. Os diálogos que os dois mantêm durante o trajeto são bastante interessantes e trazem ao espectador um pouco de reflexão acerca das memórias que conquistamos ao longo da vida, das pessoas que nos acompanham e nos deixam, dos prazeres, das desventuras e dos sacrifícios.

O longa de Stephan Komandarev é bastante eficiente ao retratar esses sentimentos todos à tela, por meio da competente dupla composta pelos atores Carlo Ljubek e Miki Manojlovic, que curiosamente são alemães e sérvios, respectivamente. A direção acerta ainda ao caminhar com seus planos abertos, mas introspectivos e o roteiro caminha com êxito sempre retornando ao vício do avô de Sashe ao famoso e antigo jogo de tabuleiro Gamão, que só chegou à Europa através das Cruzadas.

Com um desfecho bonito, mas dispensável, afinal de contas o longa facilmente poderia ter terminado em sua cena anterior, O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina tem um título bastante sugestivo e inteligente, capaz de já deixar o espectador pensativo e oferece ainda mais a ele durante seus pouco mais de 100 minutos de projeção. É trabalho singelo e permeado de dramas fortes; cenas intensas como a do reencontro de neto e avó e marcantes como a tentativa de greve no abrigo de famílias italiano. Sashe é um protagonista que vai se destacando aos poucos e seu avô é quem o instiga a todos os minutos. Algo bonito de se ver e de se acompanhar. Um belo presente do cinema europeu!

Na próxima semana visitaremos mais um país africano; desta vez Burkina Faso, com o longa  A Noite da Verdade, não perca!



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-MA-LA" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta Produções.