02
out
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Terra de Ninguém”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Raphael Cancellier

Terra de Ninguém (Ničija Zemlja)

Danis Tanović, 2001
Roteiro: Danis Tanović
Reino Unido, Bósnia e Herzegovina, Eslovênia, Itália e Bélgica
M.G.M.

4

A nossa primeira Volta ao Mundo em 80 Filmes de outubro aterrissa na Bósnia e Herzegovina para falar sobre a guerra que o país enfrentou contra a Sérvia, com a produção Terra de Ninguém.

O filme, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro e Satellite Awards em 2002, conta a história de dois soldados, um Bósnio e um Sérvio, que ficam presos na zona intermediária do conflito entre os dois países, local conhecido como terra de ninguém, durante a guerra da Bósnia.

O que mais chama a atenção logo nos primeiros minutos de exibição é a excelente qualidade sonora, com os sons dos passos na grama, as armas em contato com o corpo, pássaros e moscas no ambiente, sendo quase como uma experiência sinestésica. Em diversos momentos, como quando Ciki (Branko Djuric), o soldado bósnio, acende um cigarro com o isqueiro em close ou se esgueira pelas duras pedras no meio da trincheira, a sonoridade chega a dar uma sensação de prazer em nossos ouvidos.

O roteiro é certeiro por possuir diversas camadas de discussão, primeiramente por meio do conflito entre as visões de cada lado da guerra com os soldados adversários sem responsabilizar nenhum dos países e, mais profundamente, pela forte crítica que faz à falta de interferência da ONU para que os conflitos cessassem.

A obra nos traz personagens arquetípicos para que fique mais evidente esse choque de visões. Vemos um protagonista que possui um ar de galã e durão, porém, com uma moral, pois não mata oponentes indefesos, legitimado pela frase “não somos como eles”. Seu antagonista é um soldado novato e desajeitado, com pouco tato em lidar com as armas e situações que envolvem o corpo, porém, ele é mais letrado que o protagonista, como vemos no momento em que ele atua como tradutor para os homens da ONU.

Durante o filme, percebemos que apesar do conflito de visões entre os dois soldados – que é o grande destaque do filme, como vemos em vários momentos, com muita reflexão, humor e ironia – os dois começam a criar uma pequena afetividade para tentar sair daquela situação e se unem em prol de um objetivo comum, mesmo sendo rivais na guerra. Essa mensagem de que a emoção fala mais alto do que o posicionamento político nos momentos de tensão é bastante significante.

Tanović também acertou ao mostrar cenas reais do ataque da Sérvia ao país, trazendo uma pegada de denúncia acerca da pouca ajuda humanitária que o país recebeu na época da guerra. Ele fecha com chave de ouro o seu objetivo através da fala de Jane, a repórter que deseja chegar no local em que os soldados estão: “Ninguém é neutro diante da morte. Não fazer nada para impedir é uma escolha. Não é ser neutro”.

A cena-clímax da produção também é surpreendente, com uma frase impactante do protagonista, mais uma vez atacando a passividade da ONU e a mídia, quando diz que esta última se beneficia da desgraça deles.

A Guerra da Bósnia foi um conflito armado que aconteceu entre 1992 e 1995 envolvendo a Bósnia e a Sérvia. Enquanto os sérvios a trataram como uma guerra civil, políticos ocidentais e organizações de direitos humanos alegam que foi uma guerra de agressão, tendo em vista o genocídio da população bósnia. A guerra aconteceu por uma combinações de fatores políticos e religiosos, como o fervor nacionalista, crises políticas, sociais e de segurança sucedidas pelo fim da Guerra Fria, e a queda do comunismo na antiga Iugoslávia. O conflito trouxe como resultado a partilha internacional da Bósnia e Herzegovina, um grande número de vítimas bósnias e mais de um milhão de refugiados de ambos os lados.

Terra de Ninguém é um filme que trata deste tema de uma forma bastante sagaz, sem cair no senso comum da maioria dos filmes de guerra, conseguindo trabalhar com o humor e o drama de uma forma irônica e muito bela.

E apertem os cintos: semana que vem iremos conhecer a Bulgária, com a produção O Mundo é Grande e a Salvação Espreita ao Virar a Esquina.



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.