26
nov
2016
Crítica: “Elis”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Elis

Hugo Prata, 2016
Roteiro: Hugo Prata, Vera Egito e Luis Bolognesi
Downtown Filmes

3

Com toda certeza o cinema nacional tem problemas no que diz respeito ao mercado. Já há algum tempo compete às comédias o primeiro lugar dos longas produzidos no Brasil que conseguem ocupar bons números de salas. A proporção tem crescido a cada ano. Até as cinebiografias, que por muito tempo esteve como um dos carros chefes do nosso cinema, principalmente após a retomada, tem perdido força ultimamente. Talvez pela grande quantidade de personalidades já retratadas na telona ou mesmo porque a comédia se tornou cada vez mais rentável. Fato é que, ao tempo em que se produz cada vez mais estilos diferentes por aqui, se exibe cada vez menos, também. Defendo, ainda, que isso não é um problema único e exclusivamente das empresas exibidoras e distribuidoras. Afinal, trata-se de empresas com fins lucrativos. O momento tenso que o país passa, sendo essa uma tensão crescente desde 2010, aproximadamente, afastou e muito o público de filmes com uma temática mais densa. Quando o brasileiro sai de casa e vai passear, uma de suas pretensões é se divertir. Comédia é sinônimo de diversão (ou não).

Cabe então, ao mercado se reinventar. Mesmo assim, me espantou muito o fato de um filme que conta a história daquela que é considerada (e realmente é) a melhor cantora brasileira de todos os tempos ter pouco mais da metade da sala ocupada em um sábado à tarde no final de semana de estreia. Ainda é necessário analisar os números consolidados, mas que me decepcionou, isso não me resta a menor dúvida. Me entristece saber que uma biografia sobre Elis tenha menos apelo do que um filme da Kéfera. Esse é, sem dúvidas, um dos retratos da sociedade brasileira atualmente, cada vez menos sedenta de cultura. O governo, seja ele qual for, agradece.

Elis, primeiro longa de ficção dirigido por Hugo Prata, narra parte da história de Elis Regina. Apesar de recortar sua vida apenas já na fase adulta, deixando de lado qualquer menção ao seu passado em Porto Alegre, ainda assim se trata de uma cinebiografia com uma linearidade clássica. Os acontecimentos ilustrados acontecem em uma ordem crescente, o que sem dúvidas ajuda o público a não ficar confuso, mas que empobrece muito o resultado final.

Esse empobrecimento se dá muito por conta da fragilidade do roteiro. Não foram poucas as vezes que durante as quase duas horas de exibição me peguei pensando: “Que pressa é essa?”. Escrito pelo diretor, Vera Egito e Luis Bolognesi, o texto se mostra extremamente apressado, o que sem dúvida alguma prejudica e muito a narrativa do longa. É claro que resumir a vida de uma pessoa em poucas horas não é das tarefas mais fáceis, mas quando se trata de cinema é necessário que a história, mesmo que real, tenha um fio condutor. Ainda que esteja ilustrando a vida de uma personalidade, é preciso que se construa àquela personagem e as passagens mais importantes de sua vida. Ao tempo em que não é necessário romantizar. É uma tarefa árdua, mas que se não muito bem feita, atrapalha. Para entender a personalidade de Elis, era necessário uma contextualização maior do que simplesmente a chegada dela no Rio de Janeiro. O roteiro é tão corrido, que se em uma cena é a estreia do programa da cantora com Jair Rodrigues, na cena seguinte o mesmo programa está acabando, após dois anos de existência. E esse é apenas um exemplo dessa correria desenfreada. Além disso, faz falta (e muita!) uma construção mais eficiente do relacionamento de Elis com Cesar Camargo Mariano, com quem teve não só uma vida junta, como uma parceria musical muito rica, responsável pelos melhores momentos da cantora, já madura.

Em contrapartida, o roteiro e o filme como um todo se beneficia da atuação segura de Andreia Horta, já que muito bem assessorada pela potente caracterização, Andreia consegue dar vida à Elis trazendo todos os seus gestos e sorrisos em um trabalho corporal magnífico. A atriz está tão natural na pele da pimentinha, que em determinado momento a impressão que se tem é que do nada ela se lembra de que está interpretando a cantora, trazendo alguns momentos mais caricatos que não prejudicam sua atuação. A caricatura é natural em biografias. É interessante notar como todo o elenco está em sintonia, todos muito competentes naquilo que se propõe durante o filme e deixando todo o brilho para Andreia, que não sendo cantora, consegue dublar muito bem nos números musicais, mostrando ainda mais seu talento, já que Elis é conhecida não somente por ter uma voz e afinação perfeitas, mas também por ser uma intérprete sensacional.

Nesse sentido, junto com o roteiro, a nota “triste” do longa se dá por conta da edição de som. Era necessário um tratamento melhor, principalmente no que diz respeito ao raccord entre as cenas de diálogo e música. Isso porque a diferença da voz de Andreia e Elis é nítida. Uma das maneiras de se corrigir isso, talvez fosse apostar em uma montagem mais documental dos shows, trazendo imagens reais misturadas àquelas filmadas para o longa.

Elis é um filme que sofre com seu roteiro fraco e sem construção dramática, porém é agraciado por uma atuação potente de Andreia Horta, que o ajuda a não ser um desastre. Ainda que dificilmente uma obra com Elis Regina se torne algo desastroso. Nada apaga o ícone que foi e é nossa pimentinha.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.