08
nov
2016
Crítica: “O Dono do Jogo”
Categorias: Críticas • Postado por: Andressa Gomes
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O Dono do Jogo (Pawn Sacrifice)

Roteiro: Steven Knight, Christopher Wilkinson e Stephen J. Rivele
Playarte

4.5

3-5

 

O Dono do Jogo conta a história de Bobby Fischer, um jogador de xadrez norte-americano que desafia o soviético Boris Spassky, campeão mundial tido como invencível, em plena Guerra Fria, nos anos 1970.

Durante a Guerra Fria, a União Soviética fazia uso do xadrez como prova de superioridade intelectual em relação ao Ocidente. Os jogadores recebiam investimento do Governo e tinham prestígio em todo o país. A maior parte dos campeonatos mundiais eram vencidos por atletas da União Soviética. Naquela época, o xadrez era um esporte popular, com espaço no mainstream e os grandes jogadores viviam como celebridades. Nesse contexto, Bobby Fischer passava a ser visto como uma esperança, cuja vitória representaria também a vitória do mundo livre (estados que estavam fora do domínio da União Soviética).

Até hoje, Bobby Fischer é considerado, por muitos, o melhor jogador de xadrez que já existiu – especialistas diziam que seu talento equivalia ao de Mozart na música. Era um homem descrito como temperamental, arrogante, polêmico e com caráter duvidoso em alguns momentos. Além de lidar com a pressão externa para derrotar o “monstro comunista”, Fisher precisa lidar com sua progressiva instabilidade mental. Como um dos personagens do filme descreve muito bem: Tentar dominar um jogo que consiste em teoria, memorização e oferece 40 bilhões de possibilidades após apenas quatro movimentos, pode levar uma pessoa à loucura.

O mesmo gênio que proporcionou tanta alegria ao país viria a ser conhecido como antissemita, louco, e se envolver em diversas polêmicas ao longo dos anos, até o ponto de ser considerado persona non grata nos EUA. Após conquistar o título mundial em 1972, ele tinha a obrigação de defendê-lo três anos depois, mas fez várias exigências à FIDE (Federação Internacional de Xadrez), estas foram recusadas e ele perdeu o título,  passando os 20 anos seguintes na obscuridade.

Em 1992, Fischer venceu Spassky novamente em uma revanche na Iugoslávia, o que lhe trouxe problemas com o Governo dos EUA, que tinham sanções federais com relação ao país. A Islândia ofereceu-lhe asilo e cidadania. Em 2001, se envolveu em mais uma polêmica ao debochar dos atentados às Torres Gêmeas durante uma entrevista por telefone para uma rádio das Filipinas. Ele morreu em 2008.

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Boris Spassky e Bobby Fischer durante a “partida do século” , em 1972

O Dono do Jogo já começa em um momento crucial. Vemos Fisher surtando, tendo um ataque de paranoia, minutos antes de seu jogo contra Spassky, que viria a ser histórico e que ele tanto se dedicou para conseguir. Já fica estabelecido, desde o início, o estado de espírito constante do personagem durante toda a narrativa.

Levar uma figura tão peculiar quanto Fisher para as telas de cinema não é uma tarefa simples. É difícil encontrar o equilíbrio entre as varias facetas de um mesmo homem. O roteiro consegue evitar erros que outras cinebiografias como Diários de Motocicleta (2004) e O Jogo da Imitação (2014) cometeram: em nenhum momento são romantizados os fatos ou o transtorno psicológico de Fisher, nem existem furos históricos com o objetivo de idealizar sua figura, inclusive, uma das principais fontes de informação foi o excelente documentário Bobby Fisher Contra o Mundo (dir: Liz Garbus, 2011) –  alguns diálogos do filme parecem ter saído de lá.

Assim como outras biografias, O dono do jogo foca em um período único e determinante na vida do protagonista, no caso, a partida realizada em 1972, e passa somente o tempo minimamente necessário mostrando ao espectador o passado do personagem, a relação conflituosa com a mãe (que era  comunista e já proporcionava desde cedo um cenário de constante paranoia política para Fischer), e todo o tempo que dedicava a desenvolver suas habilidades no tabuleiro, desde que o descobriu, aos 6 anos de idade, até pisar pela primeira vez em um clube de Xadrez, aos 12. Além disso, o destino e as ações de Fischer após sua grande conquista também não são mostrados, o que é uma decisão inteligente.

O roteiro consegue adicionar pequenas doses de humor ao drama até certo ponto. Conforme Fischer vai se perdendo em si mesmo, suas esquisitices e manias vão deixando de ser charmosas e passam a ser preocupantes. Não se  tenta diagnosticar ou ter um olhar muito clínico para o transtorno do personagem, nem busca apontar culpados. Ele opta por oferece contextos e circunstâncias, e deixa para o espectador a tarefa de julgar quando ou em que momento ele realmente começou a perder o controle de si mesmo.

O diretor Edward Zwick (de Diamante de Sangue) consegue transmitir bem ao espectador a paranoia e emoção de cada peça se movendo durante as sequências de jogos, principalmente a final, cada movimento dos personagens e peças é valorizado por sua câmera, como uma sinfonia, transmitindo tensão, assim como outros filmes tradicionais do gênero esportivo costumam fazer com partidas de basquete, por exemplo. Ele consegue encontrar a beleza do jogo que requer habilidades mentais e não físicas, dramatizar, dinamizar e adaptar as partidas de xadrez para a linguagem audiovisual. Nos momentos de surto do personagem, o uso de close-ups e sons subjetivos (ouvimos ruídos, sussurros e outros sons na mesma intensidade que Fischer os ouve) permite ao espectador experimentar a mesma sensação de Fischer, que tinha hipersensibilidade auditiva.

Por um lado, trata-se da típica narrativa esportiva, com o jovem sonhador, humilde superando obstáculos até conseguir chegar ao topo, porém esse mesmo pathos é subvertido não só pela falta de redenção e amadurecimento do personagem central, mas também pela clara dicotomia existente na típica cena da partida final, entre a felicidade de todo o país que assistia, e a total ausência de emoção por parte de Fisher naquele momento de vitória. A verdade é que o filme não mostra só os sacrifícios e a dedicação praticamente integral necessária para chegar ao topo, mas também a agonia e vazio que a vitória pode trazer. Fischer demonstra exaustão, seu olhar é vazio enquanto é ovacionado.

Fischer está sempre acompanhado de seu advogado e empresário, Paul Marshall (Michael Stuhlbarg). Paul é um personagem  complexo. Ele percebe cedo que Fischer necessita de ajuda médica, mas não o faz, pois considera que sua genialidade possa ser comprometida. Demonstra sentir admiração e amizade por Fischer na mesma medida que demonstra querer fazer dele um mero instrumento da Guerra Fria. O Padre Lombardy (Peter Sarsgaard), que também o acompanhou desde menino, tampouco tem alguma atitude para tratá-lo, o que leva o espectador a questionar as intenções desses personagens. Fischer era uma pessoa extremamente difícil de lidar, desprezava seus colegas constantemente, contudo, fica o questionamento se seu surto não poderia ter sido amenizado, caso seus companheiros tivessem agido de forma ética. Ambos atores fazem um bom trabalho trazendo humanidade e complexidade para seus personagens.

Tobey Maguire faz um bom trabalho, dosando de forma certa a arrogância intrínseca ao personagem, com sua dose mínima de carisma, suficiente para o público não desprezá-lo por completo. Ele também foi produtor do longa e levou dez anos para conseguir realizá-lo. Liev Schreiber está confiante e divertido como Spassky, adversário de Fischer. Se do lado americano, Fischer sofria toda a pressão, Spassky sentia o mesmo, mas tinha modos mais saudáveis de extravasar e lidar com suas angústias. Sem diálogos, ambos atores foram competentes em estabelecer a rivalidade entre os jogadores.

O título original, Sacrifício do peão (Pawn Sacrifice), faz muito mais sentido do que o título adaptado brasileiro (novidade!). O que assistimos acontecer com Fischer é de certa forma um sacrifício em prol de seu país, consistindo na deterioração de sua saúde mental e de quebra, de sua privacidade, com todo o assédio e fama indesejada que vinha conquistando. No contexto da Guerra Fria, Fischer foi um peão para o governo, para a mídia, e mesmo para os fãs de xadrez.

O Dono do jogo apresenta um ótimo olhar sobre o cenário mundial do século 20, através da ótica de um esporte. Trata-se de um olhar sobre a genialidade e a loucura, e o que separa uma da outra. Suas atitudes e falas preconceituosas na vida real dariam um outro post, assim como a discussão se seus distúrbios mentais justificam seus comportamentos antissemitas, por exemplo. Assistindo ao filme, a única conclusão que fica é que o maior adversário de Fischer sempre foi ele mesmo.



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em "The Big Bang Theory", alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.