12
nov
2016
Crítica: “Pequeno Segredo”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno
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Pequeno Segredo

David Schürmann, 2016
Roteiro: David Schürmann, Victor Atherino e Marcos Bernstein
Diamond Filmes

2.5

Obs: Este texto não tocará na polêmica envolvendo a escolha deste filme para representar o Brasil no Oscar em detrimento de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho. Acredito que o absurdo desta decisão (e suas motivações políticas) já está suficientemente claro para qualquer um que entenda minimamente de cinema ou simplesmente enxergue a importância e a visibilidade provocada por um festival como Cannes, lugar onde o filme de Mendonça Filho foi (merecidamente) elogiado e consequentemente poderia já ter se garantido como um dos favoritos para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

É inegável que Pequeno Segredo tenha uma história bem bonitinha para contar, principalmente quando levamos em consideração que esta de fato aconteceu e não é apenas uma invenção criada para dar origem a um filme/livro/o que seja. Por outro lado, a constante tendência de seu diretor para o melodrama acaba por transformar a obra em uma experiência bem mais artificial do que deveria, desperdiçando até suas maiores promessas.

O roteiro escrito pelo diretor David Schürmann ao lado de Victor Atherino e Marcos Bernstein segue dois núcleos em tempos diferentes que eventualmente se encontram. O primeiro segue a garotinha Katy (Mariana Goulart) que enfrenta problemas de saúde, mas conta com o apoio de sua mãe (Júlia Lemmertz). Já a segunda acompanha um rapaz neozelandês que, viajando o mundo, encontra seu amor em uma jovem brasileira (Maria Flor).

Do ponto de vista técnico o filme é admirável. A fotografia do peruano Inti Briones é eficiente em diferenciar os locais onde a trama se passa ao mesmo tempo em que comenta de maneira sutil as emoções vividas pelos personagens em cada local e época. Desta forma, quando acompanhamos a menina Katy em suas aulas de balé, Briones enche as janelas do local com luzes brancas fortes e angelicais que reforçam a inocência da personagem, já outros ambientes cotidianos da garota, como seu quarto ou escola, trazem sempre muitas cores, mas também um viés apropriadamente melancólico. Da mesma forma, as cenas que se passam na Nova Zelândia (que representa o mundo que um dos personagens centrais deixou para trás em busca de novos ares) são sempre fotografadas em cores frias, enquanto as passadas no Brasil no período que este mesmo personagem encontra sua amada são as únicas que trazes cores quentes (o que é coerente levando em consideração que é o momento mais otimista da história).

A trilha sonora de Antônio Pinto (dos fantásticos Cidade de Deus e Central do Brasil) é indiscutivelmente bem composta e bonita, mas peca pelo desespero em provocar lágrimas e também por ser completamente onipresente, deixando assim o público “anestesiado” para os momentos que realmente precisariam de música. E não deixa de ser curioso que o momento mais tocante do longa (aquele que envolve uma montagem paralela entre duas conversas semelhantes em tempos diferentes) seja justamente um dos poucos que a princípio não traz música instrumental, e quando esta eventualmente surge acaba se mostrando sutil.

Em relação ao roteiro, para cada diálogo interessante e dinâmico como aquele que traz duas personagens conversando sobre gravidez em um barco, há vários outros completamente artificiais – principalmente aqueles que envolvem a garotinha (que é o centro emocional do filme!) e que incomodam pela ingenuidade forçada, apesar dos esforços da (ótima) jovem atriz. Por outro lado, se a estrutura fragmentada a princípio pode parecer prejudicial para o envolvimento emocional do espectador, conforme a trama avança a divisão se justifica e dá ao filme um ótimo gás em seu terço final. Sendo assim, é uma pena que justamente ao estar em seu máximo, o texto inclua sua pior passagem: aquela que traz a personagem de Júlia Lemmertz em um monólogo cafona sobre “o que é o amor” (verbalizando coisas que poderiam ter ficado claras apenas com ações e não palavras).

Já a direção de David Schürmann erra por ser completamente genérica e unidimensional, batendo na mesma tecla (a do melodrama) do início ao fim: empregando sempre movimentos de câmera lentos e parecendo sempre disposto a utilizar a linguagem mais convencional e hollywoodiana possível – aliás, repare como ele exagera até mesmo ao retratar um incidente pequeno passado no colégio da garotinha principal (com direito até a slowmotion!).

Trazendo ainda uma absurda e gratuita inserção publicitária dos Correios (que não se justifica nem mesmo dentro do filme, já que o personagem hesita e desiste de mandar a carta que escreveu), Pequeno Segredo tem seus momentos belos (que seriam bem menos impactantes se não tivessem acontecido de verdade, é preciso dizer), mas por ser um filme de uma nota só, acaba cumprindo apenas relativamente bem seu papel, desperdiçando parte de seu potencial em seu desespero em provocar lágrimas a qualquer custo.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.