21
nov
2016
Crítica: “Snowden: Herói ou Traidor”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita
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Snowden: Herói ou Traidor (Snowden)

Oliver Stone, 2016
Roteiro: Oliver Stone e Kieran Fitzgerald
Buena Vista

3.5

Quando se está na frente com obras como Black Mirror, fica a sensação de que realmente o que se retrata em seus roteiros complexos e até um pouco fabulesco, é ficção científica absoluta e de que aquilo que os criadores desejam denunciar nada mais são do que exageros. É uma pena, porém, de que essa sensação seja completamente falsa. A tecnologia que chega até o público comum, é uma parte muito pequena daquilo que já foi desenvolvido, e com toda certeza também é a parte mais “inocente” por assim dizer. Muitos se espantam e riem daqueles que batem na tecla de que somos observados o tempo todo e de que devemos ter cuidados enquanto navegamos na internet, por mais segura que pareça a rede que você acessa. Os perigos existentes vão muito além de hackers invadindo seu computador e roubando suas senhas e suas fotos. Esse, talvez, seja o menor dos perigos. Muito mais grave, na opinião desse que vos escreve, consiste no fato de estarmos sendo vigiados por órgãos de um governo que nem o nosso é (e não duvido nada que sejamos observados pelo governo nacional, também .. apesar da comédia de erros que é Brasília) com a desculpa de que isso nos deixe mais seguro.

Oliver Stone é um cineasta conhecido pelo viés político com que trata suas obras. Denuncia não só problemas econômicos e como o dinheiro é tratado pela bolsa de valores mais poderosa do mundo, mas também “bate” no governo do país mais rico do planeta, ignorando completamente quem está no poder. Stone não escolhe lados políticos. Escolhe, na maioria das vezes, a ética. Esse seu posicionamento político quase isento fica muito claro nesse seu mais novo trabalho: Snowden.

O longa, roteirizado pelo diretor e Kieran Fitzgerald, é baseado em dois livros e também no documentário Cidadãoquatro de Laura Poitras (Melissa Leo) e acompanha a vida de Edward Snowden (Joseph Gordon-Levitt), ex-funcionário da NSA e CIA, em um período de 9 anos. A escolha de contar a história simulando a entrevista dele pro documentário é acertada, já que desde o princípio o espectador fica inserido em seu contexto. Para aqueles que não conhecem ainda a história de Snowden, ele foi responsável por denunciar ao mundo o esquema de espionagem do governo norte-americano, divulgando documentos secretos ao jornalista Glenn Greenwald (Zachary Quinto).

A estrutura da montagem é acerta, já que ela é responsável por uma tentativa de dar mais ritmo ao roteiro, intercalando momentos da entrevista e do encontro de Snowden com o jornalista e a cineasta, com aqueles em que é ilustrado o que ele narra. Acontece que mesmo com uma montagem até certo ponto eficiente, o longa ainda se apresenta lento, já que como de costume em filmes dessa temática, é necessário que tenhamos bem claro no roteiro momentos didáticos, para que o espectador não fique tão perdido nos assuntos técnicos tratados. Isso fica bem claro no tempo que se perde de tela mostrando o início do treinamento do protagonista na NSA. Nota-se que o roteiro acerta também na construção da personagem, já que vemos em tela a transformação de Snowden em um patriota conservador, que em determinado momento diz que não gosta de falar mal do seu país,  a um cidadão que se mostra muito mais liberal ao denunciar as práticas executadas pelo seu governo. E, se a direção acerta na construção do protagonista, isso deve-se muito à atuação de Gordon-Levitt que sem muitas estripulias brilha mais uma vez em tela, deixando de lado qualquer falta de semelhança física, porém imprimindo o tom de voz e a calma na fala idênticos ao personagem retratado.

Essa transformação é baseada através de seu relacionamento com Lindsay Mills (Shailene Woodley), uma mulher que se mostra inicialmente com fortes opiniões e pensamento totalmente liberal. Porém, se acerta na construção do personagem título, erra ao construir sua namorada, já que pontua o tempo todo de que se trata de uma mulher independente, mas que do início ao fim do longa (com exceção ao momento em que eles “dão um tempo”) é passada a imagem de uma pessoa que fica o tempo todo à sombra do namorado, trazendo um romance daqueles mais clichês. Esse romance, aliado ao foco no problema de saúde de Edward, mostra a intenção dos produtores em trazer para o cinema não somente um público mais interessado em política.

A fotografia assinada por Anthony Dod Mantle auxilia e muito a narrativa proposta por Stone, inclusive nos momentos em que ele deixa a marca de sua direção. As cores mais realistas, contrapondo com takes mostrados através do visor de uma câmera, webcam ou de uma tela de um centro militar mostrando um bombardeio em uma cidade do Oriente Médio, deixa claro que apesar de contar com alguns personagens ficcionais e com um apelo romântico, trata-se de um longa completamente realista, onde o foco principal é a denúncia e o debate que ele propõe.

Nos fazendo pensar com momentos como aquele em que diz que todo mundo tem algo a esconder, por mais inocente que seja, Snowden: Herói ou Traidor é importantíssimo ao ilustrar como a espionagem dos EUA está muito mais interessada no controle social e econômico mundial do que na prevenção de ataques terroristas. É impossível você sair da sala de cinema e encarar a webcam do seu notebook da mesma forma que antes. Mesmo que ele esteja desligado.

Ah! Obrigado pela leitura NSA.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.