28
nov
2016
O Falcão Maltês e o Film Noir!
Categorias: Especiais, Pipoca Clássicos • Postado por: João Vitor Moreno

O Falcão Maltês (ou Relíquia Macabra), de 1941, não é o primeiro filme do gênero noir (O Homem dos Olhos Esbugalhados, de 1940, leva esse crédito), mas é um dos mais influentes e também umas das obras mais fundamentais para entender a essência deste fascinante gênero, uma vez que aqui já podemos notar vários dos elementos que depois viriam a ser tão marcantes em filmes como O Terceiro Homem (Carol Reed, 1949) e Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, 1950) – filmes que figuram na minha lista de melhores de todos os tempos.

O roteiro escrito pelo diretor John Huston, adaptado de um livro de Dashiell Hammett, segue o detetive particular Sam Spade (Humphfrey Bogart), que é contratado por uma mulher misteriosa para encontrar sua irmã. Porém, a investigação resulta na morte de seu parceiro de trabalho, e o detetive logo se descobre no meio de uma busca por uma estatueta antiga e valiosa no formato de falcão.

A primeira coisa a se notar de icônico no filme, e que viria e se tornar uma das marcas do gênero noir, é a figura do anti-herói. Responsável por alavancar a carreira de um dos maiores nomes da história do cinema americano (Humphfrey Bogart – que a partir dali protagonizaria clássicos como Casablanca e O Tesouro de Sierra Madre), o detetive Sam Spade (repare no sobrenome) é a representação completa do anti-herói: sempre disposto a levar vantagem sobre os outros personagens (chegando até a subornar a personagem vivida por Mary Astor – sobre quem comentarei mais no próximo parágrafo –, mesmo quando esta se encontra em situação financeira precária), ele ainda tenta sempre manter um distanciamento emocional de tudo o que o cerca (quando seu parceiro morre, por exemplo, sua primeira reação é mandar refazer a fachada de seu escritório para retirar o sobrenome do falecido, e, além disso, logo depois ficamos sabendo que o próprio Spade mantinha um caso com a esposa deste parceiro – caso este que também era administrado com frieza pelo detetive, uma vez que quando a viúva o pergunta se agora será possível eles ficarem juntos, sua reação é de pura indiferença e descaso).

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E é necessário aplaudir a fantástica atuação de Bogart, que vive o personagem com frieza absoluta, demonstrando com leves e sutis movimentos com a boca seus prazeres momentâneos ou seu desprezo para com outros personagens, sendo notável também como o ator sugere de maneira apropriadamente dúbia e sutil o possível interesse amoroso entre seu personagem e a de Mary Astor, já que este é um detalhe que cabe à interpretação de cada espectador decidir se ocorreu de fato ou não.

E é na personagem vivida por Mary Astor que podemos notar mais uma característica marcante do noir: a femme fatale – uma mulher misteriosa, que usa seu poder de sedução para conseguir o que quer, e no processo pode ou não fazer com que o anti-herói se apaixone por ela (mais uma vez, este é um detalhe que cabe à interpretação do espectador – assista ao filme e tire suas próprias conclusões).

Mas não é apenas na trama e nos personagens que O Falcão Maltês se mostra interessante, uma vez que a abordagem do diretor John Huston (em seu primeiro trabalho!) é igualmente fascinante e rica. É impressionante notar, por exemplo, o domínio que o cineasta tem da mise-en-scène (a disposição dos atores e outros elementos no quadro), por exemplo: quando o diretor quer demonstrar que no meio de uma discussão um personagem assume a posição central e mais segura em relação aos outros, ele o traz sentado em tela, mantendo os outros em pé e em movimento, o que reforça a posição dominante representada por ele.

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Igualmente interessante é notar como John Huston já demonstrava domínio sobre o uso de ângulos plongée e contra plongée (câmera inclinada de cima para baixo e de baixo para cima, respectivamente) para representar vulnerabilidade ou (com mais frequência) imponência, uma vez que esta foi uma técnica popularizada no cinema americano no mesmo ano por Orson Welles em seu fantástico Cidadão Kane (mas é claro que durante a produção de Falcão Maltês o filme ainda não estava pronto, ou seja, é quase como se neste aspecto os dois filmes se equivalessem em vanguardismo, embora, é bom lembrar, esta não era a única novidade trazida pelo revolucionário filme de Welles – mas isto pode ser assunto para outro post futuro).

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Mas talvez o mais interessante na abordagem estética do filme seja sua influência expressionista ao retratar o universo em que vivem aqueles personagens. Trazendo quase sempre o quadro cheio de sombras e fumaças, John Huston e sua equipe ainda fazem um belo trabalho ao trazerem constantes listras contínuas em tela (seja nos figurinos dos personagens, nas sombras, ou até mesmo nas janelas), o que cria um ambiente visual de prisão que reflete o submundo no qual os personagens vivem, e ainda (evite o restante deste parágrafo se ainda não viu o filme) sugere de maneira irônica e elegante o destino inevitável da maioria daquelas figuras: a prisão (representada também de maneira visual pelo diretor ao trazer a personagem de Mary Astor atrás das grades de um elevador em sua última aparição no filme).

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Sendo um filmaço à frente de seu tempo e também uma obra que define um gênero tão rico e fascinante, O Falcão Maltês é um clássico e não é por acaso. Além de trazer uma trama interessante povoada por personagens tridimensionais que podem surpreender a qualquer momento, o filme pode ser ainda, sob um olhar mais atento, uma aula de história do cinema e linguagem cinematográfica.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael