27
nov
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “A Tocha de Zen”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Matheus Benjamin
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A Tocha de Zen (Hsia Nu)

King Hu, 1971
Roteiro: King Hu e Songling Pu
China
Criterion Collection

4

Muito antes de muitas franquias adolescentes dividirem seus filmes em duas partes, um clássico do cinema chinês já havia utilizado essa estratégia, mas por conta de uma grandiosa história que estaria sendo contada ao longo de 200 minutos. O épico A Tocha de Zen é o filme que dá continuidade à Maratona de 80 filmes em 80 países diferentes, representando a China, o país com maior população atual no mundo.

Inspiração para Quentin Tarantino em Kill Bill e Ang Lee em O Tigre e o Dragão e baseado no livro Histórias Estranhas de Liu Jai de Songling Pu, o longa inicialmente segue sr. Ku (Chun Shih), um artista incompreendido que faz diversos desenhos em uma banca dos tempos antigos chineses. Sua mãe, a sra. Ku é a representação perfeita das pressões que até hoje diversos filhos em diversas casas no mundo vivem: ela quer que o filho case de qualquer forma e que se inscreva em um programa do governo para fazer parte do  exército, tudo porque ele já passou dos 30 e ela quer ter netos antes de morrer. Acontece que o sr. Ku é a pessoa mais calma que se pode encontrar neste pequeno vilarejo e é a partir de acontecimentos estranhos e um tanto quanto macabros que a aventura começa, pois o lugar onde residem, um forte abandonado nos arredores, tem a fama de estar assombrado. Alguns personagens duvidosos surgem à trama e a transformam em um épico cheio de armadilhas, segredos e intrigas. Os mistérios que rondam esse vilarejo parecem envolver algo que vai além do sobrenatural. Muito além do dragão, o filme explora o folclore chinês de forma natural e interessante, tendo em vista que essa é uma parte importante zelada desse país.

O cinema asiático, de uma forma ampla, aposta em cenas longas e contemplativas, sem diálogos, mas com muitas ações; sejam elas calmas ou não. E o diretor King Hu segue o estilo com o qual foi concebido, sendo sua direção uma das maiores virtudes do filme. Para as tomadas de batalhas com espadas em efeitos práticos, são filmados diversos planos detalhistas que ao serem montados poderiam perder completamente o ritmo proposto. Mas a equipe habilidosa do cineasta soube harmonizar tudo isso de forma interessante e instigante, fazendo dessas sequências pontos altos e fortíssimos na trama. Os personagens articulam ações fantasiosas durante suas lutas unido às expressões (forte marca do cinema chinês) dos atores e a delicadeza nos movimentos. A trilha sonora folclórica e minimalista também vale ser ressaltada, tendo em vista que ela consegue se camuflar muito bem pelas cenas e se transforma em um elemento ainda mais subliminar para a construção da narrativa.

A arte explora uma paleta cheia de tons esverdeados, tanto por conta da natureza presente nos cenários, quanto em pequenos detalhes das vestimentas dos personagens, que são bastante apropriados para o retrato fiel à época. Os cenários, em sua maioria, são neutros voltados para o cinza e o branco, fazendo um belo contraste com os outros elementos visuais presentes. A fotografia é um pouco escura, mas dá a impressão do uso de luz natural. Os planos são abertos e contemplativos, há também inserções de planos estilosos, como um super plongée longíquo, onde o diretor parece estar bastante distante da ação, mas observando tudo do mais alto possível. Esses recursos ajudam no desenvolvimento do roteiro, que é bastante instigante, com alívios cômicos da sra. Ku e suspense. O formato seguido e o desenvolvimento do roteiro pecam um pouco na duração; algumas cenas são prejudicadas pela lentidão e as várias cenas de luta seguem padrões que em determinado momento podem cansar o espectador; nada muito alarmante, pois o filme se sustenta pelas suas outras virtudes.

Com um desfecho interessante, personagens dúbios, cenas bem orquestradas na direção e montadas com exímia competência, A Tocha de Zen é um filme grandioso, tanto figurativamente como fisicamente, com grandes virtudes, mas com pequenas falhas para espectadores não acostumados com o estilo asiático de se fazer cinema. Vale ressaltar a qualidade técnica da obra para o contexto de sua época de produção que o gratificou com um importante prêmio no Festival de Cannes; sendo assim, é um clássico que merece ser visto e apreciado.

Na semana que vem continuaremos nossa viagem, dessa vez parando na Colômbia com o longa Cão Come Cão.



Fã de Miyazaki, Aïnouz, Salles, Mendonça Filho, Von Trier, Thomas Anderson, Haneke e Bergman. Dirigi dois curta-metragens "A-Ma-La" e "Senhor Linux e sua Incrível Barba", ambos pela Pessoas na Van Preta.