20
nov
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Jovem Aloucada”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Raphael Cancellier
jovem-aloucada

Jovem Aloucada (Joven y Alocada)

Marialy Rivas, 2012
Roteiro: Marialy Rivas, Camila Gutiérrez, María José Viera-Gallo, Pedro Peirano
Chile
Fabula

3

Nesta semana, a nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes desembarca no Chile para conhecer a blogueira Jovem Aloucada.

Daniela (Alicia Rodríguez) é uma garota do ensino médio que vive no seio de uma família evangélica. Reprimida pela mãe, ela desconta o seu ceticismo em aventuras sexuais de todos os tipos com diversos garotos e conta as suas histórias e os seus questionamentos religiosos em um blog. Quando a diretora de seu colégio descobre que ela transou com um jovem, a expulsa de lá e como punição, sua mãe a obriga a trabalhar em uma produtora da igreja.

Apesar de ter uma excelente direção e uma fotografia asséptica, o filme peca em seu enredo, não se aprofundando no drama da personagem e em seus desafios, focando mais no choque gratuito mesclando figuras religiosas, pênis e vaginas.

A despeito de muitos filmes que focam na sexualidade – vide os excelentes Bruna Surfistinha (Marcus Baldini, 2011) e Ninfomaníaca (Lars Von Trier, 2013) – Jovem Aloucada tenta fazer uma produção com viés alternativo, porém, acaba se tornando uma obra excessivamente alegórica, com uma personagem passiva e apática.

A protagonista ganhou o Colón de Plata no Festival de Cinema Latino-americano Huelva pela sua atuação; no entanto, em muitos momentos sua fala parece decorada e sem empatia. Mesmo a falta de empatia sendo a característica principal de Daniela, a atriz nos apresentou uma protagonista morna e sem maturidade em sua performance.

O filme também abusa da voz narrativa da personagem, o que causa um certo incômodo. Daniela narra praticamente o filme inteiro, não deixando espaço para a subjetividade e para que possamos ouvir a fala dos outros personagens, empobrecendo a força da história e os dramas dos demais participantes da produção.

Um dos pontos principais do filme são as figuras da mãe e da tia de Daniela. Enquanto a mãe representa a figura opressora e vazia de sentimento com a filha por conta da religião, a tia é o porto seguro da jovem e ela, mesmo doente, é quem dá forças e apoio para a protagonista. Infelizmente, esse contraponto entre as duas, que são responsáveis pela formação do caráter da jovem, não foi explorado a fundo, em detrimento do “choque pelo choque”, que parece ser o ponto principal da produção.

A paleta de cores do filme é fria, nos apresentando um produto final sensível e clean. No entanto, essa mesma paleta dificulta a percepção da obra, uma vez que o tom da narrativa é irônica e não dramática, que aparece na proposta da iluminação e do tratamento dado às imagens.

Apesar dos pontos dificultosos, Jovem Aloucada possui excelentes momentos, como na hora em que o tio religioso de Daniela quebra uma imagem de Nossa Senhora na frente da família toda. Para quem não se lembra, aqui no Brasil também passamos por esse infame momento quando o bispo Sérgio Von Helder chutou a imagem da santa em rede nacional.

A cena do jogo de conquista entre Daniela e Antonia (Maria Garcia Omegna) no MSN foi realizada por mãos impecáveis, com a dinâmica da troca de olhares em plano fechado, movimentos rápidos, sincronizados com o diálogo, o áudio da digitação e um ritmo que nos causa uma certa ansiedade. Outo ponto positivo da obra são as colagens sexuais com uma coloração e uma trilha sonora psicodélicas, tirando o peso dos órgãos genitais da tela e mantendo um ritmo vibrante.

Apesar de alguns deslizes, o filme consegue mostrar a repressão do excesso de religiosidade por meio da discriminação sexual, algo impensável nos dias de hoje, mas que acontece mais do que imaginamos. O saldo final de Jovem Aloucada é médio; é um filme com uma boa direção que mascara as fragilidades presentes em seu roteiro.

E se preparem: semana que vem embarcamos para a China com a produção A Tocha de Zen (King Hu, 1971)



Futuro roteirista de TV e cinema, assisto de tudo, sem preconceitos, e procuro prestar atenção na forma como a história é contada. Sou apaixonado pelo cinema brasileiro contemporâneo, mas também sou Disneymaníaco. Meus diretores preferidos são Almodóvar, Gabriel Mascaro, Tarantino, Aïnouz, Von Trier e Sofia Copolla.