06
nov
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Um Homem que Grita”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

Um Homem Que Grita (Un Homme Qui Crie)

Mahamat-Saleh Haroun, 2010
Roteiro: Mahamat-Saleh Haroun
Chade
Pili Films, Entre Chien et Loup e Goi-Goi Productions

3

Depois de uma passagem pela Burkina Faso, nosso giro pelo mundo continua com os pés na África. O visitado da vez é o Chade, representado por Um Homem Que Grita, longa vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, no ano de 2010.

Na história, Adam (vivido pelo excelente Youssouf Djaoro) é um ex-campeão de natação que agora é responsável, junto com o seu filho Abdel (Diouc Koma), por cuidar da piscina de um hotel de luxo. Com a chegada de um novo grupo à administração do local, Adam é transferido – a contragosto – para a portaria, enquanto a piscina permanece sob a responsabilidade do filho. Nesse ponto, tem início uma espécie de mal-estar entre os dois, já que o protagonista fica revoltado com a perda da função (“a piscina é minha vida”, diz ele, em certo momento). Para piorar, o país passa por uma guerra civil, e Adam é constantemente pressionado por um líder local (Emile Abossolo M’bo) a dar sua colaboração no conflito – seja por meio de dinheiro ou alistando Abdel para lutar ao lado das tropas do governo. 

Com uma bagagem que envolve nada menos que sete prêmios no Festival de Veneza, o diretor e roteirista chadiano Mahamat-Saleh Haroun foi feliz ao conseguir reproduzir, de maneira quase documental, o difícil relacionamento entre pai e filho em uma nação abalada pela guerra – a situação que vemos em tela está longe de ser mera ficção para a população do Chade, já que, de 2005 a 2010 (ano de lançamento do filme), o país passou por um conflito armado. O que parece ser apenas uma irritação mesquinha pela perda de um cargo ganha contornos maiores quando Adam toma a decisão desesperada que leva Abdel ao campo de batalha e dá novos rumos à trama.

Seria injusto não elogiar a atuação de Youssouf Djaoro nas várias facetas do seu personagem. Começamos o filme vendo Adam como um dedicado trabalhador, um pai e marido brincalhão e amigável. No segundo ato, ele se torna um tipo angustiado, calado e inseguro consigo mesmo –  chega a questionar se está velho e observa, em tom de desaprovação, seu físico no espelho. E, se somos convencidos da mudança repentina de comportamento do personagem, o mérito é de Djaoro, que não deixa espaço para que o seu talento seja questionado.

Um Homem Que Grita é um título simbólico para esse filme, tendo em vista que, em nenhum momento, o personagem principal chega a gritar de fato. Na verdade, o grito é silencioso, feito no interior de Adam, que carrega no silêncio a angústia e toda a dor da situação pela qual passa. Nesse aspecto, o longa me lembrou de outro representante da Volta ao Mundo: o belga O Filho, que também é construído em cima de pequenos gestos e olhares.

O fato de a primeira e a última cena trazerem pai e filho na água – uma piscina no início e um rio no desfecho – também possui valor semântico. Com um quê de lirismo e tragédia (a mistura dois dois é forte no terceiro ato, em que temos a beleza da paisagem africana realçada pela fotografia), Haroun dá a sua contribuição na tarefa de dar mais visibilidade ao cinema africano. E é nesse ponto que o nosso projeto da Volta ao Mundo mostra a sua importância: aos poucos, vamos descobrindo mais e mais sobre os filmes que são produzidos em outros países. Afinal, a sétima arte é muito maior que Hollywood!

No próximo domingo, estaremos no Canadá, com o filme Redemoinho, de Dennis Villeneuve. Não deixe de nos acompanhar nessa viagem!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!