31
dez
2016
Crítica: “Animais Noturnos”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Animais Noturnos (Nocturnal Animals)

Tom Ford, 2016
Roteiro: Tom Ford
Universal Pictures

4.5

Animais Noturnos é um filme memorável e intenso, e que além de ser uma experiência narrativa complexa e envolvente, funciona incrivelmente bem graças aos seus personagens complexos e humanos.

A trama se inicia com a personagem Susan (Amy Adams) recebendo um manuscrito de um livro de suspense de seu ex-marido. A partir daí o filme acompanha três tempos diferentes: a personagem lendo o livro e sua relação distante com o atual marido, flashbacks que mostram sua relação com seu antigo esposo (autor do livro), e a história encenada do livro em si enquanto a personagem o lê.

Como o esperado, a montagem do filme se mostra fascinante, já que acompanha de maneira ágil e dinâmica três tempos diferentes sem nunca parecer confusa ou irregular. Além disso, é interessante com os cortes de um tempo para outro muitas vezes incluem rimas visuais, como ao trazer um personagem dentro do livro tomando banho e cortar para um momento em que a personagem que está lendo também está no banho. E também é interessante como o filme em alguns momentos traz a protagonista como reflexo do próprio espectador: após acompanharmos uma cena muito intensa (que se passa no livro dentro do filme), a montagem corta para a personagem que está lendo reagindo ofegante e abalada – exatamente da mesma forma que o espectador.

Mas apesar da estrutura narrativa complexa, o que realmente importa no filme são seus personagens, e é interessantíssimo notar, conforme a narrativa avança, que a trama do livro reflete de alguma forma o próprio relacionamento entre a protagonista e seu ex-marido que escreveu a história – o que reforça um dos temas do filme que é o papel e o poder da arte.

Mas a parte técnica também não fica para trás, já que a fotografia é eficiente em diferenciar os diferentes núcleos narrativos: a “vida real” é fotografada com cores frias e sem vida, enquanto a trama do livro é cheia de cores quentes, remetendo quase a um western com pitadas noir. E também é interessante notar como a personagem principal utiliza sua forte maquiagem como um escudo para se esconder de sua vida, com a qual está insatisfeita (em certo momento ela diz: “Você já teve a impressão de que sua vida tomou um rumo que você jamais planejou?”): dessa forma, nos flashbacks que mostram sua vida com o ex-marido (um período esperançoso para ambos) ela surge com o cabelo mais natural e quase nenhuma maquiagem, já as cenas no presente, onde ela está insatisfeita, surge sempre com uma pintura fortíssima, e demonstra alívio ao retira-la depois de um dia estressante.

Outro ponto fortíssimo do filme é o seu elenco. Amy Adams (em seu segundo papel memorável somente neste ano) faz um excelente trabalho em diferenciar os dois momentos distintos de sua personagem, contrastando toda melancolia e desilusão no presente com a esperança nos flashbacks. Já Jake Gyllenhaal (outro que vem construindo uma carreira cada vez mais admirável) surpreende pela intensidade e equilibra muito bem a vergonha e a raiva de seu personagem sem precisar apelar para um overacting.

E enquanto Isla Fisher e Michael Sheen conseguem ser marcantes mesmo com papéis pequenos, Aaron Taylor-Johnson surge detestável e completamente diferente de tudo que já fez em sua carreira. E Michael Shannon rouba a cena como sempre, com um típico coadjuvante que mereceria um filme próprio.

Trazendo ainda várias sequências intensas e marcantes (uma que se passa em uma estrada de madrugada está entre as melhores coisas que vi este ano), Animais Noturnos é um filmaço que além de funcionar como entretenimento e exercício narrativo, traz personagens complexos que ficam com o espectador mesmo depois dos créditos finais.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael