17
dez
2016
Crítica: “Capitão Fantástico”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Pedro Bonavita

Capitão Fantástico (Captain Fantastic)

Matt Ross, 2016
Roteiro: Matt Ross
Universal Pictures

4.5

O amor é provavelmente a palavra mais difícil de definir. O dicionário diz o seguinte: “Sentimento afetivo em relação a; afeição viva por alguém ou por alguma coisa”; “Pessoa amada”; “Gosto vivo por alguma coisa”, etc.. Fato é que, além da dificuldade para sua definição, é bastante complicado também você explicar o porquê ama algo ou alguém. Amor é daquelas coisas que acontecem do nada, quando se menos espera e da maneira mais esquisita. Assim começou meu amor pelo cinema, do nada e de uma maneira não convencional. Digo isso porque o filme que me fez apaixonar pela sétima arte não é um clássico de Hitchcock ou Chaplin, tampouco um blockbuster. Trata-se de um longa singelo, mas de tamanha beleza que, até hoje, não consigo explicar exatamente o porquê gosto tanto dele. Em 2007, quando terminei de assistir Pequena Miss Sunshine, percebi enfim que o cinema era muito mais do que um simples divertimento. Diria que aquele dia, que infelizmente não lembro qual era, mudou minha vida.

Capitão Fantástico, novo longa de Matt Ross, é um filme sobre amor e com uma áurea muito parecida com aquele que me fez apaixonar pelo cinema.

O doce roteiro acompanha a história de Ben (Viggo Mortensen), pai de seis filhos, que tem a dura missão de criá-los após o trágico falecimento de sua esposa e mãe das crianças. Ainda quando casados, Ben e sua esposa decidiram dar uma criação diferente aos seus filhos, longe da urbanização e de todo o conforto que estamos acostumados. Criados na selva, são educados pelos pais, longe das escolas, sabem usar armas, caças e tem o físico de atletas de elite. Após constatada a morte de sua esposa, o pai começa a ter problemas com os filhos, muito pela maneira radical que enxerga a vida e corre o risco de perder a guarda dos filhos para os avós.

É impressionante que, mesmo contando com vários percalços durante a jornada, o roteiro escrito pelo próprio diretor não cai em nenhum momento naquela coisa piegas de sempre ter um vilão. Muito pelo contrário, mesmo com toda dificuldade de relacionamento de Ben e seu sogro Jack (Frank Langella), o espectador consegue notar que eles tentam, da sua maneira, entender as atitudes um do outro e que ambos querem o mesmo: o bem das crianças. Dessa forma, temos excluído qualquer tipo de ódio do longa, que trata aquelas relações tão complicadas de todas as personagens com uma doçura impressionante. A própria ideologia de vida escolhida por Ben fica longe de uma revolta, já que ele não tem raiva do mundo ser como é – apenas acredita em um mundo mais harmonioso. Mais uma vez o amor, agora entre o homem e a natureza.

Interessante também perceber a crítica do diretor ao falar dos “tabus” existentes na sociedade, onde qualquer coisa fora do convencional é visto como errado. Vemos isso não só na discordância de Jack com a educação dos netos, mas também pela irmã de Ben, que recrimina a maneira como ele cria seus filhos. Todos tentam o tempo todo convencê-lo de que ele deveria criar seus filhos de outra forma, mais urbana. Enquanto isso, o pai conta com argumentos ótimos, em que acaba fugindo de discussões acaloradas e apenas deixa seu ponto de vista aparente. Isso fica nítido durante a visita que a família faz aos tios. A cena em que Ben mostra que seus filhos são mais inteligentes e cultos do que os sobrinhos (frequentadores de colégio) é uma das minhas favoritas do longa.  Ao tempo em que faz essa crítica, o roteiro fica longe de impor alguma coisa ao espectador, no fundo, ele não recrimina nenhuma das formas de criação. Cada um educa os filhos da maneira que quiser. E, olha o amor aí de novo, o mais importante é que nessa criação haja amor e respeito. E, ao mostrar a família de Ben muito mais unida do que a de sua irmã, o diretor deixa claro que o convencional não é sinônimo de felicidade. Pelo contrário.

Tratando de um filme independente, é impressionante a qualidade do design de produção e da fotografia. As cores fortes deixam ainda mais evidente o tom otimista do longa, já que mesmo nas sequências noturnas na mata temos uma boa iluminação. Os detalhes do ônibus que a família viaja também são ótimos. Dá vontade de viver ali, mesmo se tratando de um veículo mais antigo e sem modernidade alguma. O figurino compõe perfeitamente aquelas personagens que, ao mesmo tempo em que são desprovidos de vaidade, têm cada um seu estilo próprio. A caracterização tem seu valor, principalmente quando Ben raspa sua barba no momento em que sofre uma ruptura em sua vida, que faz com que ele deixe para trás seu passado e a partir de então passe a viver uma, se não nova, renovada vida.

É tão bom quando temos a trilha sonora inserida de maneira tão orgânica no filme. A importância da trilha é tanta, que contando com ótimos momentos de silêncio, é com música o momento mais emocionante de todos. Afinal, impossível não se emocionar com a sequência em que a família canta o clássico do Guns and Roses: Sweet Child O’ Mine. Momento mais singelo das quase duas horas de exibição.

Trazendo a direção de Matt Ross pra discussão, é impossível não elogiar, não só por conta das escolhas de conceituação do longa, mas também pela própria direção das sequências mais importantes, como aquela em que Vespyr (Annalise Basso) cai do telhado e a condução do diretor nos faz crer o tempo todo que o acidente aconteceria e nem por isso a tensão fica fora da tela.  E, mais impactante ainda, é a direção de atores. É tocante a atuação de cada um ali, principalmente de Viggo Mortensen, que traz a doçura no olhar, ao mesmo tempo em que tem uma força que leva segurança aos filhos. Não à toa, o filme está indicado ao SAG como melhor elenco.

Capitão Fantástico nos faz acreditar no amor. É daqueles filmes que facilmente viram xodó do espectador. Que tenha vida longa e siga encantando mais e mais pessoas.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.