01
dez
2016
Crítica: “Meu Amigo Hindu”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno
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Meu Amigo Hindu

Héctor Babenco, 2015
Roteiro: Héctor Babenco
Europa Filmes

3

Meu Amigo Hindu é um filme que funciona muito bem como drama, mas falha pela necessidade do diretor em homenagear a si mesmo, fazendo com que a obra soe como algo pretensioso e aborrecido.

O roteiro escrito pelo próprio diretor Héctor Babenco (responsável por um dos maiores clássicos do cinema brasileiro, Pixote: A Lei do Mais Fraco) conta sua autobiografia, focando no período em que lutou contra um câncer e usou seu amor pelo cinema como arma para enfrentar a doença.

Pretensioso literalmente desde seu primeiro segundo, ao incluir um letreiro assinado pelo próprio diretor que diz que “conta a história da melhor maneira que sabe”, o filme tenta se estabelecer como uma homenagem ao cinema, mas logo se desenvolve para uma celebração da carreira e do caráter de seu protagonista – o que se torna um tanto quanto egocêntrico quando sabemos que o personagem é o próprio diretor.

Sem poupar sutilezas até no nome de seu alter ego (que traz o sobrenome “Fairman” – “homem justo”), o diretor e roteirista se esforça ao máximo para celebrar seu próprio talento e integridade, trazendo seu personagem sofrendo pressão até do próprio pai e irmão em nome da ganância. Mas aparentemente Babenco não percebe que enquanto tenta se pintar como uma pessoa honesta e justa não consegue evitar que o personagem soe completamente desagradável e antipático por conta de seu sexismo escancarado – ainda que aqui o ótimo trabalho de interpretação de Willem Dafoe compense um pouco, já que adiciona fragilidade ao personagem e consegue gerar empatia no público.

Mas deixando de lado o egocentrismo, o roteiro tem sim seus méritos. Além de alguns momentos inspirados de humor (“Ele é um artista, não o incomode com política” diz um personagem em certo momento), a iminência da morte surge de maneira palpável e forte na trama, adicionando uma boa dose de melancolia. Além disso, a referência ao clássico O Sétimo Selo surge de maneira orgânica e equilibra muito bem humor com drama.

Por outro lado, ao se esticar demais mesmo depois de o tratamento médico do personagem acabar, o filme soa sem foco e acaba levando o espectador aos créditos finais bem mais cansado do que deveria.

Já a parte técnica está excelente. Como já demostrou ao longo de sua carreira, Babenco se mostra muito eficaz em criar uma atmosfera triste e melancólica para a narrativa. Apostando em uma trilha sonora instrumental discreta, que valoriza muito os sons diegéticos (aqueles que os personagens também ouvem), o diretor constrói os ambientes hospitalares como lugares opressores e claustrofóbicos. Além disso, a fotografia cheia de cores frias reforça o sentimento impessoal das cenas que acompanham o tratamento médico do protagonista, e as constantes sombras que enchem o quadro ao longo da projeção podem ser interpretadas como a ameaça da morte, que parece sempre à espreita.

Funcionando como drama, mas falhando em sua pretensão e em sua necessidade de se homenagear, Meu Amigo Hindu é um filme regular, que consegue comover em alguns momentos ainda que em outros provoque apenas tédio.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael