29
dez
2016
Crítica: “O Nascimento de uma Nação”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

O Nascimento de uma Nação (The Birth of a Nation)

Nate Parker, 2016
Roteiro: Nate Parker
Fox

3

Não é novidade a violência contra os negros. O racismo está, infelizmente, inserido na sociedade há séculos. O fim da escravidão no Brasil, Estados Unidos e muitos outros países representou, além de um ato de humanidade, também o aumento do preconceito racial. O abuso policial contra pessoas negras nos Estados Unidos virou notícia, com maior destaque, esse ano. Isso porque o jogador de futebol americano Colin Kaepernick comandou uma série de protestos ao se recusar a cantar o hino norte-americano antes das partidas de San Francisco 49ers, seu time. É uma pena notar que tais abusos não são isolados e muito menos acontecem somente por lá. Aqui mesmo, no Brasil, é comum policiais militares, civis e guarda municipal agredir e prender pessoas apenas por serem negras ou então moradoras de comunidades carente. É desumano. É tão bizarro, que não entra de forma alguma na minha cabeça que pessoas tenham tratamento diferente por terem tons de pele diferentes.

Em determinado momento do longa O Nascimento de uma Nação, filme de estreia na direção do ator Nate Parker, uma das personagens diz para outro que continuarão a matar negros, apenas por serem negros. Ou seja, é nítido que o período da escravidão não é algo superado. A ganância, a busca pelo poder e o prazer existente na dominação trouxe feridas, até então, irreparáveis para a humanidade. Analisamos a situação da África atualmente e é impossível não fazer um paralelo com a exploração europeia no continente. São muitas as heranças daqueles terríveis anos. A cultura do preconceito racial é apenas uma delas. Decidi assistir ao filme logo depois de contemplar o ótimo documentário produzido pela Netflix: A 13ª Emenda que trata exatamente sobre a lei que aboliu a escravidão nos Estados Unidos e como, apesar de tornar os negros livres por lei, ela não consegue reparar tantos outros problemas, por exemplo, o aumento da população carcerária nos Estados Unidos, a guerra contra as drogas e a porcentagem de negros e latinos presos em comparação aos brancos.

Ao assistir ao documentário, percebi ainda mais como foi icônica a eleição de Barack Obama há 8 anos em um país extremamente racista e com uma população negra gigantesca. Tal como o nosso.

O Nascimento de uma Nação narra a história de Nat Turner (Nate Parker), escravo que em 1831 liderou uma sangrenta rebelião de escravos no interior dos Estados Unidos. A narrativa passa por toda sua vida, trazendo para a tela momentos importantes que culminaram no estopim da rebelião, mostrando inclusive sua trajetória como pastor, onde ao ter aprendido a ler ainda quando criança, se encantou pela bíblia e tornou-se cristão, levando aquilo como uma missão na sua vida. Nesse aspecto, é impressionante percerbemos como desde sempre a religião foi usada de maneira errada, já que em determinado momento os fazendeiros locais, ao perceberem o poder das palavras de Nat usam isso para que ele “acalmasse” e de certa maneira doutrinasse os outros escravos. A religião, quando não bem empregada, é uma das mais poderosas formas de lavagem cerebral.

Porém, que o desenvolvimento da personagem no roteiro escrito pelo próprio diretor soa um tanto quanto apressado, já que por ser repleto de elipses de tempo, a personalidade de Nat nunca parece muito bem definida.

Parker ainda conta com problemas na direção, já que sua escolha em não mostrar em tela os momentos mais violentos do longa acaba tirando um pouco do impacto que poderia (e deveria) ser causado. Em contrapartida a montagem é acertada, já que até em um momento clichê como a passagem de tempo de Nat criança para ele adulto existe um raccord perfeito que torna aquilo orgânico ao filme. O trabalho de Steven Rosenblum funciona também ao trazer tensão e suspense, já que escolhe ótimos planos em momentos em que paira no espectador a dúvida do que o protagonista vai fazer. Dessa forma, se a construção da personalidade de Nat é falha, o desenvolvimento da narrativa em si do longa é interessante, já que o tempo inteiro o diretor, tendo a montagem como sua grande aliada, nos deixa alerta para que a vingança aconteça a qualquer momento.

Se o trabalho como diretor não é para se aplaudir de pé, Nate funciona como ator, já que sua atuação acaba trazendo o espectador para próximo da personagem, isso porque acerta no tom intimista, deixando pra extravasar apenas nos momentos em que o plano abre mais e sua emoção está aflorada. Em compensação, o elenco coadjuvante não consegue deixar o nível das atuações lá em cima, que torna ainda mais inevitável uma comparação com 12 Anos de Escravidão, por exemplo.

Apesar da ótima sacada do nome, em resposta ao homônimo, polêmico e racista (!) longa de D. W. Griffith e do prêmio de melhor filme no Festival de Sundance no começo desse ano, O Nascimento de uma Nação não é mais do que mediano e que tem em sua temática e naquilo que denuncia, o seu maior trunfo.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.