16
dez
2016
Crítica: “Rogue One: Uma História Star Wars”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story)

Gareth Edwards, 2016
Roteiro: Chris Weitz e Tony Gilroy
Disney / Buena Vista

4

Rogue One tinha uma tarefa que não era das mais fáceis: contar uma história que todo mundo já sabe o final e também ser o primeiro filme desde o início da saga Star Wars a trazer em seu núcleo principal apenas personagens novos. Mas o resultado desta arriscada aposta é muitíssimo positivo, já que trata-se de um filme que consegue simultaneamente ser original e se encaixar na história geral da saga, ao mesmo tempo em que é uma experiência divertida, com senso de humor, e ótimas sequências de ação.

Não darei muitos detalhes da trama pois acredito que o filme seja melhor apreciado assim, basta dizer que ela se passa logo antes do Episódio IV (1977), e acompanha o grupo de rebeldes responsáveis por roubar o material de dados que permitiu à Aliança destruir a Estrela da Morte, principal arma do Império.

A direção fica por conta de Gareth Edwards, um jovem diretor que surgiu com o ótimo Monstros, em 2010, um filme de baixo orçamento sobre invasão alienígena que é muito eficiente em criar um ambiente plausível e tenso ao mesmo tempo em que traz uma narrativa intimista e humana, e depois também comandou o razoável Godzilla, em 2014, que trazia sequências memoráveis, mas se prejudicava por um roteiro frágil e por não compreender a força e potencial de seu personagem título.

Mas aqui neste novo trabalho ele se sai muito bem e demonstra personalidade e talento. Corajoso por deixar de lado alguns elementos característicos da saga e que aqui poderiam ser gratuitos, como as transições de “cortina”, o diretor adota uma abordagem própria, com muito mais uso de câmera na mão, por exemplo, o que dá um ar mais pesado ao filme – o que é mais do que apropriado já que esta é uma história sobre guerra mais do que uma fantasia épica, ao contrário dos episódios I ao VII.

Além disso, o diretor se mostra surpreendentemente eficiente ao comandar as sequências de ação. Acertando por não exagerar em câmera tremida ou cortes muito rápidos, Edwards também acerta por trazer em vários momentos planos mais abertos que localizam para o espectador os personagens envolvidos na ação. E se algumas sequências se prejudicam um pouco por se passarem no escuro, pelo menos o grande clímax do filme é ambientado todo de dia (inclusive os momentos no espaço são muito bem iluminados), o que beneficia o 3D (vale lembrar que os óculos já deixam a tela mais escura) e plasticamente falando também é muito mais rico, já que o designe do planeta em que se passa a sequência é belíssimo.

Mas mesmo tendo suas características próprias e se diferenciando em diversos quesitos de seus antecessores, Rogue One tem sim sua dose de homenagens à saga consagrada, como não poderia deixar de ser, é claro. E a boa notícia é que essas homenagens – tanto em relação aos personagens quanto a frases famosas – não são gratuitas, e se encaixam na trama de uma maneira que enriquece a experiência para os fãs, mas também funciona para quem não está familiarizado com os outros filmes, já que se encaixa na própria lógica dos novos personagens (não citarei exemplos pois sei que quem é fã quer ir ao cinema e ser surpreendido pelas referências, mas se você assistiu ao filme acredito que saiba do que estou falando).

O roteiro escrito por Chris Weitz e Tony Gilroy trabalha bem o alto número de personagens importantes, fazendo com que cada um tenha seu desenvolvimento próprio. O núcleo emocional envolvendo a protagonista e seu pai também é eficiente, mesmo que simples (os ótimos atores Felicity Jones e Mad Mikkelsen também merecem muitos créditos aqui). O que fragiliza um pouco o texto é o fato de haver vários personagens importantes para desenvolver, o que acaba deixando a protagonista com pouco tempo de tela – algo que pode prejudicar o envolvimento do espectador.

Mas por outro lado, no que diz respeito a senso de humor o filme é praticamente impecável, encaixando alívios cômicos de maneira orgânica, sem precisar desviar atenção da trama. Mesmo que se repita ao trazer mais uma vez um androide como constante alívio cômico, ao menos o personagem consegue trazer vulnerabilidade e provocar simpatia no público, sem contar que a grande maioria de suas piadas funciona muito bem. Além disso, este filme traz um momento que para mim está entre os mais engraçados de toda a saga (aquele que faz uma piada que envolve um personagem cego e um capuz).

E se a trilha sonora de Michael Giacchino em alguns momentos incomoda um pouquinho pelo excesso, a opção de apostar em uma atmosfera mais opressiva e pesada é muito acertada, e alguns trechos de temas clássicos de John Williams também podem ser identificados surgindo em momentos chave, o que não deixa de ser um bem-vindo fan service.

Trazendo ainda um desfecho sensacional, que não apenas é tematicamente preciso dentro do que o filme havia construído até então, como ainda se amarra de maneira perfeita ao Episódio IV, Rogue One pode até ser mais longo do que o necessário e não empolgar muito como Despertar da Força, mas ainda é um filme muito bom que funciona tanto para quem já é fã da saga quanto para quem não está familiarizado com seu universo. E confesso que fazia muito tempo que não via um filme ir para os créditos finais de maneira tão satisfatória.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael