22
dez
2016
Crítica: “Sing Street: Música e Sonho”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

Sing Street: Música e Sonho (Sing Street)

John Carney, 2016
Roteiro: John Carney
Netflix

4

É bizarra a sensação de nostalgia mesmo que você não tenha vivido aquilo. Eu tenho essa sensação sempre que me deparo com alguma obra ou história ambientada na década de 1980. Acontece também com aquelas passadas em Manaus. Essa última, pode ter muito a ver com uma questão de reencarnação (Há quem acredite. Eu acredito), já a segunda, acho muito pouco provável que seja, já que nasci em 1989 e seria muito pouco tempo para reencarnar. Não vivi a década de 1980. Não morei em Manaus e nem me aventurei na selva amazônica.

Sing Street: Música e Sonho, novo longa do diretor irlandês John Carney (responsável pelos ótimos Apenas uma Vez e Mesmo Se Nada Der Certo) conta a história de Conor (Ferdia Walsh-Peelo), um adolescente que diante da crise financeira que sua família e a Irlanda atravessavam na década de 1980, é forçado a trocar de escola. Sentindo-se um estranho na nova escola, comandada por padres desleixados, o protagonista decide criar uma banda para impressionar Raphina (Lucy Boynton) uma garota, que sonha em trabalhar como modelo e é um ano mais velha do que ele. Em um primeiro momento, o enredo do longa parece mais do mesmo, um romance entre o garoto tímido e a menina mais linda da cidade. Mas vai muito além disso.

A nostalgia presente no roteiro, até para aqueles que como eu não viveram na década de 1980, pode ser representada pela idade dos protagonistas, já que ao ilustrar a adolescência (provavelmente a fase mais interessante de nossa vida), o diretor consegue levar o espectador à relembrar os momentos vividos. Não foram poucas as vezes que busquei na memórias situações parecidas com as que Conor e seus amigos viviam em tela. Já pensei em ter uma banda (juro!), já gostei da menina mais velha (agora amo uma, também mais velha), já briguei no colégio, etc.. Ou seja, Carney demonstra uma habilidade tremenda em mexer com suas lembranças: as divertidas, as tristes, as felizes e as que pouco importam. Já para aqueles que tiveram sua juventude (ou não) vivida naqueles anos, o design de produção, aliado à fotografia e a trilha sonora (falarei um pouco mais desse item) contribuem muito na criação daquele universo oitentista.

Um dos pontos altos do roteiro, é a relação de Conor e seu irmão Brendan (Jack Reynor), que foge daquele clichê do irmão mais velho que só implica com o mais novo e traz uma verdadeira amizade que passa dos limites da família. A admiração que um tem pelo outro é tocante, já que Conor, no fundo, sonha em conseguir tudo que Brendan tentou ser (ou é) na vida, enquanto o mais velho vê em seu irmão a chance de alguém naquela casa realizar os sonhos. Apesar de não ter irmãos, já presenciei histórias parecidas no meu ciclo de amigos e é realmente bonita essa idolatria que alguns irmãos sentem um pelo outro. Uma parceria de sangue. Um é o porto seguro do outro.

A representação das roupas, dos objetos e dos penteados da época são muito críveis. Não precisa ir longe. Vai no Youtube e veja um programa do Chacrinha, a platéia parece que saiu desse filme. Dessa maneira, a reconstituição das coisas típicas dos anos 1980 ajudam a criar o humor do longa, mas de uma maneira muito orgânica. As particularidades mais engraçadas da década estão presentes em tela, sem gritar aos seus olhos, mas ao mesmo tempo sem que isso passe despercebido como, por exemplo, o toca fitas na mão de Raphina para ouvir música na rua.

Trazendo a discussão um pouco mais para a caracterização das personagens, não é notável somente os penteados da época, mas também como a maquiagem ajuda (e muito!) na narrativa da trama: conforme vai se envolvendo com Raphina e com a música, Conor começa a se transformar e amadurecer e isso fica muito claro não só por suas atitudes, mas também quando, ele se sentindo um pouco mais confiante passa a usar maquiagem e cabelo colorido. A confiança fica nítida que mesmo após sofrer um sermão agressivo do padre responsável pela escola, ele continua a usar a maquiagem nas sequências seguintes e ainda consegue achar espaço para zombar daquele que te humilhou. Já Raphina sofre um processo inverso, muito maquiada no início do longa, enquanto ainda sonha em ser uma modelo de sucesso e acredita que isso vá impressionar os outros, a garota começa a deixar o rosto mais limpo conforme percebe que Conor ou Cosmo (como ela o apelida) gosta dela da forma que for. Raphina vai se tornando mais humana, menos barbie.

Os musicais parecem vir com força nessa temporada de premiações. Sing Street: Música e Sonho deve passar despercebido no Oscar, mas foi indicado no Globo de Ouro. Mas estou curioso para ver o resultado de La La Land, um dos favoritos à estatueta e provavelmente vencedor do Globo de Ouro. Isso porque o nível do longa de John Carney é ótimo e a trilha sonora é espetacular. A década de 1980 é muito rica musicalmente. Não só as músicas escolhidas como trilha do filme são ótimas, como aquelas originais, criadas para a banda fictícia também são boas. Trazendo um rock mais pop, misturado à músicas românticas e lentas, as letras conseguem contar a história das personagens, sem que no roteiro seja necessário deixar o diálogo de lado. E o cineasta irlandês parece ser mestre nisso, como já demonstrado nos seus trabalhos anteriores. Falando nisso, é muito interessante perceber como a música também tem um papel narrativo importante, já que ela faz parte de toda a evolução de Conor. Desde a primeira sequência quando ele toca violão com o intuito de abafar a discussão dos pais, até o primeiro show de sua banda, em uma das últimas sequências do longa, que serve como um ótimo clímax e amadurece o desfecho.

Sing Street: Música e Sonho é um filme que diverte e poderia muito bem ser exibido na Sessão da Tarde, porém vai muito além da leveza de seu roteiro e do clima romântico. Trata também dos anseios da adolescência e das dificuldades passadas pela Irlanda na década de 1980. Além, é claro, da crítica religiosa forte que existe. Ou seja, é um filme que vai muito além do que promete, o que é raro e que demonstra ainda mais o talento de John Carney.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.