16
dez
2016
Crítica: “Sully: O Herói do Rio Hudson”
Categorias: Críticas • Postado por: Marcelo Silva

Sully: O Herói do Rio Hudson (Sully)

Clint Eastwood, 2016
Roteiro: Todd Komarnicki
Warner Bros

2.5

2-5

 

Não é exagero dizer que Tom Hanks é um dos atores mais memoráveis do cinema. Com 36 anos de experiência, Hanks ostenta no currículo dois Oscars e uma quantidade louvável de grandes filmes – citar alguns deles de cabeça é tarefa simples: Filadélfia, Forrest Gump, Toy Story, O Resgate do Soldado Ryan, À Espera de um Milagre, Náufrago e A Viagem. Agora, o ator pode ser visto no novo longa do também aclamado Clint Eastwood, a adaptação da história real do piloto Chesley “Sully” Sullenberger, que, em 2009, fez um arriscado pouso no rio Hudson, em Nova York, salvando a vida de todos que estavam a bordo. Por conta disso, Sully foi condecorado como herói americano.

Partindo do livro escrito pelo próprio piloto em parceria com Jeffrey Zaslow, Eastwood dá ao filme um tom bastante sóbrio e nada idealista, ao contrário do que é comum em obras que abordam grandes feitos de personalidades americanas (esses protagonistas costumam ser literalmente endeusados). O Sully de Eastwood ganha contornos de um homem comum, inseguro e abalado na interpretação de Hanks. O ator, aliás, se sai muito bem dando vida a um personagem mais velho, como denunciam os cabelos brancos e os movimentos em suas corridas pela cidade. A figura do pai e marido carinhoso – mas ausente, levando em conta que ele só se comunica com a esposa por telefone e nem chega a falar com as filhas -, também é explorada no roteiro de Todd Komarnicki. Apesar de limitada a conversas telefônicas, chega a ser comovente o carinho existente entre o piloto e sua mulher, interpretada por Laura Linney. A amizade mantida por Sully e seu co-piloto Jeff Skiles (Aaron Eckhart, mais conhecido como o vilão Duas Caras de Batman – O Cavaleiro das Trevas) é outro fator interessante na história: mesmo vendo o personagem principal ser duramente acusado pelas autoridades de ter tomado a decisão errada no comando da aeronave, Skiles mantém-se ao lado dele, sempre fazendo questão de lembrar que, se não fosse Sully, os passageiros teriam morrido.

Por mais que acerte na caracterização dos personagens, Sully: O Herói do Rio Hudson peca em outros aspectos. O pouso forçado no rio, por exemplo, deveria ser o ápice do longa, mas acaba desperdiçado em uma cena sem impacto nenhum – não provoca tensão, medo e nem agonia no espectador, que, tampouco, cria algum tipo de vínculo com os passageiros. Sem uma trilha competente e com efeitos especiais de qualidade questionável, perde-se a oportunidade de uma cena antológica, algo no estilo do que Robert Zemeckis fez em O Voo, cuja trama tem suas semelhanças com esse filme de Eastwood. O comportamento da mídia, dedicada a transformar Sully em herói enquanto ele mesmo não tem certeza disso, recebe pouca atenção. A entrevista do piloto a um programa humorístico de TV é inexplicavelmente não explorada em uma cena bastante rápida, em que Sully sequer chega a interagir com o apresentador. Enfim, perde-se a chance de tocar em um assunto crucial: a transformação de pessoas comuns em heróis pelas mãos da mídia.

Além disso, o ritmo do filme não engrena em momento nenhum, restando ao espectador conferir o relógio de cinco em cinco minutos para saber se a história já está perto de acabar. Eastwood chega a mostrar duas cenas praticamente iguais em momentos diferentes: a colisão (imaginada pela mente de Sully, é claro) do avião com um prédio da cidade. Isso para tentar reforçar, de maneira nada criativa, o abalo emocional do personagem. Mais decepcionante ainda é o que o diretor guarda para o terceiro ato. Quem espera um confronto tenso entre Sully e seus acusadores em uma espécie de audiência que tenta responsabilizá-lo pelo ocorrido no rio Hudson, terá que se contentar em ver uma simulação de computador determinando o rumo da investigação e tornando desnecessário qualquer debate.

Excluído de qualquer indicação ao Globo de Ouro e ao Screen Actors Guild (SAG)Sully tem chances pequenas de chegar ao Oscar – e, se chegar, dificilmente conseguirá manter-se como favorito a alguma estatueta. Se não é um fracasso total, o filme será lembrado como apenas mais um nas carreiras de Hanks e Eastwood. Bem-intencionado, mas raso e entediante, ele pouco tem a oferecer como entretenimento.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!