27
dez
2016
Crítica: “Toni Erdmann”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Toni Erdmann

Maren Ade, 2016
Roteiro: Maren Ade
Komplizen Films

4.5

Toni Erdmann é um ótimo filme. Compreendendo seu potencial cômico e estabelecendo uma interessante dinâmica entre seus personagens, o filme ainda consegue gradualmente construir um terceiro ato que está entre as melhores coisas que eu vi recentemente em um filme.

A trama se inicia na Alemanha acompanhando Winfried, um senhor professor de música que gosta de encarnar alter egos e fazer piadas. Após a morte de seu cachorro, ele decide viajar para a Romênia a fim de passar mais tempo com sua filha Ines, com quem tem um relacionamento distante. Porém, ela é uma empresária que está em um momento importante da carreira, e o jeito brincalhão e desajeitado de seu pai causará problemas a ambos.

Estabelecendo desde o início um senso de humor sutil, que tem origem em pequenos constrangimentos dos personagens, como silêncios um pouco mais longos do que o esperado, ou tentativas de socialização que não ocorrem como o planejado, o filme acerta por apostar seus dois primeiros atos em situações cotidianas, de fácil identificação, indo aos poucos progredindo para momentos um pouco mais extremos, até chegar a um clímax absurdo, mas que por ter sido construído de maneira gradual, não apenas convence como ainda soa bem mais divertido por conta disso.

Fazendo também um ótimo trabalho em contrastar a frieza executiva da filha com as constantes tentativas de humor de seu pai, o roteiro da também diretora Maren Ade ainda consegue ironizar de maneira muito divertida a hierarquia executiva e – o que é mais importante – constrói uma dinâmica convincente entre os dois protagonistas, conseguindo fazer com que o espectador realmente se importe com eles, transformando-os em figuras humanas complexas e impedindo que se tornem apenas instrumentos para criar comédia.

E nisso as excelentes atuações centrais também se mostram fundamentais. Enquanto Sandra Hüller convence pela visão técnica e fria de mundo, e surpreende pelo humor físico, Peter Simonischek consegue ser genuinamente engraçado mesmo que seu personagem nem sempre o seja para aqueles que o cercam, sendo também eficiente em evocar o amor e carinho que nutre por sua filha, e também sua culpa por ter passado tanto tempo distante dela.

Mas o que realmente me conquistou no filme foram seus 45 minutos finais (mais especificamente: a partir de uma cena que envolve uma apresentação musical), que envolvem uma festa de aniversário que se desenrola de maneira bastante peculiar. E o mais gratificante é que essa sequência vem justo quando o filme parecia ficar com um ritmo mais irregular e o roteiro parecia estar se repetindo.  Além disso, é justamente ao dar aos seus personagens um rumo inesperado que o filme encontra seu ápice tanto cômica quanto dramaticamente.

Trazendo também ótimos momentos de humor físico (como aquele que traz a protagonista se enroscando em um vestido e outro mais para o fim que envolve um personagem levando um susto), e só pecando um pouquinho em seus segundos finais, que mastigam além do necessário a mensagem do roteiro, Toni Erdmann é um filme inesquecível, que comove por seus personagens humanos ao mesmo tempo em que traz um senso de humor particular e divertido. Vale cada segundo de suas duas horas e quarenta e está entre os melhores filmes do ano.



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.