19
dez
2016
“Ela” e a Natureza dos Sentimentos!
Categorias: Especiais • Postado por: João Vitor Moreno

Em um dos momentos mais tocantes de Ela, Theodore (personagem principal interpretado por Joaquin Phoenix) diz que tem a impressão de que já sentiu tudo o que era possível sentir durante sua vida, e que dali para frente iria apenas experimentar “versões menores” desses sentimentos, e essa perspectiva o deixa completamente melancólico. É um desses momentos que não só trazem a essência da melancolia em si, como ainda explicita a necessidade básica de todos os seres humanos: seus sentimentos.

Sim, os acontecimentos na vida de uma pessoa são importantes, mas é a reação e a percepção dela diante desses acontecimentos que realmente contam.

E é nessa tecla delicada e ambiciosa que este filme de Spike Jonze bate. Se o que realmente importa é a nossa reação e sentimento diante de algo, qual é a importância do fato em si? E indo mais além, quando amamos alguém, amamos a pessoa de fato ou a ideia que criamos dela (no caso, a percepção criada em nós pelos nossos sentimentos diante de suas ações)? Sendo assim, o que impediria alguém de se apaixonar por um computador com inteligência artificial? E, o que é mais importante, o que este amor teria de tão diferente de um relacionamento “normal”, uma vez que a inteligência artificial pode “fingir” (?) todos os sentimentos comuns de um ser humano? Porque mesmo que Samantha (o doce Sistema Operacional do filme, com voz de Scarlett Johansson) não seja de fato real, suas ações indiscutivelmente geram emoções genuínas em Theodore, e afinal, não é isso que importa?

São muitas as perguntas que Ela propõe, e o mais interessante é que Spike Jonze não se dá ao trabalho de julgar os sentimentos de seus personagens, deixando ao espectador a tarefa de pensar sobre eles e tirar suas próprias conclusões.

O que o filme deixa claro é que para gerar uma emoção não é necessário algo existir de fato, o que comenta até mesmo a natureza do próprio cinema e outras artes: acompanhamos personagens que não existem de verdade, mas as emoções que eles provocam em nós são mais do que reais.

Sendo assim, nada mais apropriado do que o personagem principal ter um emprego tão curioso como o de “escritor de cartas”, que recebe para montar cartas de amor encomendadas para outras pessoas. O que ele escreve nas cartas não é verdadeiro para ele (muitas vezes ele escreve para pessoas que nem sequer conhece), mas isso não importa, já que quem ler as suas palavras com certeza sentirá uma emoção genuína.

Outra cena reveladora do filme é aquela que traz Theodore na cama tendo uma espécie de “transa à distância” com uma desconhecida em um chat online. A relação é estranha e parece não provocar emoção alguma nele. Porém, mais para frente no filme, Theodore volta a experimentar esse “sexo virtual”, mas agora com Samantha, e o resultado para ele é mais do que satisfatório. Ora, a desconhecida no chat era uma pessoa real, já Samantha não, então por que Theodore consegue um envolvimento emocional justo com ela? O sentimento que ele experimentou é menos real por ter sido provocado por um sistema operacional?

Tendo ainda uma fantástica performance central de Joaquin Phoenix, que é capaz de expressar melancolia com o olhar mesmo quando surge sorrindo e consegue trazer um excelente timing cômico (repare em sua expressão de estranhamento ao perceber que seu chat está tomando uma direção estranha), Ela também conta com um excelente design de produção futurista (que traz tristeza e melancolia mesmo com todas suas cores), e possui momentos de beleza sublimes, como os flashbacks que mostram a felicidade de Theodore com sua ex-esposa, ou a cena que o traz cabisbaixo folheando um livro cheio de cartas de amor, cada uma com um sentimento diferente que ele parece incapaz de compartilhar. E vendo hoje este filme pela quarta vez, tive certeza de que estava diante de uma obra-prima. E mais uma vez me vi emocionado e tocado por aqueles personagens e suas dores – que não existem de fato, mas serão menos reais por causa disso?



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.