13
dez
2016
Livro e Filme: Atlas de Nuvens e A Viagem
Categorias: Livro e Filme • Postado por: Marcelo Silva

Quando descobriu que Tom Hanks estaria na adaptação de Atlas de Nuvens (Cloud Atlas, no original) para o cinema, o escritor David Mitchell teve um surto de alegria e começou a fazer uma dança maori de vitória pela casa. Ele nunca tinha imaginado que o seu livro poderia virar filme – Mitchell acreditava que a história estava destinada a ficar apenas na literatura. Ainda bem que ele se enganou.

Livro: Atlas de Nuvens (2004), de David Mitchell. Companhia das Letras. 538 páginas. Skoob.

Filme: A Viagem (2012), de Lana Wachowski, Lilly Wachowski & Tom Tykwer.

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O inglês David Mitchell, eleito pela Time em 2007 como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Cinco anos depois, essa mesma revista classificou a adaptação de Atlas de Nuvens como o pior filme de 2012.

Nascido no ano de 1969, em Southport, na Inglaterra, David Mitchell formou-se em Inglês e Literatura Americana na Universidade de Kent. Sua carreira de escritor começou em 1999, com o lançamento do romance Ghostwritten, que se passa em diferentes países (como Japão, Mongólia, Reino Unido e Rússia) e é dividido em episódios que, embora conectados, possuem histórias e personagens distintos. O livro foi aclamado pela crítica e rendeu a Mitchell o extinto prêmio John Llewellyn Rhys. Começava aí a carreira promissora do inglês, que, depois de Ghostwritten, lançou mais seis romances. Recentemente, concluiu a obra From Me Flows What You Call Time mas nós vamos ter que esperar nada menos do que 98 anos para ler.

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O livro Atlas de Nuvens ao lado do filme A Viagem

Dito tudo isso, é hora de ir direto ao tema do post: Atlas de Nuvens, o terceiro livro de Mitchell, que foi publicado em 2004, mas só chegou ao Brasil neste ano, em um belíssimo lançamento da Companhia das Letras. A obra leva o leitor a uma jornada de seis histórias de épocas e lugares diferentes que vão de uma viagem ao Pacífico no século XIX a um distante futuro apocalíptico. Assim como Ghostwritten, as histórias têm personagens e enredos próprios que, no fim das contas, estão diretamente conectados. Fé, amor, coragem, escravidão, liberdade, perda, culpa, revolta, amizade, traição, sonhos, destino. Todos esses temas surgem durante as 538 páginas do romance, que não se encaixa em apenas um gênero: trata-se de um mosaico de ação, aventura, suspense, ficção-científica, romance, drama e, até mesmo, comédia.

De qualidade inquestionável, o livro foi um grande sucesso de crítica – James Wood, da revista The New Yorker, chegou a comparar Mitchell a Vladimir Nabokov e Philip Roth – e rendeu ao autor o British Book Awards e uma indicação ao Man Booker Prize, um dos mais importantes prêmios literários.

A adaptação cinematográfica de Atlas de Nuvens começou a vir à tona em 2005. No set de filmagens de V de Vingança, a atriz Natalie Portman deu a Lana Wachowski (que, na época, atendia pelo nome de Larry e assinava o roteiro e a produção do filme) um exemplar do romance. E não podia dar em outra: a cineasta interessou-se pelo romance e, um ano depois, junto com a irmã Lilly Wachowski (Andy, na época) escreveu o primeiro rascunho do roteiro. A dupla – que, cabe lembrar, já tinha deixado sua marca no cinema com a trilogia Matrix e voltou aos holofotes há pouco tempo com a série Sense 8 – convidou o alemão Tom Tykwer (diretor de Corra, Lola, Corra) para participar do projeto, ao mesmo tempo em que buscavam meios de financiá-lo.

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Da esquerda para a direita: Tom Tykwer, Lana Wachowski e Lilly Wachowski (Andy Wachowski, na época). O trio se dividiu na direção: Tykwer dirigiu a segunda, a terceira e a quarta história; ao passo que as Wachowski ficaram responsáveis pela primeira e pelas duas últimas.

Durante o desenvolvimento do longa, inúmeros problemas ocorreram. Um deles foi a desistência do estúdio Warner Brothers’, que se assustou com o orçamento exigido. Assim, A Viagem (sim, o filme foi traduzido aqui com esse nome péssimo) acabou sendo a produção independente mais cara da história do cinema: estima-se que foram gastos 102 milhões de dólares. Desse valor, aproximadamente 20 milhões vieram do governo da Alemanha e 7 milhões do próprio bolso das irmãs Wachowski.

O filme já chamava a atenção antes mesmo da sua estreia pelo trailer de 6 minutos e o elenco estelar, com 4 ganhadores do Oscar – Tom Hanks, Halle Berry, Susan Sarandon e Jim Broadbent – e outros rostos conhecidos do grande público, como Hugh Grant e Hugo Weaving.

Em 2012, o filme foi enfim lançado. Felizmente, ele não fica devendo em nada para o romance. Ninguém pode negar que as irmãs Wachowski e Tom Tykwer, além de caprichar na parte técnica, conseguiram ir além do trabalho de Mitchell e imprimir personalidade própria ao longa. A caracterização dos personagens é um exemplo claro, já que o trio reaproveitou os mesmos atores em todos os segmentos, sugerindo uma espécie de reencarnação que não estava explícita no livro. Claro que alguns problemas que estavam presentes na narrativa de Mitchell acabaram por se repetir na adaptação, mas isso não justifica o olhar injusto e impiedoso que muitos críticos mundo afora tiveram sobre o filme. A revista Time, por exemplo, chegou a classificar A Viagem como o pior filme do anoOs números mostram que o público também não se animou muito. Nos Estados Unidos, a bilheteria foi de pouco mais de 27 milhões de dólares, enquanto no resto do mundo esse valor chegou a aproximadamente 103 milhões.

Para facilitar a compreensão, dividi a análise de acordo com cada um dos cinco episódios da história, e segui a ordem em que elas são apresentadas no livro. A intenção é comentar as características, os acertos e os erros do que foi visto na telona e lido nas páginas (spoilers a seguir).

Diário de Viagem ao Pacífico de Adam Ewing
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Dar forma a um mundo que quero que seja a herança de Jackson, e não um que eu tema que ele venha a herdar – isso me parece uma vida que vale a pena viver. Ao voltar a San Francisco, vou comprometer-me com a causa da Abolição, porque devo minha vida a um escravo que se libertou por si só, e porque tenho de começar em algum lugar.

Já posso ouvir a reação de meu sogro. “Ah, belos sentimentos liberais, Adam. Mas não me venha falar em justiça! Vá para o Tennessee montado num burro e convença aqueles posseiros de que não passam de negros caiados, e de que os negros deles são brancos pintados de preto! Vá para o Velho Mundo e diga aos de lá que os direitos dos seus escravos imperiais são tão inalienáveis quanto os da rainha da Bélgica! […] Você será alvejado com cusparadas e tiros! Será linchado, pacificado com medalhas, ridicularizado pelos desbravadores das matas! Crucificado! Adam, sonhador ingênuo, quem resolve lutar contra a hidra de mil cabeças da natureza humana tem de pagar com muito sofrimento, e sua família há de pagar junto com ele! E será só no último estertor que você compreenderá que toda sua vida não passou de uma gota d’água num oceano infinito!”

Porém o que é um oceano senão uma multidão de gotas d’água? (pág. 538)

Diário de Viagem ao Pacífico de Adam Ewing traz a história do jovem advogado Adam Ewing, que viaja a uma ilha no Oceano Pacífico para fechar um negócio em nome do sogro. O ano é 1850, e, após testemunhar o açoite de um escravo, Ewing acaba por criar uma espécie de vínculo emocional com o sujeito. Mais tarde, o escravo, de nome Autua, embarca escondido no navio em que está o protagonista e pede a ajuda dele para ser aceito como membro da tripulação. Enquanto isso, Ewing abriga em seu corpo um verme parasita e vai ficando cada vez mais perto da morte, apesar dos cuidados do Dr. Henry Goose, que viaja em sua companhia.

É uma pena que Atlas de Nuvens comece justamente pela história mais fraca entre as seis. O ritmo lento das primeiras páginas, dedicadas a traçar um histórico detalhado da ocupação das terras do Pacífico e do conflito entre os povos, pode desanimar o leitor. E, por mais que o diário de Adam Ewing retrate com perfeição parte do pensamento predominante do século XIX – a imposição da fé cristã a grupos étnicos considerados selvagens e a crença na superioridade da raça ariana e na legitimidade da escravidão, por exemplo –  falta ao protagonista o mesmo peso dramático dos demais personagens da obra. A amizade entre ele e Autua também não chega a ser bem trabalhada, o que impossibilita um envolvimento emocional maior com o enredo.

Por outro lado, temos em Henry Goose um tipo, no mínimo, curioso, que revela sua natureza vilanesca de maneira inesperada, surpreendendo até mesmo o leitor mais desconfiado. Não poderia deixar de destacar, ainda, o parágrafo que encerra a história: a transformação de Ewing em abolicionista convicto é um desfecho perfeito para a obra (séculos depois, esse ato terá suas consequências, como falarei mais adiante).

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Da esquerda para a direita: Adam Ewing (Jim Sturgess), Autua (David Gyasi), Henry Goose (Tom Hanks) e Haskell Moore (Hugo Weaving)

No filme, os problemas da narrativa são aliviados pela excelente atuação de Jim Sturgess e David Gyasi. As cenas em que Ewing rouba comida da mesa para dar a Autua e este recolhe o amigo para o interior do navio são a melhor representação da amizade entre os dois. Ao mesmo tempo, Tom Hanks parece se divertir com a sua encarnação de Goose, incorporando ao personagem trejeitos próprios, como a infame gargalhada que chega a soltar em um ou outro momento.

Uma das mudanças feitas em relação ao romance foi a inserção da fala do sogro de Ewing ao final. No roteiro, o diálogo originalmente imaginado pelo advogado realmente acontece e, colocado na tela grande, tem um impacto ainda maior, graças ao talento inquestionável de Hugo Weaving, à montagem certeira que intercala os momentos finais de Sonmi e à trilha sonora de Tom Tykwer, Johnny Klimek e Reinhold Heil. Não foi à toa que essa música figurou em primeiro lugar no meu top 11 de melhores trilhas do cinema.

Cartas de ZedelghemCloud Atlas

Hotel Memling, Bruges

Quatro e quinze da manhã, 12-XII – 1931

Sixsmith,

Dei um tiro no céu da boca às 5:00 desta manhã, com a Luger de V.A. Mas vi você, meu querido, querido amigo! Como fiquei emocionado ao constatar que se preocupa tanto comigo! Do alto do campanário, ontem, ao entardecer. Por mero acaso você não me viu primeiro. Eu havia chegado ao último lanço de escadas e vi em perfil um homem debruçado sobre o parapeito olhando para o mar – reconheci seu elegante casaco de gabardine, seu inconfundível chapéu de feltro. Se eu subisse mais um degrau, você me veria encolhido nas sombras. […] Fiquei olhando por tanto tempo quanto ousei – um minuto? -, então me virei e desci correndo até chegar à Terra. Não se zangue comigo. Muitíssimo obrigado por tentar me encontrar. (pág. 497)

Repleta de romantismo, esperança, sonhos e lirismo, Cartas de Zedelghem é a minha história preferida do livro. Nela, somos apresentados a Robert Frobisher, jovem músico bissexual que deixa Londres para se tornar assistente do renomado compositor Vyvyan Ayrs, que, por conta de problemas de saúde, está há um bom tempo sem produzir nada. Uma vez na casa do seu mestre, Frobisher passa a viver inúmeras situações: o incansável trabalho musical, as chantagens e a tentativa de plágio por parte de Ayrs, o affair com Jocasta e a desilusão com Eva. E o leitor acompanha tudo isso por meio de cartas do músico ao seu amante Rufus Sixsmith – cartas que revelam a personalidade confusa, temperamental e ambiciosa do protagonista.

David Mitchell é um escritor tão habilidoso que as cartas de Frobisher não aparentam ter nada de ficcional – é como se o autor as tivesse encontrado em algum lugar e incorporado ao livro, tão grande o realismo. Somos levados a sofrer junto com Frobisher, um rapaz talentoso e sonhador, mas que, ao mesmo tempo, está sem rumo na vida, não tendo nem onde cair morto.  Por mais que, em certo momento, diga que a única pessoa que amou em toda a sua vida foi a si próprio, não há como usar outra palavra para descrever o sentimento inesperado que passa a sentir por Eva (filha de Vyvyan Ayrs), e também o imenso carinho que nutre por Sixsmith. Mesmo assim, percebemos que a grande razão da existência de Frobisher é a música: afinal, ele nasceu para compor.

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Da esquerda para a direita: Robert Frobisher (Ben Whishaw), Vyvyan Ayrs (Jim Broadbent), Rufus Sixsmith (James D’Arcy) e Jocasta (Halle Berry)

Felizmente, a personalidade grandiosa de Robert Frobisher teve um ator à sua altura. Ben Whishaw o interpretou com maestria, rompendo qualquer tipo de barreira emocional que poderia haver entre o espectador e o filme. A dicção – sempre suave e doce –  na leitura das cartas mostra a sensibilidade do músico, que tem de lidar com o nada simpático Vyvyan Ayrs (vivido pelo competente Jim Broadbent), este sempre pronto para se apropriar do talento e da obra do rapaz.

O que faz falta na versão filmada de Cartas de Zedelghem é a personagem Eva. É ela quem, no livro, mexe com os desejos de Frobisher e, por mais que ele negue, tem uma certa influência em sua decisão final. No filme das Wachowski e de Tykwer, Jocasta (uma Halle Berry transformada pela maquiagem) é a única personagem feminina a se envolver com o músico, sendo que ela está longe de ser a mulher possessiva e ciumenta que conhecemos no romance – aqui, sua participação se resume a duas ou três frases. No entanto, isso é fácil de compreender: cinema e literatura são mídias diferentes e, se os diretores fossem adaptar fielmente cada uma das 538 páginas, A Viagem teria que ser transformada em uma trilogia nos moldes de O Senhor dos Anéis.

Meias Vidas: O Primeiro Romance Policial da Série Luisa Rey11924288_10204359981269286_4391763999943207249_n

“Uma pergunta hipotética. Que preço você estaria disposta a pagar, quer dizer, como jornalista, para proteger uma fonte?”

Luisa nem pensa sobre a pergunta. “Se eu acreditasse na causa? Qualquer preço.”

[…]

“Chegaria a… pôr em risco sua própria segurança?”

Bem…” Essa pergunta realmente a faz pensar. “Acho que… sim, eu teria que fazer isso.”

Teria que fazer isso? Como assim?”

“Meu pai se aventurou em pântanos cheios de minas e enfrentou generais furiosos pra não comprometer sua integridade de jornalista. Se a filha do Lester Rey pulasse fora na hora do perigo, seria um insulto à memória dele.”

Conte tudo a ela. Sixsmith abre a boca para se abrir – falar sobre o encobrimento na Seabord, a chantagem, a corrupção -, mas de repente o elevador estremece, zumbe e volta a descer. Os dois passageiros apertam os olhos para se proteger da luz que volta, e Sixsmith constata que sua resolução evaporou. O ponteiro aponta o primeiro andar. (pág. 103)

Ambientada na década de 1970, na cidade São Francisco, essa história acompanha a jornalista Luisa Rey, que é alertada pelo físico Rufus Sixsmith (o único personagem que participa ativamente de mais de uma trama) sobre a conspiração em torno da construção de um reator nuclear. Mas, antes de entregar o relatório com as provas a ela, Sixsmith é assassinado. A partir daí, Luisa dá início a uma investigação que ameaça os interesses de lobistas da poderosa indústria do petróleo e acaba colocando a sua própria vida em risco.

Com toques de Alfred Hitchcock, Meias Vidas: O Primeiro Romance Policial da Série Luisa Rey tem todos os ingredientes de uma boa trama de suspense: assassinato, conspiração, mistério e traição. Carregando o fardo de ser filha de um lendário jornalista, Luisa se sente na obrigação de descobrir a verdade por trás dos planos da Seabord, a corporação responsável pelo projeto da usina nuclear. Desacreditada e lutando contra todo um sistema, ela não se deixa intimidar pelo derramamento de sangue que vai se construindo em torno da investigação – Isaac Sachs, outro cientista que denuncia a armação a Luisa, também é morto pelas mãos de Bill Smoke, o assassino profissional a serviço da Seabord.

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Da esquerda para a direita: Luisa Rey (Halle Berry), Rufus Sixsmith (James D’Arcy), Isaac Sachs (Tom Hanks) e Lloyd Hooks (Hugh Grant)

O papel de Luisa Rey caiu como uma luva para Halle Berry. Ela está perfeita na interpretação da repórter determinada, inteligente e destemida, e nem de longe lembra a mesma atriz do mega-fracasso Mulher-Gato. O roteiro também acerta ao mesclar, com sabedoria, cenas de perseguição e suspense. O único equívoco talvez esteja na construção do vilão Lloyd Hooks, interpretado por Hugh Grant. Ao excluir personagens do livro como Alberto Grimaldi (presidente da Seabord) e Fay Li (relações públicas e cúmplice dos crimes da corporação), o filme joga toda a responsabilidade de antagonismo para Bill Smoke (Hugo Weaving) e Hooks. Se o primeiro convence o espectador da sua periculosidade, o empresário vivido por Grant tem pouquíssimos momentos em cena e parece mais um mero artifício para preencher um vácuo no roteiro do que a grande mente por trás do plano de causar um desastre nuclear em São Francisco e, assim, garantir o domínio das empresas de petróleo na indústria energética.

O Pavoroso Calvário de Timothy Cavendish450xn

Meu escritor agarrou as lapelas de Finch, jogou-se para trás, enfiou o pé na cintura de Finch e, com um golpe de judô, lançou para os céus aquela personalidade da mídia, um homem cuja estrutura era bem menor do que as pessoas pensavam! Ele subiu muito acima dos canteiros de amores-perfeitos colocados ao longo da grade do terraço.

O grito de Finch – juntamente com a sua vida – terminou em meio a metal amassado, doze andares abaixo.

Dermot “Duster” Hoggins alisou as lapelas, debruçou-se sobre a grade do terraço e gritou: “QUEM FOI MESMO QUE MORREU NUM FINAL INACREDITAVELMENTE CHOCHO E VAZIO, HEIN?”. (pág. 160)

Timothy Cavendish é um editor fracassado de Londres que vê sua sorte mudar quando um de seus clientes, o gângster Dermot Hoggins, assassina um crítico literário que publicou uma resenha negativa sobre Knuckle Sandwich – livro de memórias escrito pelo próprio Hoggins. O fato acaba impulsionando as vendas da obra e, com o autor preso pelo crime, Cavendish fica com praticamente todo o lucro. Inesperadamente, os irmãos de Hoggins aparecem para cobrar do editor uma fatia do dinheiro arrecadado. O problema é que ele não tem o valor exigido e decidi pedir ajuda ao seu irmão rico Denholme, que aproveita a oportunidade para enganá-lo e interná-lo em um asilo. Uma vez nesse local, Cavendish se vê submetido aos maus tratos da enfermeira Noakes e a uma rotina nada agradável – ele, então, traça um ousado plano de fuga na companhia de outros internos.

Essa é, sem dúvida, a história mais cômica e leve de todas as seis. Timothy Cavendish consegue, ao mesmo tempo,  ser engraçado, inteligente, charmoso, astuto, atrapalhado, orgulhoso e mau-caráter. O fato de o livro ser escrito em primeira pessoa torna as aventuras do personagem ainda mais deliciosas de se acompanhar, já que enxergamos tudo pelo seu ponto de vista, que nunca perde o senso de humor ou a ironia. Há, ainda, momentos mais delicados, de saudosismo, quando, por exemplo, ele relata o que sentia por Ursula, sua paixão dos tempos da juventude. Para fechar com chave de ouro, Mitchell recorre à histórica rivalidade entre ingleses e escoceses como fator determinante para o sucesso da fuga de Cavendish e seus três colegas, os igualmente ótimos Ernie, Veronica e Meeks.

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Da esquerda para a direita: Timothy Cavendish (Jim Broadbent), Dermot Hoggins (Tom Hanks), enfermeira Noakes (Hugo Weaving) e Denholme Cavendish (Hugh Grant)

Em A Viagem, Tom Tykwer ficou responsável pela parte de Cavendish e não faz feio na direção ao conseguir manter a mesma atmosfera originalmente estabelecida pela narrativa de Mitchell. Como resultado, temos Jim Broadbent entregando a melhor atuação de todo o filme:  a impressão que fica é que o papel foi escrito especialmente para o ator, tamanha a naturalidade com que encarna a personalidade de Cavendish. Surgindo irreconhecível sob a maquiagem da carrancuda enfermeira Noakes, Hugo Weaving mostra, de uma vez por todas, que não há personagem impossível de ser interpretado para ele – cor, sexo e idade são apenas detalhes. Em mais um papel de vilão, Tom Hanks prova que não nasceu apenas para dar vida aos mocinhos do cinema (aliás, alguém se lembra de ter visto Hanks como o cara mau de algum outro filme?).

É impossível não assistir a O Pavoroso Calvário de Timothy Cavendish sem notar um defeito técnico. A maquiagem, que funciona tão bem em 98% das cenas, está terrivelmente ruim em Denholme, vivido por Hugh Grant. Ao contrário da enfermeira Noakes, para quem você olha e nunca imagina que é Weaving quem está ali, é visível a prótese no rosto do irmão de Cavendish – é só reparar como ele parece estático, sem o o menor movimento de franzir de testa ou algo do tipo.                                    

Uma rogativa de Sonmi~451

Lá embaixo surgiu um matadouro industrial, operado por vultos que manuseavam tesouras, serrotes, ferramentas cujo nome desconheço… todos cobertos de sangue, da cabeça aos pés, como uma imagem sádica do inferno. Os demônios cortavam fora colarinhos, arrancavam roupas, raspavam folículos, descascavam peles, amputavam mãos e pernas, cortavam fora a carne, catavam órgãos… O sangue escorria por drenos… O ruído era colossal.

Mas… por que esse – qual o objetivo dessa… carnificina?

A indústria genômica exige grandes quantidades de biomassa liquefeita para os tanques-úteros, e mais ainda para fazer Sabão. Averia [sic] um método mais econômico de obter essa proteína do que reciclar fabricantes que tinham chegado ao final de sua vida útil? Além disso, as sobras de “proteína reciclada” são usadas para produzir a comida vendida no Papa Song’s, ingerida por consumidores em toda Nea So Copros. (pág. 368-369)

Neo Seul, Coreia do Sul, 2144. Sonmi~451 é uma fabricante – isto é, um clone humano geneticamente criado para ser atendente de uma lanchonete fast-food em regime de dedicação integral. Presa pelas autoridades, ela conta a sua história a um homem identificado como Arquivista, cuja função é documentar os fatos para a posteridade. Sem medo de expor a verdade, Sonmi narra a rotina de trabalho escravo no Papa Song; o dia em que uma de suas colegas, a inquieta Yoona~939, quebra as regras e é morta em público; e, principalmente, quando ela é resgatada do prédio da lanchonete por Hae-Joo Im, membro da União, grupo rebelde que pretende transformá-la em porta-voz de uma rebelião contra o sistema.

Ao optar por uma narrativa em forma de pergunta e resposta – a transcrição da conversa de Sonmi com o Arquivista, no caso -, o autor torna esse segmento extremamente dinâmico e também não perde em ser didático, já que não se preocupa em explicar, nos mínimos detalhes, como funciona o mundo do ano de 2144. Nada de digressões explicando como quem está no poder chegou lá. Entender a organização dessa sociedade futurista e o conflito entre a Unanimidade, organização representante do sistema, e a União, movimento rebelde que luta contra o trabalho escravo, fica a cargo do leitor, por mais que Mitchell deixe claro que os dois estão em lados opostos.

Mesmo sendo protagonista de um futuro muito distante, Sonmi desperta empatia em qualquer um. Acompanhar o seu amadurecimento, desde a sua saída da lanchonete Papa Song, passando pelo período de descoberta do mundo na universidade e chegando até o momento do conflito com a Unanimidade, é realmente encantador, como se tivéssemos seguindo a jornada de uma criança que descobre um mundo até então oculto aos seus olhos. Nessa mesma linha, é impossível não se ver representado pela figura do Arquivista, que, por mais que represente a Unanimidade, conduz o diálogo com tom ameno, mostrando perplexidade diante de fatos que ele mesmo desconhecia – está mais para um jornalista ou historiador do que um interrogador. Assim como ele, vamos nos surpreendendo com o desenrolar da narrativa de Sonmi.

Uma coisa que me chamou a atenção aqui foi o trabalho com a linguagem. Obviamente, seria bastante estranho se no ano de 2144 as pessoas falassem como falamos agora. Pensando nisso, Mitchell tratou de trazer novidades ao vocabulário, criando palavras que não conhecemos e mudando outras. O tradutor deve ter sofrido um pouco ao adaptar essas mudanças ao português, mas, aparentemente, o trabalho foi bem feito. Assim, não se surpreenda se, no texto, em vez de filme, você se deparar com a palavra disney, ou avia no lugar de havia ou ouve. Tudo isso faz parte do mundo de Uma rogativa de Sonmi~451.

Sonmi~451 (Doona Bae), Hae-Joo Chang (Jim Sturguess), Arquivista (James D’Arcy) e Yoona~939 (Zhou Xun)

A princípio, o papel de Sonmi em A Viagem estava prometido a Natalie Portman, mas, como ela estava passando por uma gravidez no período de filmagens, os diretores tiveram que buscar outra opção. Apesar da competência de Portman, sua ausência acabou tendo uma consequência positiva: se o papel não estivesse vago, não teríamos Doona Bae no elenco. A atuação da sul-coreana é tão convincente que Mitchell chegou a dizer que a Sonmi do filme ficou melhor do que a do livro. A atriz, inclusive, teve de aprender inglês às pressas. Dirigida pelas Wachowski, Bae é bem-sucedida na interpretação de uma personagem tão complexa. Suas expressões, como o deslumbramento de quando vê Neo Seul pela primeira vez, nada têm de artificial.

Foram feitas algumas alterações na transposição dessa história para o cinema. A primeira é a mudança de nome de Hae-Joo Im para Hae-Joo Chang (provável referência a outro personagem, Chang, que não aparece aqui), sendo este interpretado por Jim Sturguess, vítima de mais um trabalho de maquiagem pouco convincente. Mas a principal mudança está no desfecho da trama: em Atlas de Nuvens, é feita a grande revelação de que toda a ação de Hae-Joo, bem como a existência da União, não passou de uma farsa montada pela própria Unanimidade, que planejava usar o caso para justificar a repressão aos fabricantes e desacreditar o movimento abolicionista. Em A Viagem, esse final – que desperta frustração e surpresa ao mesmo tempo – não é adotado, deixando para o espectador a versão de que tudo foi, de fato, um legítimo movimento rebelde. Outra diferença notável está nos sentimentos de Sonmi em relação a Hae-Joo. No romance, quando questionada pelo Arquivista se amava o agente da União, ela hesita e acaba não respondendo. Já no filme, a resposta positiva vem de imediato.

A direção de arte, o figurino e os efeitos visuais merecem aplausos aqui, pois atuam em consonância na construção desse universo que, por si só, seria difícil de ser imaginado e retratado visualmente. As cenas de ação, então, servem para conferir dinamismo ao filme como um todo. Uma curiosidade é a ponta de David Mitchell como funcionário da Unanimidade (clique aqui para ver o exato momento da aparição, com o autor à direita e em segundo plano).

Com potencial para agradar até o mais exigente fã de ficção-científica, a história de Sonmi~451 não fica muito atrás do que melhor já se produziu no gênero. É muito difícil não tecer comparações com Blade RunnerMatrix, até porque, guardadas as devidas proporções, são universos muito parecidos.

O Vau do Sloosha e o Que Deu Adespois

Aí o Velho Georgie enfiou a colher torta nos buraco dos olho do home de Hawi, né, e rancou fora a alma dele, respingano pasta de cebro, e mascou ela todim, com aqueles dentão de cavalo dele. O home de Hawi foi se desmulungano e aí virou mais uma daquelas pedra preta e torta que tinha espalhada por aquele cercado.

O Velho Georgie goliu a alma do home de Hawil, enxugou a boca, arrotou pelo cu e soltou uns soluço. Alma de barbo, petisco danado, o diabo rimava, dançano pos lado do Truman, noz de molho em vinho azedado. O Trumam num conseguia mexer nem um musco, de ver uma cena tão horrive. (pág. 283)

Quando você pensa que a criatividade de Mitchell já tinha ido longe demais com o trecho de Sonmi, ele traz um enredo mais diferente ainda. O Vau do Sloosha e o Que Deu Adespois é ambientado em um futuro distante, apresentado como 106 invernos após A Queda (evento apocalíptico não explicado), e traz como protagonista o jovem Zachry, membro do Vale, uma comunidade primitiva do Pacífico que tem Sonmi como sua grande deusa. Carregando a culpa pela morte do pai e do irmão, Zachry é constantemente perturbado por alucinações com o demônio Velho Georgie, que o incita a tomar atitudes ruins.

Quando a tribo de Zachry recebe a visita por tempo indeterminado da forasteira Meronym, tudo muda na ilha. Sob influência de Georgie, o rapaz desconfia das reais intenções da moça, que está no local para encontrar uma remota estação de comunicação e enviar uma mensagem para as colônias da Terra em outros planetas. O problema é que a suposta estação fica em um lugar considerado como amaldiçoado pelo povo do Vale. Mas, quando Meronym cura a irmã de Zachry da picada de um peixe venenoso, ele se vê no dever de guiá-la até lá, ao mesmo tempo em que Georgie tenta convencê-lo a matá-la.

Mais uma vez, há um especial cuidado com a linguagem. Tanto os moradores do Vale quanto os prescientes (grupo mais “avançado” tecnologicamente, representado aqui por Meronym) aparentam possuir uma gramática própria, misturando palavras que conhecemos com outras novas e suprimindo letras de muitas outras. Tudo o que sabemos sobre o evento apocalíptico que levou a essa nova civilização é que ele é conhecido por A Queda e foi resultado do descontrole da raça humana sobre sua própria tecnologia – talvez uma catástrofe nuclear, algo que Luisa Rey já tinha evitado no passado.

A ideia do surgimento de diferentes grupos é, no mínimo, instigante, até porque dificilmente os humanos se reestruturariam de maneira uniforme após uma tragédia em escala global. Os prescientes dominam a ciência, a tecnologia e são vistos como superiores. Já os moradores do Vale vivem de maneira rudimentar, à base da caça, do pastoreio, da agricultura e mantêm uma crença cega na deusa Sonmi. Curiosamente, Mitchell teve a brilhante ideia de fazer uma inversão racial. Quantas vezes, seja no cinema ou na literatura, já vimos negros sendo retratados como seres primitivos, ao passo que os brancos, europeus em sua maioria, eram os civilizados portadores de armas, riqueza e inteligência? Nessa história, a situação é oposta, já que os prescientes têm pele mais escura e o povo da ilha, pele mais clara, como o próprio livro descreve.

Cercado por uma aura de mistério e profanidade, o Velho Georgie é o vilão perfeito para essa história, que, infelizmente, acaba se tornando um pouco cansativa. Isso se deve à opção do autor em contá-la de uma só vez, ao contrário das outras, que eram separadas em duas partes, e pela linguagem ser diferente do usual, exigindo paciência de quem lê.

Da esquerda para a direita: Zachry (Tom Hanks), Meronym (Halle Berry), Velho Georgie (Hugo Weaving) e Líder Kona (Hugh Grant)

Em A Viagem, acompanhamos a versão adulta de Zachry, diferentemente do livro que o trazia ainda jovem. As vítimas dos Kona, tribo de guerreiros canibais, também mudam: no lugar do pai e do irmão, temos o cunhado e o sobrinho do protagonista. De resto, o filme se mantém bastante fiel, tendo até mesmo o cuidado em conferir um linguajar próprio aos personagens, com misturas e abreviações de palavras. Equilibrando insegurança e angústia com coragem, Tom Hanks mostra, mais uma vez, porque é um dos atores mais respeitados do cinema mundial. Na pele do que parece ser a sua personagem mais forte do filme – uma mulher autônoma, decidida (assim como Luisa Rey) e com tecnologia de ponta em mãos -, Halle Berry convence, enquanto o camaleônico Hugo Weaving dá mais um show. Por fim, Hugh Grant surge irreconhecível como um canibal que se comunica apenas por grunhidos.

Mas o trecho também tem seus deslizes. A cena em que Susan Sarandon, a atriz mais mal-aproveitada do elenco, é tomada por um presságio é risível, dando a impressão de que Sarandon não teve tempo de se preparar e improvisou na hora. O efeito especial da chegada da nave dos prescientes também não convence ninguém: sua digitalização é visível. Comparado aos demais, o clímax da jornada de Zachry não possui impacto emocional tão grande.

Seis histórias ou uma história só?

Nas entrevistas, tanto David Mitchell quanto as irmãs Wachowski e Tom Tykwer afirmaram que as seis histórias devem ser vista não individualmente, mas em sua totalidade, como parte de uma grande história. A partir disso, é possível perceber como os personagens estão conectados entre si.

Sonmi e Yoona assistem ao filme baseado na história de Timothy Cavendish

  • Cada personagem registra a sua vida em alguma coisa que, depois, é encontrada pelo protagonista do próximo segmento. O diário de Adam Ewing é encontrado por Robert Frobisher na mansão de Vyvyan Ayrs. Quarenta anos depois, Luisa Rey lê as cartas de Frobisher e ouve a música que ele compôs. Timothy Cavendish lê um rascunho do livro que conta a história da investigação de Luisa. Na Coreia do Sul de 2144, Sonmi~451 assiste a um filme baseado na aventura de Cavendish no asilo. 106 invernos depois da Queda, Sonmi é idolatrada pelo povo do Vale e suas palavras sustentam a fé de Zachry.
  • Enquanto algumas almas vão evoluindo e se tornando boas com o passar do tempo (como a representada por Tom Hanks, que começa como um médico traiçoeiro para, no futuro, se tornar um homem em busca de redenção), outras continuam más até o fim, como os sempre vilões Hugo Weaving e Hugh Grant.

A marca do cometa em Robert Frobisher

  • Se você prestar bastante atenção ao filme, vai perceber que Ewing, Frobisher, Luisa, Cavendish, Sonmi e Zachry possuem um cometa como marca de nascença. Há uma teoria na Internet que diz que os quatro são parte de uma mesma alma que reencarna a cada geração. Essa ideia, no entanto, não faz sentido se considerarmos a idade de Luisa e Cavendish. A história do editor se passa em 2012 e, nela, vemos que ele já tem por volta dos 60 anos. Como poderia ser a mesma alma se Luisa estava viva na década de 70? Nessa época, Cavendish já estaria vivo. Como pode uma única alma estar presente em duas pessoas simultaneamente? Assim, é mais provável que a marca do cometa indique apenas uma conexão entre os protagonistas – um meio de dizer que todos eles estavam destinados a promover alguma mudança em seu tempo.
  • “Os fracos são a carne que os fortes devoram”. Essa frase é dita por Henry Goose no segmento Diário de Viagem ao Pacífico de Adam Ewing. Em O Vau do Sloosha e o Que Deu Adespois, o Velho Georgie repete essa frase para Zachry. Segundo os próprios diretores, isso representa nada menos que os erros da vida passada do personagem ecoando em sua mente, perseguindo-o incessantemente.
  • Na primeira história, Jim Sturguess é Adam Ewing, um advogado que se torna abolicionista. No futuro, ele dá vida a outro abolicionista: o rebelde Hae-Joo Chang.
  • Foi usada a mesma locação para a mansão de Vyvyan Ayrs e o asilo em que Timothy Cavendish é internado. Partindo do ponto que ambos foram vividos por Jim Broadbent e são uma só alma, há um motivo óbvio para isso: ele acabou preso no mesmo lugar em que “prendeu” Robert Frobisher.

Momento em que Sixsmith encontra o seu amado morto

  • Rima narrativa: os amantes Robert Frobisher e Rufus Sixsmith morrem do mesmo jeito – um tiro na boca.
  • 451 é o número do apartamento de Luisa e também parte do nome de Sonmi (além de uma referência ao romance Fahrenheit 451, de Ray Bradbury).
  • Em O Pavoroso Calvário de Timothy Cavendish, há uma referência ao mundo de Sonmi quando a enfermeira Noakes diz que fará Cavendish comer “sopa de sabão” se não se comportar.
  • Em depoimento ao Arquivista, Sonmi diz que sonha com o dia em que encontrará Hae-Joo em uma outra vida. Não por acaso, a próxima cena mostra Adam Ewing retornando para casa e revendo sua esposa Tilda, também interpretada por Doona Bae.
  • Em Meias Vidas: O Primeiro Romance Policial da Série Luisa Rey, a protagonista vai até uma loja de discos procurar o sexteto Cloud Atlas, composto por Robert Frobisher. Chegando lá, o vendedor diz que não consegue parar de escutar essa música. Não à toa. O personagem é vivido por Ben Whishaw, o mesmo intérprete de Frobisher – logo, ele é o autor da obra que não consegue ficar sem ouvir!

Material extra (que me serviu de fonte, inclusive): making-off do filme, matéria do The Guardian, resenha da New Yorker, curiosidades da produçãovídeo que mostra quem é quem no filme.



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!