12
dez
2016
O cinema e as Adaptações!
Categorias: Especiais • Postado por: Andressa Gomes

Ainda que muitos estudiosos considerem o momento atual da cultura pop como sendo a “era da adaptação”, o processo de reutilização de conteúdo não é um conceito moderno. A teórica Linda Hutcheon atenta para o fato de que o hábito de transferir histórias de um meio para outro ou de um gênero para outro não é raro e nem novo na História da Cultura Ocidental. Trata-se de algo tão comum que talvez esteja relacionado ao processo de criação natural do ser humano. Várias das peças de Shakespeare, por exemplo, foram adaptadas pelo próprio, a partir conteúdo em prosa que já havia escrito, visando a atingir um público maior. Adaptação não necessariamente implica uma perda ou ausência de qualidade.

Atualmente, o modus operandi predominante em Hollywood vem sendo, sem dúvida, os roteiros adaptados a partir de romances, biografias, histórias em quadrinhos, peças de teatro, entre outras mídias. Em premiações como o Oscar, geralmente, grande parte dos filmes premiados e indicados possui roteiros que são fruto de adaptações e mesmo a categoria “Melhor Roteiro Adaptado” possui mais candidatos para concorrer do que “Melhor Roteiro Original”. Só neste ano, 5 dos 8 filmes indicados a melhor longa metragem eram adaptações de livros (A Grande Aposta, Perdido em Marte, O Quarto de Jack, Carol, Brooklyn)

Em seus primeiros anos, Hollywood também realizava adaptações com bastante frequência e isso sempre despertou sentimentos contraditórios tanto nos espectadores quanto nos leitores. Para algumas pessoas, a obra original literária enquanto arte sempre será superior a qualquer forma de adaptação, e essa hierarquia é imutável. Escritores como Virginia Woolf se referiam ao cinema, durante a década de 1920, como um “parasita” da literatura e do teatro, e não enxergavam com bons olhos as simplificações do conteúdo da obra, que inevitavelmente ocorriam durante as transposições para o cinema. Por outro lado, reconheciam que seus signos, sua linguagem e símbolos permitiam a expressão de emoções que as palavras, até então, falharam em explicar.

Cena do filme As aventuras de Robin Hood, lançado pela Warner Bros em 1938. Antes disso, o clássico da literatura já havia sido adaptado para o cinema 6 vezes só durante a era muda e viria a ser adaptado mais 11 vezes até o início dos anos 1960.

Muitas vezes a complexidade do processo de adaptação é ignorada ou subestimada. Quem dentro da equipe de um filme seria o maior responsável pela qualidade da adaptação? O editor? O roteirista? O diretor? Os atores? A quem culpar caso o produto não agrade o espectador? Ou a quem deve ser atribuído o sucesso caso o projeto seja um bem sucedido? Será que a influência dos autores das obras literárias faz alguma diferença na qualidade da adaptação? Assim como o processo de criação, o processo de adaptação envolve: concretizar ou atualizar ideias, simplificar ou explorar conceitos, criar analogias, homenagear, criticar, parodiar conteúdos.

J.K Rowling teve controle criativo limitado na produção de todos os filmes baseados em sua obra, o que é incomum para blockbusters baseados em séries de sucesso. Rick Riordan vendeu os direitos para o filme baseado em seu livro O Ladrão de Raios (da série Percy Jackson) antes mesmo de ele ser lançado pela editora, e não teve qualquer tipo de controle artístico na escrita do roteiro.

Quantas vezes não nos decepcionamos ao não gostar de algum produto que foi adaptado de outra mídia para outra (uma história em quadrinhos para o cinema, por exemplo)? Por mais frustrante que seja, atribuir a culpa da má qualidade de uma obra ao processo pelo qual foi desenvolvida é injusto e simplista demais. Adaptar envolve tradução e extração, ou seja, da mesma forma que não existe tradução literal entre idiomas, não existe adaptação literal entre mídias/gêneros.

Hutcheon também aponta para o fato de que adaptação implica intertextualidade e um prolongamento do entretenimento para o espectador que possui conhecimento em relação à obra original. Não importa quantas vezes Sherlock Holmes seja representado em séries, filmes, quadrinhos ou peças de teatro. Os fãs do personagem sempre terão interesse em seu universo. Ainda que nem sempre agradem, as inúmeras adaptações feitas da obra de Arthur Conan Doyle para gêneros e meios tão distintos entre si  ilustram as inúmeras e surpreendentes possibilidades que podem ser exploradas a partir de um mesmo universo ficcional, por mais simples que este possa ser, assim como os diversos ângulos pelos quais é possível enxergar os mesmos personagens.

Fan-art de Edward Pun, abordando as versões televisivas atuais do detetive, interpretadas pelos atores Benedict Cumberbatch e Jonny Lee Miller, das séries Sherlock (BBC) e Elementary (CBS). Segundo o Guinness Book, Sherlock Holmes é o personagem literário que mais foi levado às telas do cinema e da televisão com um total aproximado de 254 vezes – e interpretado por 75 atores diferentes.

Um outro fator que determina a aprovação ou não do publico são elementos externos, de produção, na qual a adaptação se deu. Mesmo em um mundo globalizado, mudanças no contexto histórico e cultural influenciam a forma como uma adaptação é recebida. Usando novamente Sherlock Holmes como exemplo, qual não seria a reação dos fãs se alguma produtora realizasse um filme com uma versão “americana” do personagem? Certamente nada boa, não importando o quão coerente e fiel fosse o enredo.

Em plena era digital, as editoras de livros, estúdios de cinema, companhias de teatro e produtoras de vídeo games já pensam na viabilidade da adaptação de seus produtos desde o inicio de sua criação. Torna-se cada vez mais difícil estabelecer hierarquia de importância em relação à obra “original”, ou qual seria a mídia de maior ou menor qualidade, porque tudo é desenvolvido de forma dinâmica e simultânea. Prevalece a preocupação das empresas de entretenimento em permitir que seus consumidores possam acessar o mesmo conteúdo e extensões dele por meio de diferentes mídias.

A Marvel é um exemplo de empresa que sabe como fazer uso das diferentes mídias/linguagens para objetivos diferentes, de modo a torna-las complementares entre si, fortalecendo seu Brand, sua mensagem, e ao mesmo tempo, cultivando um público fiel.

Em conclusão, transpor uma historia  para outro meio ou gênero sempre implica mudança, e, como em qualquer mudança, haverá perdas e ganhos. Talvez o sucesso ou não de uma adaptação esteja no equilíbrio entre suprir o desejo da plateia por fidelidade à obra matriz e o desejo criativo de reconfigurar a obra a partir da lógica de uma outra linguagem. Cada tipo de adaptação demanda técnicas diferentes e devem ser analisadas de forma individual e não subestimadas ou generalizadas como sendo negativas.

A seguir, falarei de duas formas constantes de adaptações no entretenimento: a adaptação dos palcos para a tela e das telas para o palco.

Dos palcos para as salas de cinema

Apesar de não parecer, as adaptações de peças de teatro para o cinema chegam a ser tão difíceis quanto as obras literárias. Muitos cineastas acreditam que simplesmente filmar uma boa peça de teatro resulta em um filme igualmente bom, o que é um erro. O tempo médio de uma peça de teatro é bem similar ao de um longa-metragem, mas existem outras questões complexas que devem ser levadas em consideração durante uma adaptação e que são apontadas pelo autor Orestes Kouzofs em seu artigo From Theatre to Film: Harder Than It Sounds.

Para começar, em um palco italiano ou elizabetano tradicional, ou mesmo no teatro de arena, o ponto de vista do espectador é estático. A ação dos atores possui um espaço restrito e é difícil mostrar detalhes de expressões, objetos ou gestos. Ainda que a iluminação e a ação dos atores possam conduzir a atenção para determinado elemento, não existe uma forma efetiva de ter a atenção do espectador exclusivamente para onde a direção deseja. Na linguagem do cinema, por exemplo, a câmera narra a história por meio de planos, ângulos, movimentos, iluminação, sons e interpretações. Frequentemente, adaptações de teatro ignoram essas características da linguagem cinematográfica e, por apego ao texto teatral, acabam parecendo teatro filmado mais do que uma obra propriamente audiovisual.

Exemplo de palco italiano, onde os espectadores ficam apenas de frente para o palco.

A linguagem do teatro é mais lúdica, e faz bastante uso de símbolos no que concerne a cenários, figurinos e objetos de cena. Uma porta, ou uma fachada, por exemplo,  podem representar diversas locações em uma mesma peça e a plateia embarca nesse pacto de, enquanto assiste, imaginar e completar o que lhe é dado. O cinema, por sua linguagem realista, demanda uma composição mais concreta. Cada cenário, figurino e objeto de cena enquadrados pela câmera não podem ser representados de forma simbólica. Enquanto no teatro uma cadeira não necessariamente representa uma cadeira, a linguagem do cinema clássico não oferece esse tipo de abertura.

Outro aspecto que diferencia os dois meios é o fato de o cinema dar prioridade a imagens e ações. Enquanto no teatro clássico diálogos e monólogos são essenciais, no cinema, uma respiração ou gesto podem transmitir a mesma ideia de forma mais rápida e intensa para o espectador, do que por meio da linguagem falada. Um bom roteirista, ao adaptar uma peça, não deve hesitar em reduzir ou até mesmo eliminar um monólogo ou diálogo longo sempre que for possível transmitir a mesma mensagem de forma adequada, usando olhares e gestos de personagens. Claro que existem casos em que a dificuldade de transformar pensamentos e palavras em imagens e ações pode ser maior, mas é justamente esse o desafio para a criatividade do diretor e roteirista e onde está a graça e atração dos filmes bem adaptados.

Emitir uma voz off- screen (Não confundir com voice over) provoca um efeito bem diferente de uma voz off- stage. No cinema, se não podemos ver um personagem que esta falando, não lhe damos tanta importância narrativa. Para não entediar o espectador, seria melhor mostrar ações ou enquadramentos e também passar informações visualmente enquanto a voz fala, de modo a revelar um pouco mais sobre o enunciador. No teatro, o som direciona onde o espectador deve focar sua atenção, no cinema, é aquilo que a câmera mostra que determina isso. No cinema, aquilo que não é mostrado ou insinuado com imagens não será valorizado pelo espectador.

De um modo geral, o teatro é uma forma mais livre de contar uma história. Por melhor que sejam o diretor e os aspectos técnicos,  a performance dos atores é o aspecto crucial no julgamento dos críticos e espectadores. Cada apresentação e cada performance são únicas e ainda que a direção tenha sua importância na construção de todos os aspectos da produção, a qualidade do “produto final” de cada noite está nas mãos dos atores e até mesmo da receptividade de cada plateia. No cinema, o diretor e o editor tem o poder de mudar completamente o tom e o significado de uma ação, diálogo ou cena, por melhor que seja a performance dos atores. A câmera é sempre quem narra.

Enquanto o teatro não tem espaço para a mentira, a câmera engana o espectador todo o tempo. Durante toda a duração da peça, o ator deve ser o personagem, seja agindo ou reagindo, enquanto estiver no palco, não deve abandoná-lo, já que não há como fugir da visão do público. No cinema, é durante a montagem que o filme é confeccionado e que se juntam diferentes planos e sequências de modo a dar a ilusão de continuidade ao espectador. Não importa que atores tenham filmado partes de um diálogo em dias diferentes, por exemplo. A edição permitirá que seja criada uma ilusão de proximidade no espectador.

Em média, uma produção teatral custa menos do que a produção de um filme. O produtor cinematográfico trabalha sobre pressão de todos que investiram naquele filme, além de precisar considerar que o público de cinema é maior e mais diverso – e tende a ser menos sofisticado que o publico do teatro. Em muitas adaptações, acaba ocorrendo censura (com relação a violência ou nudez, por exemplo) ou alterações na trama e nos personagens motivadas simplesmente por uma preocupação em se adaptar ao gosto das massas.

Levando em consideração tudo que foi apontado, cabe citar exemplos de dois filmes que foram adaptados de forma inteligente, a partir de famosas peças de teatro:  O fantasma da ópera e A noviça rebelde.

O primeiro é  baseado no musical homônimo de Andrew Lloyd Webber, que, por sua vez, é baseado na obra literária de Gaston Leroux, lançada em 1909. O filme foi lançado em 2006, dirigido por Joel Schumacher, com Gerrad Butler, Emmy Rossum, e Patrick Wilson nos papéis principais. A famosa cena inicial do espetáculo, na qual ocorre a famosa subida do lustre velho jogado no chão e a transição de todo o ambiente do teatro abandonado novamente para seus anos de auge e luxo, foi muito bem adaptada para a tela do cinema. Vemos um número maior de detalhes de cada parte do teatro, com uma dinamicidade que só o cinema poderia proporcionar.

Webber escreveu o roteiro do filme e não hesitou em alterar nenhum aspecto da história em benefício do filme. Alguns eventos que ocorrem na metade da peça são transferidos para o final, e outras cenas foram alteradas ou incluídas (como a luta de espadas entre Raul e o Fantasma). Com relação aos aspectos visuais, os tons fortes que são marca do figurino do musical no teatro são amenizados, já que não há necessidade de se preocupar com espectadores sentados na vigésima fileira. Se a mesma tonalidade fosse mantida, não teria o mesmo efeito na tela gigante de cinema.

Sequência de abertura do Filme O Fantasma da Ópera.

A Noviça Rebelde estreou no teatro em 1959, e foi adaptado para o cinema em 1965, dirigido por Robert Wise e com Julie Andrews e Christopher Plummer nos papéis principais. Enquanto no teatro, a famosa sequência da música dó ré mi é feita dentro da casa, pouco depois da chegada de Maria, o filme trouxe um ar épico, mostrando belas locações pelas quais os personagens passam durante seu passeio. Algumas sequências como o número musical da Baronesa Elsa e do “primo” Max foram excluídas, e outras, como a do jantar em que as crianças fazem travessuras com Maria, foram incluídas. Novamente, sempre em prol da qualidade e das possibilidades do filme, já que cenas  que envolvem personagens sentados à mesa são muito mais complexas de se fazer no teatro do que no cinema.

Maria e as crianças durante o clássico número dó ré mi que, no espetáculo musical, acontece na chegada de Maria na casa dos Von Trapp e foi transportado para outro momento no filme, sendo todo filmado em externas. Isso dá mais dinamicidade e beleza a uma das sequências mais conhecidas da história do cinema.

Das salas de cinema para os palcos

Da mesma forma que um filme adaptado não pode simplesmente consistir em uma peça de teatro filmada como adaptação, o oposto também vale. Adaptar um filme para o teatro não significa encenar o roteiro no palco. Transformar um filme em musical de teatro é um verdadeiro desafio criativo que tende a ser facilitado quando já existe uma premissa ou trama envolvente. Um musical não precisa ser totalmente original para ser considerado de qualidade. Porém, assim como  acontece com as adaptações do palco para as telas, é essencial entender ambas as linguagens e suas implicações para que o resultado seja satisfatório.

Desde que a Disney levou A bela e a fera para a Broadway em 1994, diversos filmes vêm sendo inspirações para musicais de grande sucesso no teatro. Entre aqueles de maior sucesso, podemos citar A pequena sereia, Legalmente Loira, Rocky, Hairspray e Os Produtores. No caso dos dois últimos, o sucesso foi tanto que voltaram ao cinema depois, já com base na versão musicada do teatro. Além disso, musicais como Wicked e Lestat se baseiam em filmes de sucesso (O Mágico de Oz. e Entrevista com o Vampiro) e se beneficiam da associação que o público faz com eles.

Cena do espetáculo Wicked na Broadway.

No caso de filmes que já são originalmente musicais, as adaptações feitas para a Broadway acabam incluindo canções e até personagens e plots que não estão no original, como é o caso de A bela e a fera. Alan Mesken (responsável por diversas trilhas de filmes da Disney e também por adaptações para o teatro) incluiu canções como A change in me na versão da Broadway, que possuem caráter reflexivo e expressam de forma mais clara os sentimentos da personagem Bela em relação a Fera e funcionam bem no palco. Já no cinema talvez não seria tão eficaz para mover o enredo de forma como as outras canções e soasse como tempo morto ou arrastada demais. O mesmo foi feito com a mais recente montagem de Aladdin, que incluiu uma canção mais intimista que não está no filme e nos mostra outra faceta do personagem, e sua relação com sua mãe, chamada Proud of Your Boy.


Os críticos mais conservadores temem que essa tendência leve a Broadway a se tornar uma espécie de subproduto de Hollywood. Voltando ao inicio do texto, quando falávamos de adaptações, esses críticos parecem esquecer que a maior parte dos grandes musicais das últimas décadas, como Les Misérables e Minha Bela Dama, vem de outras mídias também, como obras clássicas da literatura e da ópera ou dos próprios livros de história. Não é novidade o fato do musical sempre ter sido um gênero comercial que busca conquistar todos os tipos de público possíveis. O pensamento dos empresários e produtores da Broadway não é diferente daqueles de Hollywood: o público tem uma tendência maior a consumir um produto (peça, livro, filme) do qual já tenha familiaridade ou alguma referência. Financeiramente, adaptações são um investimento mais seguro ainda que não garantam o sucesso de um projeto.

Para finalizar, ainda que muito diferentes, teatro e cinema são meios extremamente populares de se contar histórias. Ainda que o teatro tenha natureza efêmera, verbal e metafórica, em oposição a natureza visual e eterna do cinema, ambos possuem suas particularidades, regras e restrições e o poder de produzir excelente conteúdo e grandes histórias que, quando bem adaptadas de um meio para o outro, potencializam sua força. 



Não lembro de uma época em que os filmes ou a TV não fossem parte da minha vida. Considero o Cinema mais do que entretenimento, uma das mais completas formas de arte e de registro da humanidade. Estudante de Cinema e Audiovisual. Dentre os diretores/roteiristas favoritos estão: François Ozon, Lars Von Trier, Michael Haneke, Satoshi Kon e Vincent Minneli. Sem vergonha de gostar de consumir/discutir cultura pop, viciada em "The Big Bang Theory", alguns reality shows (Master Chef, The Bachelor) e séries coreanas.