21
dez
2016
Pipoca Clássicos: “Dr. Fantástico”
Categorias: Críticas, Pipoca Clássicos • Postado por: João Vitor Moreno

Há uma citação ótima de Éric Rohmer que diz que “todo bom filme é também um documentário de sua época”. Sendo assim, nada mais apropriado do que um filme de 1964 falar sobre o medo nuclear e a guerra fria. Mas o que torna Dr. Fantástico tão fascinante não é apenas sua temática, mas também a forma como ela é abordada, já que o filme se diverte com os maiores medos e paranoias daquela época, trazendo um refinado humor negro e refletindo o desprezo e desilusão de boa parte da população para com seus representantes políticos – assunto que seria constantemente abordado pelo movimento cinematográfico que se iniciou alguns anos depois: a Nova Hollywood.

A trama do filme é simples, mas muito reveladora: um poderoso militar do exército americano está convencido de que a URSS está envenenando a água de seu país (“Você já viu um comunista bebendo água? Eles só bebem champanhe”, diz em certo momento) então decide autorizar um massivo ataque nuclear contra solo russo. Porém, os soviéticos haviam acabado de construir uma “máquina do juízo final” que será capaz de extinguir toda vida na Terra se o país sofrer um ataque nuclear. Então o presidente americano marca uma reunião de emergência com seus principais comandantes para tentar frear o ataque antes que alguma bomba seja detonada.

Estruturalmente é apenas um filme sobre um grupo de pessoas tentando evitar que algo que trará enormes consequências ocorra de fato. Porém, dentro disso já podemos perceber muito da temática da obra, como o medo do poderio bélico das grandes potências, o escárnio e a visão cínica sobre os governantes e os militares (vale lembrar que a Guerra do Vietnã estava começando), e a paranoia crescente sobre a “ameaça comunista”.

As ironias do roteiro são inúmeras, e a cada vez que assisto ao filme de novo percebo novas coisas. Primeiramente, o próprio nome do general que enlouquece e dá a ordem do ataque é muito divertido: Jack D. Ripper (que em inglês soa exatamente como “Jack, o Estripador”). Além disso, o roteiro é recheado de diálogos hilários e altamente irônicos, muitos dos quais viraram citações clássicas, como o “Senhores, vocês não podem brigar aqui, esta é uma sala de guerra”, ou então “Você vai ter que responder à Coca-Cola por isso”.

Conseguindo também alfinetar a política externa americana (reparem em como um dos assistentes do presidente americano diz em certo momento que muitos de seus oficiais – incluindo o secretário de estado, secretário de defesa, e o vice-presidente – não podem comparecer à reunião por estarem em outros países), o filme ainda se diverte ao brincar com a imagem poderosa dos políticos, como ao sugerir que o primeiro ministro soviético está em um bordel, ou ao trazer os dois principais líderes dos países em uma conserva por telefone onde o presidente americano faz questão de dizer que “adora ligar para dizer oi” para o russo.

Além disso, a figura do general Ripper é o retrato escrachado de toda paranoia americana sobre a “ameaça vermelha” (aliás, alguém avise a direita brasileira que “doutrinação” comunista já era piada em 1964!), e não deixa de ser curioso que ele dê a entender que seu medo e raiva dos soviéticos se devem à sua impotência sexual – e some isso ao fato de ele aparecer em praticamente todas as suas cenas com um charuto na boca e podemos perceber uma piadinha sutil e sofisticada, que pode até passar despercebida para alguns.

E é justamente nessas sutilezas que notamos como Kubrick é genial, e não à toa é tido por muitos como o maior cineasta de todos os tempos. Capaz de dirigir film noir, terror, drama erótico, distopia, épico, filme de guerra, todos com a mesma competência, aqui ele mostra ter o domínio também da comédia.

Além do excelente texto e das inspiradíssimas atuações (que conta com Peter Sellers fazendo três papeis distintos!), Kubrick demostra ter domínio também da comédia visual. Reparem, por exemplo, na cena que traz Peter Sellers recebendo a ordem do general Ripper de repassar para os aviões a ordem de ataque: além da expressão divertida de Sellers, podemos notar ao fundo vários discos de equipamentos eletrônicos rodando rapidamente, o que reflete a confusão mental do personagem de maneira elegante, e faz referência à imagem clássica de desenhos animados que traz personagens com olhos rodando ao estarem impressionados.

E como se não fosse o bastante, Kubrick ainda demonstra talento para encenar humor físico, como na cena que traz um soldado atirando em uma máquina de refrigerantes e tomando um jato de líquido na cara, ou então no momento que traz o personagem de George C. Scott tropeçando, caindo, e seguindo a cena como se nada tivesse acontecido (um momento que, aliás, não estava no roteiro e aconteceu porque o ator de fato tropeçou).

Ah, e o que dizer do Dr. Fantástico do título (ou, no original, Dr. Strangelove), que é um cientista alemão cujo um dos braços sofre com problemas motores e insiste em fazer uma saudação nazista?

Mas mesmo lidando muito bem com o humor, Kubrick não abre mão de seu preciosismo técnico e não perde a oportunidade de criar imagens memoráveis, como aquela que enfoca os oficiais americanos em uma mesa redonda rodeada por um círculo de luzes, ou então ao trazer o general Ripper falando enquanto fuma charuto, fazendo com que suas palavras se sincronizem com a fumaça que sai de sua boca. Além disso, também é possível notar a influência do gênero noir no diretor (vale lembrar que seus primeiro trabalhos foram dentro desse gênero), assim, além das constantes fumaças de charutos, os ambientes do filme também são sempre cheios de sombras, que reforçam o universo sombrio (mesmo que encarado com bom humor) dos personagens, e em uma interpretação mais livre, comenta até mesmo o “humor negro” do filme (em inglês, “dark humor” – “humor escuro”).

Mas é em seu desfecho que Dr. Fantástico atinge o ápice de sua ironia (e agora recomendo parar por aqui se ainda não viu o filme): no fim, os americanos não conseguem frear completamente o ataque e a URSS é bombardeada, o que inevitavelmente levará a destruição de todo o mundo (aliás, é um final extremamente pessimista mesmo para um diretor conhecido por sua visão fria), mas isso acaba não sendo um grande problema para os líderes americanos já que um personagem sugere de se esconderem em um abrigo nuclear até a superfície estar habitável de novo. No abrigo não cabe muita gente, mas é claro que os governantes e militares têm preferência, para poderem ensinar “princípios de liderança e tradição” para os sobreviventes, além disso (e é aqui que a ironia de Kubrick atinge seu ápice), quem ficar no abrigo terá a árdua tarefa de “repopularizar” a Terra, dessa forma, para cada homem terá que haver dez mulheres. Em outras palavras, os líderes do país não se importam que o mundo seja destruído, desde que eles possam passar o resto de suas vidas transando para reabitar a Terra. O que justifica de maneira muito sofisticada o subtítulo em inglês que diz: “Como Aprendi a Parar de me Preocupar e Amar a Bomba”. Dessa forma, Kubrick encerra a trama em uma nota irônica, pessimista, que comenta o poder de destruição do homem, a canalhice dos políticos e militares, e também o cinismo do gênero masculino no que diz respeito a sexo. É um final digno do que o filme é: uma obra prima.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael