04
dez
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Cão Come Cão”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Pedro Bonavita
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Cão Come Cão (Perro Come Perro)

Carlos Moreno, 2008
Roteiro: Carlos Moreno
Colômbia
Antorcha Films, Patofeo Films e 64 A Films

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O destino muitas vezes é cruel. Outras tantas ele te agracia com certas coisas que não tem como descrever. É sintomático, porém, que a parada do nosso projeto de Volta ao Mundo em 80 filmes dessa semana seja exatamente na nossa vizinha Colômbia. Bem nessa semana. Bem na semana da maior tragédia esportiva do Brasil, que ocorreu em solo colombiano.

É incrível poder conhecer a obra de um país, ao mesmo tempo que conhecemos sua humanidade, sua solidariedade e a beleza de seu povo, que tanto sofreu com a violência, que tanto perdeu entes queridos por causa do crime organizado. Uma população que foi duramente criticada recentemente quando decidiu por recusar o acordo de paz do governo com as FARC, mas que, no mesmo ano do plebiscito mostrou ter o coração puro. Uma população que, representada pelo Club Atlético Nacional, mostrou ao mundo um novo significado de espírito esportivo e de humanidade.

Nós brasileiros só temos que agradecer por tudo que eles fizeram pelas vítimas e por aqueles que mais sofreram com a tragédia. Deixo aqui, em nome do Pipoca Radioativa, do Brasil, de Santa Catarina, de Chapecó e da Chapecoense o nosso muito obrigado à Colômbia. Desejo, do fundo do meu coração, tudo de melhor para esse país. E que nós possamos aprender um pouquinho que seja dessa linda lição que os colombianos nos ensinaram nos últimos dias.

Cão Come Cão, um dos filmes colombianos mais importantes dos últimos anos, conta a história de Victor Penãranda (Marlon Moreno) e Benítez (Oscar Borda) dois capangas escalados para um serviço especial por seu chefão, El Orejón (Blas Jaramillo). Hospedados em um hotelzinho de Cali, eles têm de esperar um terceiro capanga, Sierra (Alvaro Rodriguez), para cumprir a missão: o assassinato de um desafeto do chefe.

Apesar de ser uma trama batida, o roteiro é bem construído no sentido de apresentar Victor e El Orejón antes de nos inserir no que de fato seria a trama. Além disso, o texto escrito pelo próprio diretor (Carlos Moreno) também consegue construir bem o fio que conduz a história. Mas reside no roteiro também um dos grandes defeitos do longa, já que ao não se contentar em contar apenas uma história, aposta em uma trama paralela que acaba sem desfecho no final do longa. Ou seja, abre mão de ter um roteiro batido, porém correto na sua estrutura e sem falhas, para incrementá-lo e não saber o que fazer com esse “plus”. É como aquele chef de cozinha que decide do nada inventar um molho no final da receita, apenas para ter sua assinatura. Desnecessário, na maioria das vezes.

Em tempos de Narcos, é impressionante notar como o trabalho cinematográfico mais importante daquele país fala também sobre o narcotráfico. Não em Medelín, mas em Cali. A Colômbia é um país que, como todos sabem, sofreu e ainda sofre muito com a violência e por isso é tão importante o prêmio Nobel da Paz recebido esse ano pelo atual presidente Juan Manuel Santos pelos esforços do acordo de paz com os guerrilheiros das FARC.

Cão Come Cão frequentou festivais internacionais e colecionou prêmios, como o Kikito de Melhor Diretor no Festival de Gramado, mas é um longa que sofre muito em sua parte técnica. Compensa, porém, com sua estética “tarantinesca”, que traz um filme recheado de sangue e humor negro, que mesmo com a superficialidade de seu roteiro acaba por envolver o espectador. Certamente é daqueles longas esquecíveis, mas não nega que diverte durante sua exibição.

Na próxima semana nossa viagem volta à Ásia, desembarcando na Coréia do Sul com o aclamado Oldboy.

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#ForçaChape



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.