18
dez
2016
Volta ao Mundo Em 80 Filmes: “Em Nome de Cristo”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Mariana Tocci

Em Nome de Cristo (Au Nom Du Christ)

Roger Gnoan M’Bala, 1993
Roteiro: Roger Gnoan M’Bala, J.M. Adiaffi, Bertin Akaffou
Costa do Marfim
Amka Films/ Abyssa Films

3

Neste domingo que antecede o Natal, a Volta ao Mundo faz a sua parada na Costa do Marfim com um filme que aborda exatamente o homem que, talvez, tenha o aniversário mais comemorado do mundo: Jesus. Em Nome de Cristo (Au Nom du Christ) segue um porqueiro (Pierre Gondo) que tem uma visão e nesta descobre-se ser um profeta, Magloire I, primo de Cristo, que foi enviado à Terra para salvar o seu povo.

A princípio, enquanto o longa se desenvolve na tela, a história parece meio sem pé nem cabeça. Um homem que, de repente, recebe um chamado e acredita ser primo de Jesus e seu representante na terra? E a população o segue (pelo menos, uma boa parte dela) sem questionar? Depois de uma pesquisa no Google, o público pode descobrir que foi – mais ou menos – isso que aconteceu nos anos 90 na Costa do Marfim e em outros países africanos como Gana e Nigéria. A situação econômica desses países era muito difícil e então “profetas” se multiplicaram e as propostas deles se tornaram uma fuga para as mazelas do dia a dia da sociedade.

A ideia de Em Nome de Cristo surgiu depois que estes novos grupos se uniram e decidiram ocupar as salas de espetáculos para construir igrejas no lugar. O cineastas da Costa do Marfim fez, em resposta, o longa de uma hora e vinte minutos, aproximadamente, sobre uma aldeia em um local não identificado da África Ocidental que passa por esta mesma situação do aparecimento de um profeta.

O filme faz uma reflexão em forma de comédia sobre este fenômeno que se deu em parte do continente africano. M’Bala acerta no tom de ironia ao mostrar as coisas consideradas “erradas” que são feitas pelo personagem principal em nome de Cristo. No quesito das qualidades técnicas não há nada inovador, talvez pela falta de incentivo, como já foi dito nas críticas de A Noite da Verdade e Oxalá Cresçam Pitangas – Histórias de Luanda, ambos filmes africanos da Volta ao Mundo.

Por talvez não ter conseguido fazer com que o espectador se relacione muito com a história, em alguns momentos o longa se arrasta. Parece que o filme foi pensado para quem tem conhecimento do que se passava na África Ocidental nos anos 90, pois, em nenhum momento, se explica a sátira que está sendo feita. Quem vivenciou aquela situação com certeza consegue se identificar com um dos irmãos de Em Nome de Cristo: um a favor do profeta e outro que se posiciona contra e acredita que tudo aquilo é uma loucura. Portanto, seria interessante ao menos contextualizar os espectadores estrangeiros.

O FESPACO (Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou) é o maior festival de cinema da África e, neste evento, Em Nome de Cristo ganhou o Grande Prêmio de Melhor Filme. O fato de ele ter sido realizado em um país em que, aproximadamente, 32% da população é cristã e por volta de 38% acreditam em crenças tradicionais mostra que essa sátira representa a maior parte da população do país. E ele foi lançado em 1993, ou seja, no “olho do furacão”.

O final do filme é emblemático. Se ele mostra o que o cineasta desejava do fim dessa história, se ele era uma premonição do que ia acontecer, isso não se sabe. Porém, o importante é que ele expõe que – independentemente de qualquer “poder” – no final, somos todos seres humanos.

Na próxima semana, vamos para Cuba com Morango e Chocolate, de Tomás Gutiérrez Alea! Vem com a gente!



Apaixonada por filmes da Disney, mas assisto de tudo um pouco: musicais, filmes antigos, séries (só não me deixe sozinha assistindo um filme de terror, por favor). Sou estudante de Jornalismo e ainda acredito que a Summer, de (500) Dias Com Ela, não era uma vadia.