11
dez
2016
Volta ao Mundo em 80 Filmes: “Oldboy”
Categorias: Críticas, Volta ao Mundo em 80 Filmes • Postado por: Marcelo Silva

Oldboy (Oldeuboi)

Park Chan-wook, 2003
Roteiro: Park Chan-wook, Lim Chun-hyeong  e Hwang Jo-yun
Coreia do Sul
Egg Films e Show East

5

5

Ria e o mundo vai rir com você. Chore e você vai chorar sozinho.

Logo na primeira cena do sul-coreano Oldboy, somos jogados no meio da ação: no terraço de um prédio, um homem segura outro pela gravata, bastando um simples deslize para ocorrer a queda. O espectador fica, a princípio, sem entender o que se passa na tela, o que muda quando o diretor e roteirista Park Chan-wook retrocede no tempo para mostrar os eventos anteriores e depois dá continuidade à trama a partir da cena de abertura – sem deixar de lado os flashbacks. Em pouco mais de quarenta minutos de projeção, o público já se convence de que se trata de um filme ousado, surpreendente e capaz de provocar as mais diversas emoções (da compaixão à repulsa).

Na história – adaptada do mangá japonês de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi -, Oh Daesu (Choi Min-sik) é sequestrado e mantido preso em um quarto, sendo libertado só depois de quinze anos. Na busca de respostas e vingança contra o seu sequestrador, Daesu conta com a ajuda da jovem Mi-do (Kang Hye Jung), por quem se apaixona. O problema é que o inimigo parece estar sempre um passo à frente e a jornada, aos poucos, vai revelando segredos sombrios do passado.

O enredo de Oldboy é um daqueles que não tem como não se envolver. Pena, ódio, surpresa, agonia e tensão são apenas alguns dos sentimentos que atingem em cheio o espectador durante as duas horas de filme – uma verdadeira montanha-russa de emoções, para ser sincero. E o mais encantador é a maneira como Park Chan-wook tem o total controle da câmera. Em uma verdadeira aula de direção, o sul-coreano abusa de cenas que beiram a fantasia (como as habilidades de luta de Daesu), demonstra saber como escolher e aproveitar o elenco (não há uma só atuação que mereça ser alvo de críticas) e constrói sequências memoráveis, com destaque para três delas: a luta do protagonista contra uma dúzia de homens no prédio em que ficou preso por quinze anos (que, inclusive, foi feita sem cortes, em um só take), a volta dele ao passado na escola e, obviamente, a sequência final. Claro que nada disso seria possível sem excelentes trabalhos de edição e fotografia, assinados, respectivamente, por Kim Sang-beom  e Chung Chung-hoon .

A ousadia do diretor também tem reflexos na trilha sonora. Para acompanhar essa história repleta de violência, vingança, dor e paixões perdidas, a escolha – arriscada, mas certeira – foi por Antonio Vivaldi, compositor italiano nascido no século 17, aqui representado pela obra Inverno, que, por sua vez, faz parte do concerto As Quatro Estações. Se o músico estivesse vivo, certamente manifestaria alegria pela forma como seu trabalho é usado no longa coreano: a trilha casa com as cenas de tal maneira que parece até que foi composta especificamente para o cinema. Falando nisso, seria injusto não citar também Jo Yeong-wook, que, responsável pela música original de Oldboy, ajuda a estabelecer o tom do filme em seus mais variados momentos, da cena do terraço ao sexo entre Daesu e Mi-do.

Não à toa, a produção é amplamente reconhecida pela crítica e pelo público. Em Cannes, levou o Grande Prêmio do Júri, com direito a elogios do presidente da premiação, ninguém menos que Quentin Tarantino (algo me diz que ele adoraria ter dirigido esse longa). Em 2008, uma votação entre a audiência da rede de TV americana CNN colocou Oldboy como um dos dez melhores filmes asiáticos da história. No portal IMDB, ele surge como o 66º mais bem avaliado, e o melhor entre os sul-coreanos. De olho no sucesso, Hollywood emplacou um remake, com Josh Brolin no papel principal e Spike Lee na direção, que nem chegou perto de ter a mesma repercussão do original.

E, como se não bastasse, o longa é o primeiro da nossa Volta ao Mundo em 80 Filmes a receber a merecida nota máxima! Tocante, dramaticamente complexo e um reflexo fiel do que há de melhor e pior no ser humano, Oldboy é a mistura perfeita entre entretenimento e arte, a prova de que vale a pena acreditar no cinema.

A nossa viagem não para. Na próxima semana, é hora de carimbar o passaporte de novo, dessa vez na Costa do Marfim, com o filme Em Nome de Cristo. Não perca!



Quem sou eu? Uma mistura de Walter Mitty com Forrest Gump. Um cara que tem vontade de fazer tudo o que Mark Renton fez em Trainspotting. Um cinéfilo que tem a certeza de que a vida não seria a mesma se não existisse o cinema. Diretor preferido? Assim fica difícil: amo de Zé do Caixão a Stanley Kubrick!