28
jan
2017
Como a intolerância do governo Trump pode influenciar o Oscar!
Categorias: Especiais, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

Como disse em minha crítica sobre O Apartamento, o cinema do iraniano Asghar Farhadi é um dos mais humanos e universais da atualidade. Mesmo tratando de assuntos que muitas vezes são bem específicos de sua cultura e país, ele sabe que no fundo há muito mais semelhanças entre as pessoas no mundo do que somos levados a acreditar. Dessa forma, assistir aos seus filmes é mais do que uma experiência enriquecedora e delicada, é também explorar a complexidade de pessoas comuns que se veem diante de dilemas que qualquer um pode enfrentar alguma vez na vida.

Cena de “O Apartamento” (Forushande)

É por conta dessas qualidades que Farhadi se estabeleceu como um dos principais nomes do cinema mundial, conquistando prêmios respeitadíssimos como o Urso de Ouro no festival de Berlim, Oscar de Filme Estrangeiro, e Melhor Roteiro em Cannes.

E agora com seu novo filme, O Apartamento, ele consegue sua terceira indicação ao Oscar (as outras haviam sido com seu A Separação, que venceu como Melhor Filme Estrangeiro e concorreu como Melhor Roteiro Original), porém não poderá comparecer à cerimônia por ter tido seu visto suspendido. E por quê? Por ser iraniano.

Hoje (28/1 – um dia depois da data oficial de memória às vítimas do holocausto, vejam a ironia), o atual presidente americano Donald Trump anunciou a suspensão dos vistos de todos os cidadãos de 7 países (Iraque, Líbia, Sudão, Síria, Irã, Somália e Iémem – nenhum dos quais envolvido no ataque de 11 de Setembro, como sugeriu o presidente). Atitude que foi imediatamente reprovada até mesmo por figuras como Dick Cheney! (vice-presidente no governo Bush, e um dos idealizadores da “guerra ao terror”).

Acho que não preciso explicar porque a decisão é absurda, desumana, e retrógrada, isso seria chover no molhado e não é meu objetivo, mas o fato é que a decisão pode acabar influenciando e dando todo um novo significado para a categoria de Filme Estrangeiro no próximo Oscar, que ocorre no dia 26 de Fevereiro.

O favorito para a categoria sempre foi e continua sendo o excelente filme alemão Toni Erdmann, mas desde o início O Apartamento foi nome certo entre os indicados e sempre teve chance de ganhar, afinal, é um ótimo filme, de um diretor respeitado que já venceu o prêmio antes, e que é unanimidade entre a crítica (98% de aprovação no Rotten Tomatoes neste exato momento). Mas agora suas chances que já eram reais, aumentaram ainda mais, pois além de um prêmio artístico, a categoria pode agora ser um perfeito palco político para ilustrar da maneira mais didática possível o absurdo e a indignação da maioria da população (abraços, democracia!) sobre a decisão do presidente. Sem contar que, convenhamos, criticar Trump está na moda (que bom) e a Academia adora parecer “liberal”, mesmo que às vezes não consiga esconder seu latente conservadorismo.

E por mais que eu particularmente não ache que O Apartamento seja o melhor filme do diretor, e considere o alemão Toni Erdmann levemente superior, confesso que minha torcida agora vai para ele, pois afinal de contas, Oscar também é (assim como a Arte no geral) política.

E o mais irônico disso tudo é ver que o próprio diretor não apenas não aprova como critica dentro do próprio filme o regime teocrático islâmico do Irã, comentando até mesmo em sua estrutura narrativa o retrocesso que representou a revolução islâmica.

Mas interpretar obras de arte nunca foi um forte do fascismo, então…



Gosto de todos os gêneros cinematográficos e estou sempre aberto para conhecer novos diretores. Dentre os meus preferidos estão Woody Allen, Kubrick, Hitchcock e David Fincher. Sou estudante de Música, e não consigo passar um dia sem assistir um filme.