16
jan
2017
Crítica: “3%” (1ª temporada)
Categorias: Séries de TV • Postado por: Gabriella Almeida

3%

Pedro Aguilera, 2016
Roteiro: Ivan Nakamura, Jotagá Crema, Pedro Aguilera
8 episódios de aprox. 45 minutos
Netflix

3.5

A primeira série brasileira produzida pela Netflix já chegou causando diversas discussões e dividindo opiniões. 3% é uma distopia que se passa em um Brasil futurista, cujo território é dividido em duas regiões: o Maralto, local com abundância de recursos, alimentos e tecnologias, e o Continente, área pobre na qual os recursos – principalmente alimentos – são escassos e racionados.

Quando os jovens moradores do Continente chegam aos 20 anos, eles têm a única oportunidade de redefinir suas vidas e se mudar para o Maralto, chance essa que se baseia na participação em um Processo seletivo, que elege os jovens considerados mais capacitados para viver nesse local de privilégios. Somente 3% dos indivíduos que se candidatam ao Processo são selecionados, o que faz com que o número de pessoas que desfrutem de uma vida boa seja muito pequeno comparado à quantidade das que vivem na miséria.

Baseada em uma série (de mesmo nome) criada por um estudante de cinema e lançada no YouTube, a trama tem como principal objetivo fazer críticas aos diversos –e, em muitos casos, injustos- processos seletivos aos quais somos condicionados durante a vida. Um exemplo é o vestibular, em que jovens provenientes de diversos ambientes e diferentes condições são colocados à prova e cobrados da mesma forma.

Durante todos os episódios, o discurso da meritocracia é difundido por aqueles que já vivem no Maralto, que constantemente repetem frases como “você é criador do seu próprio mérito” e “aconteça o que acontecer, você merece”. Porém, apesar de todo esse diálogo sobre justiça e merecimento, logo no primeiro episódio o espectador percebe que essa seleção não é tão neutra assim, já que um candidato consegue ser aprovado em uma avaliação mesmo tendo trapaceado e ocasionado a eliminação de outro participante.

Outro fato característico da nossa sociedade e retratado pela série é a questão da utilização da influência familiar a fim de benefício próprio. Logo no início de sua entrevista, o candidato Marco diz que não tem a menor preocupação em relação ao processo e se mostra bem confiante –quase certo- de que será aprovado, uma vez que a maioria de sua família é habitante do Maralto.

Apesar de fazer críticas necessárias, a série deixa a desejar em alguns aspectos. O primeiro consiste em algumas falhas no roteiro, que fazem com que algumas situações sejam resolvidas de maneira rápida e sem sentido. Essa inconsistência pode ser notada, por exemplo, na cena em que uma candidata está prestes a ser enforcada em uma das provas, quando simplesmente diz “pode me matar, foda-se, eu quero passar para o lado de lá” e acaba sendo aprovada para a próxima etapa. Outra coisa que chama a atenção é o figurino dos moradores do Continente, que, ao invés de ser composto por roupas que pareçam velhas e sujas, passam ao espectador a impressão de que são vestimentas novas que foram simplesmente cortadas e combinadas com peças de tons que não combinam. Além disso, vale a pena citar que em diversos casos os atores pronunciam as palavras tão corretamente que acabam fazendo com que os diálogos pareçam forçados, o que dá a impressão de que eles estavam apenas lendo o roteiro.

Durante o decorrer dos episódios, fragmentos da vida dos personagens vão sendo revelados ao público, de modo que entendemos um pouco quais as motivações e esperanças deles em relação ao Processo; porém, muitas questões acerca da história de todos os personagens ainda deixam dúvidas, o que serve como motivação para que fiquemos ligados na próxima temporada.

3% é aquela série que te cativa não só pelos personagens, mas também pela história, que funciona como metáfora para várias situações cotidianas e abre um importante espaço para a reflexão. Dessa forma, mesmo com algumas falhas, é uma trama interessante e que vale a pena ser conferida.



Sou uma grande apaixonada pelo mundo das séries e estou sempre vendo algumas no meu tempo livre. Tenho 18 anos e divido meu dia entre a faculdade de jornalismo e meus amados seriados. Não sou capaz de escolher um preferido, mas confesso que sempre indico Scandal para a galera. Ah, e estou sempre aceitando indicações também!