23
jan
2017
Crítica: “A 13ª Emenda”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

A 13ª Emenda (13th)

Ava DuVernay, 2016
Roteiro: Ava DuVernay
Netflix

4

Em meus textos nunca digo coisas como “vá ver este filme” ou “fuja de tal filme”, pois acredito que não é papel de um crítico de cinema dizer ao público qual filme ele deve ver, e sim o fazer enxergar coisas novas nos filme que já viu, sejam bons ou ruins, e assim ter uma experiência mais envolvente e enriquecedora. Porém, como no cinema não há regras, com este documentário 13ª Emenda vou me contradizer: vá ver este filme!

Não que seja uma obra-prima, ou o melhor filme do ano, mas é um filme importante, que expõe não apenas opiniões embasadas, mas fatos incontestáveis que deveriam ser de conhecimento coletivo.

O objetivo do documentário é a princípio simples, mas se mostra cada vez mais complexo conforme o estudo vai se aprofundando: tentar entender como a 13ª Emenda Constitucional dos Estados Unidos (a que pôs fim à escravidão) na verdade foi responsável por criar a maior população carcerária do mundo, contribuindo inclusive para a desigualdade racial depois do fim da segregação.

A direção é de Ava DuVernay, uma das principais promessas da nova geração do cinema americano, responsável pelo excelente Selma (que também tratava diretamente de questões raciais) e pelos belos Middle of Nowhere e I Will Follow (estes dois disponíveis também na Netflix brasileira). Sua abordagem estética é muito interessante, mesmo que discreta: ao filmar os entrevistados, por exemplo, ela alterna planos mostrando a pessoa diretamente de frente e outros que a mostram de perfil, algo que não apenas é interessante visualmente, como ainda dialoga de maneira orgânica com as clássicas fotos de presidiários – e como o filme fala sobre prisão, e como qualquer um pode acabar sendo preso injustamente, nada mais apropriado. Além disso, a diretora ilustra de maneira muito dinâmica alguns dos dados apresentados pelo filme com animações, de modo a reforçar o absurdo destes, o que se mostra surpreendentemente eficaz e orgânico.

Mas o que faz o filme ser tão importante são os dados que ele expõe, que por mais que não sejam novidade, muitas vezes passam despercebidos por boa parte da população: como ao mostrar que enquanto 1 em cada 40 homens brancos estão presos, entre os negros esses números passam para 1 em cada 16. Outro dado importante e incontestável apresentado pelo filme são aqueles que expõem como a dita “guerra às drogas” ao invés de diminuir o consumo, apenas causou um aumento absurdo da população carcerária: enquanto no início dos anos 70 (quando Nixon declarou essa tal de “guerra às drogas”) haviam cerca de 300 mil pessoas presas no país, hoje esse número está em 2,3 milhões.

Mas o filme também não se rende à ingenuidade de retratar os republicanos como os vilões e os democratas como mocinhos, já que mostra que apesar de as principais leis responsáveis pelas prisões desproporcionais terem sido criadas nos governos Nixon e Reagan, o próprio Bill Clinton adotou uma visão moralista para se eleger após os democratas terem perdidos três eleições seguidas, e pôs em prática muitas coisas que possibilitaram o aumento da população carcerária.

E não esquecendo que estava em ano de eleição, Ava DuVernay também mostra que ambos candidatos concorrendo à presidência não estão muito preocupados em resolver este problema: enquanto Hillary Clinton aparece fazendo algumas declarações comprometedoras, Donald Trump se mostra mil vezes pior, já que foi capaz de fazer propaganda pedindo pena de morte para um grupo de jovens negros, que depois foram provados inocentes. Além disso, a sequência que o traz fazendo um discurso moralista sobre “os bons velhos tempos” enquanto a montagem intercala momentos racistas de décadas passadas, ilustra de maneira perfeita como o ciclo do preconceito nunca chega ao fim.

Trazendo também comentários extremamente reveladores de um membro do governo Nixon sobre como a “guerra às drogas” foi um disfarce para uma perseguição política, e ilustrando de maneira muito didática o racismo constitucional americano, 13ª Emenda é um filme envolvente e emocionante, mas acima de tudo, necessário.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael