11
jan
2017
Crítica: “A Criada”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

A Criada (Ah-ga-ssi)

Park Chan-Wook, 2016
Roteiro: Park Chan-Wook e Jeong Seo-kyeong
Mares Filmes

4.5

A Criada é um daqueles filmes, que sabe-se lá porque, passam despercebido por mim no momento de seu lançamento. Acontece que a repercussão começou a crescer com o passar do tempo, e conforme as pessoas iam assistindo, mais se falava sobre o filme nas Redes Sociais, o que foi aguçando minha curiosidade, mas ainda assim fui deixando-o de lado. Vieram as listas de melhores filmes do ano, e de certa forma elas acabam influenciando na nossa escolha de que filme assistir, nem que seja apenas para conferir se realmente é tudo isso ou não. E, após assistir a esse ótimo longa, do genial Park Chan-Wook (responsável pelo aclamado Oldboy), me arrependo de não ter assistido a tempo de votar nele como um dos melhores do ano para o Top 11 do Pipoca Radioativa. Uma pena.

O roteiro parte de uma premissa simples: Conde Fujiwara (Ha Jung-woo) é um trapaceiro que além de trabalhar com jóias e dinheiros falsificados, vê busca oportunidades de enriquecer de uma maneira mais fácil, até que surge a oportunidade de casar-se com Lady Hideko (Kim Min-hee) uma garota rica , que aparentemente sofre com alguns distúrbios mentais. Para seu plano dar certo, Fujiwara conta com a ajuda da, também trapaceira, Sook-hee (Kim Tae-ri) que começa a trabalhar como criada de Hideko afim de convencê-la de que Conde é um bom homem para se casar. Tudo começa a sair do controle quando as duas se apaixonam. Se o enredo é simples e visto algumas vezes no cinema, o seu desenvolvimento não e é aí que mora o maior trunfo do longa.

Todo (quase todos) filme é digno de atenção especial do início ao fim da projeção, porém A Criada exige do espectador uma atenção dobrada no seu primeiro ato, já que com a história transitando constantemente entre Japão e Coréia, além de apresentar as características dos três personagens principais, assim como suas motivações, esse início pode ser um pouco cansativo, porém acaba sendo de suma importância para o entendimento. A montagem, um pouco confusa, nos dois primeiros atos, com cortes rápidos que dão a impressão de cortar as sequências no meio, se justificam do final do segundo para o terceiro ato, onde em certos momentos passamos a assistir o mesmo filme, com uma ótica diferente. E é esse um dos pontos principais do longa, já que Park Chan-Wook consegue quebrar nosso olhar viciado algumas vezes, já que o longa tem muitos pontos de virada, sendo dois deles bem gritantes aos nossos olhos, que acabam por deixar o espectador ainda mais vidrado.

Se a montagem é muito importante para a narrativa, não menos é o design de produção, principalmente por toda a ambientação presente na mansão de Lady Hideko, onde se passa 75% do longa, que é descrita já no início do filme como uma mistura de arquitetura britânica (grandiosa) e japonesa (minimalista), com uma alegação de que era um gosto pessoal da jovem, que já demonstra um pouco de sua personalidade, que é exposta aos poucos ao espectador, em doses homeopáticas. Isso porque, ao conhecermos Hideko, nos deparamos com uma garota tímida e inocente, com um olhar singelo que muito tem a ver com a arquitetura japonesa, ao tempo em que determinado momento sua personalidade muda, tirando todo o ar inocente que tinha anteriormente, mesmo que em seu olhar tenha se mantido singelo vez ou outra.

A direção de Park Chan-Wook é impressionante, potente como sempre, o sul-coreano consegue levar o espectador para onde quer através da sua câmera poderosa. A escolha das cores funciona perfeitamente bem durante todo o longa, deixando ainda mais belos alguns takes, principalmente nas sequências eróticas, onde fetichista como é, acaba explorando o corpo das atrizes sem parecer gratuito em momento algum, já que tudo ali é importante narrativamente. Traz ainda em sua direção uma teatralidade que dá um ar de tragédia à trama, além de deixar esteticamente algumas cenas mais lindas ainda.

Se Ha Jung-woo acerta no tom cafajeste que dá ao seu personagem, É em Kim Min-hee e Kim Tae-ri que reside a maior força do elenco, já que as duas atrizes trazem uma atuação maravilhosa, onde se entregam de corpo e alma àquela história densa e repleta de nuances que dificultam o trabalho delas, já que através dos pontos de virada não é só o enredo que altera, e também é a partir daí que a verdadeira personalidade de cada personagem aparece, ou seja, existe um trabalho de reinterpretação das atrizes dentro do próprio longa. Principalmente pelo fato do diretor escolher contar aquela trama através do olhar das duas, dessa maneira é visível que em cada “PV” exista uma motivação diferente na atuação delas.

A Criada é um filme que fala de cobiça, ambição, riqueza e sexo. Mas, principalmente, é um longa sobre trapaça, que está tão inserida em seu contexto que acaba durante os aproximadamente 151 minutos de duração trapaceando o nosso olhar. É mais um filmaço do sul-coreano Park Chan-Wook que merece ser contemplado por todos aqueles que gostam de cinema.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.