14
jan
2017
Crítica: “Assassin’s Creed”
Categorias: Críticas • Postado por: João Vitor Moreno

Assassin’s Creed

Justin Kurzel, 2016
Roteiro: Bill Collage, Adam Cooper e Michael Lesslie
Fox Film do Brasil

2

Nunca é fácil adaptar uma história de vídeo game para o cinema. Não que vídeo game seja uma arte menor ou dispensável, é apenas porque as linguagens dessas duas mídias são bastante distintas. Enquanto nos jogos a estrutura narrativa é apropriadamente episódica, de modo a ir criando e desenvolvendo as fases, no cinema estruturas assim tendem a não funcionar. Da mesma forma, os diálogos presentes nas cutscenes dos games precisam ser breves e, por consequência, expositivos, enquanto no cinema excesso de exposição verbal é sempre algo a ser evitado. E isto são coisas que este novo Assassin’s Creed não entende, já que se trata de um filme completamente bagunçado, com um roteiro sem sentido, e que não consegue nem ao menos divertir em suas sequências de ação, uma vez que estas se mostram extremamente problemáticas.

A trama acompanha um condenado à morte que é levado por uma organização secreta para participar de um experimento que basicamente o transfere para séculos no passado de modo que possa colher informações para encontrar um objeto que contém a “semente do livre arbítrio” e que possibilitaria o fim da violência no mundo.

O roteiro é escrito por Bill Collage, Adam Cooper, e Michael Lesslie, e eles caem nas mais óbvias armadilhas desse tipo de filme: os diálogos são sempre curtos e expositivos (e por mais que isso possa funcionar no vídeo game, no cinema só parece artificial e preguiçoso) e nem mesmo a principal organização do filme, que é responsável pelo esquema de “viagem no tempo”, tem seu funcionamento e motivações claras, já que a única informação passada pelo roteiro em relação a isso é que eles buscam “o fim da violência”. Aliás, desafio a qualquer um que for assistir ao filme tentar contar quantas vezes a palavra “violência” é dita pelos personagens – mostrando que os roteiristas fazem questão de martelar todas as informações da trama, mesmo que estas sejam insatisfatórias e incompletas.

Além disso, para tentar disfarçar o fato de seu protagonista ser um personagem completamente raso e sem personalidade, o filme ainda inclui uma série de momentos de “alucinações” envolvendo o personagem, que supostamente deveriam dar profundidade dramática às suas ações, mas por serem tão artificiais e repetitivas, acabam parecendo apenas momentos que servem para alongar um filme que já é suficientemente longo e cansativo – isso para não mencionar o clichê absurdo que é trazer alucinações para dizer algo que já poderia ter ficado claro de tantas outras formas.

E por mais que eu esteja longe de ser um especialista em genética, acredito que posso arriscar dizer que trazer como explicação para uma máquina do tempo o material genético de uma pessoa, como se o DNA fosse um registro da vida de seus antepassados, é um conceito um pouco absurdo demais mesmo para um filme de fantasia. E aqui não quero dizer que todos os conceitos fantasiosos de um filme têm que ser pautados de alguma forma na realidade, mas a partir do momento em que o roteiro tenta justificar um elemento fantasioso com elementos científicos, há um limite para o aceitável.

Outro erro do filme, e que comprova que nem mesmo seu diretor e sua equipe tinham consciência do que estavam fazendo, é que por mais que os melhores momentos da projeção estejam todos no tempo “passado” (aqueles que se passam na Inquisição), a grande parte da projeção se foca no tempo “presente”, onde não há praticamente nada de interessante, nem estética nem dramaticamente.

E chega a ser surpreendente como um diretor promissor como Justin Kurzel (dos ótimos Snowtown e Macbeth) cometa erros tão primários em seu trabalho de direção. Ainda que a opção de filmar alguns takes em câmera levemente acelerada no meio da ação seja uma ideia interessante, o diretor parece não compreendem nada do que é uma sequência de ação, já que usa muitos planos fechados, que dificultam a compreensão sobre o que está acontecendo, e muitos cortes rápidos que acentuam essa confusão. E é lamentável como até mesmo a montagem de Christopher Tellefsen (que também tem alguns títulos interessantes na carreira) parece não compreender alguns conceitos básicos como o fato de que planos mais abertos têm que ser naturalmente mais longos, pois estabelecem a geografia da cena e precisam de mais tempo para ser completamente compreendidos, mas aqui essa “regra” (embora este termo seja péssimo no cinema) é completamente ignorada, já que até mesmo os planos abertos das batalhas são curtíssimos, e ao invés de acrescentarem energia, como provavelmente era o objetivo do diretor, só servem para tornar a ação ainda mais incompreensível. E o fato de várias dessas sequências de ação serem intercaladas no momento “passado” e “presente” também atrapalha o envolvimento do espectador e deixa o ritmo ainda mais irregular e repetitivo. E isso para não falar da opção de filmar em 3D, que por natureza já tende a deixar a ação ainda mais confusa, principalmente se filmada em planos fechados e tremidos.

Já a trilha sonora, por mais que tenha algumas ideias evocativas interessantes, peca pela repetição e pelo excesso, além disso, a mixagem de som parece acreditar que para criar uma sequência de ação enérgica basta incluir vários sons ensurdecedores sem nexo algum.

E se por um lado é bacana ver uma atriz como Charlotte Rampling mandando bem mesmo fazendo apenas uma pequena ponta, por outro dói ver um talento como Marion Cotillard passando o filme todo com a mesma expressão e sempre sendo responsável por diálogos puramente expositivos. Já Michael Fassbender, ator que normalmente impressiona pela intensidade, aqui nada pode fazer com um protagonista desinteressante e sem personalidade.

Mas mesmo com todos os absurdos, Assassin’s Creed tem aqui e ali algumas coisas de interessante: a fotografia de Adam Arkapaw (que fez um trabalho brilhante em Macbeth) é competente em diferenciar os dois tempos da trama, filmando o presente em cores frias e chapadas e o passado em cores quentes escaldantes, e há pelo menos duas imagens memoráveis no filme, uma que acompanha o voo de uma ave e outra que traz dois personagens em um prédio com várias figuras de pássaros projetadas no teto sobre suas cabeças, e o design de produção também faz um ótimo trabalho de reconstrução de época, conseguindo evocar um tom apropriadamente macabro nas cenas passadas na Inquisição, tanto nos figurinos dos líderes religiosos quanto, principalmente, no visual da população que ali vive. Além disso, a opção de trazer as cenas passadas na Espanha todas faladas em espanhol é uma decisão acertada que traz uma veracidade interessante e que normalmente seria evitada em um blockbuster.

Se encerrando em um desfecho absolutamente inconclusivo, que só está interessando em garantir continuações, Assassin’s Creed é uma bagunça, cheio de erros primários, sendo impossível apreciar sua trama sem sentido e muito menos suas sequências de ação desastrosas. Agora só resta torcer para que o diretor Justin Kurzel reencontre a originalidade e o talento que o tornaram conhecido por seus primeiros filmes.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael