28
jan
2017
Crítica: “Até o Último Homem”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: Pedro Bonavita

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)

Mel Gibson, 2016
Roteiro: Robert Schenkkan e Andrew Knight
Diamond Films

3.5

A Segunda Guerra Mundial parece ser uma temática onde as possibilidades são infinitas no audiovisual e na literatura. As histórias e os personagens existentes em torno desse terrível acontecimento na história da humanidade parecem nunca acabar e ainda trazem grandes possibilidades para uma boa dose ficcional em torno delas. Tarantino conseguiu criar uma trama absurda e divertida desse tema no maravilhoso Bastardos Inglórios. Outros tantos diretores trouxeram para a tela histórias reais, dando um tom patriótico a mais ou a menos, dependendo de sua nacionalidade. São obras que chamam a atenção do público e trazem dinheiro pra indústria, ajudando a engrenagem ficar em movimento o tempo todo.

Até o Último Homem, novo longa de Mel Gibson e com seis indicações ao Oscar de 2017 (incluindo melhor filme e melhor diretor) narra a história real de Desmond Doss (Andrew Garfield), jovem adventista que se alista no exército norte-americano para lutar durante a Segunda Grande Guerra. Acontece que, por conta de uma convicção pessoal e religiosa, o personagem se recusa a tocar em armas. A intenção dele é ir para a batalha salvar vidas e não tirá-las.

A premissa da história por si só é brega. Trata-se de um filme de herói. É necessário construir o arco dessa personagem, humanizá-lo ao máximo para fazer com que o público acabe torcendo por ele na guerra. Principalmente o público estrangeiro. Na guerra não há o lado certo e errado. As pessoas se matam, sem saberem o porque. No fundo todos aqueles soldados são vítimas. Acontece, porém, que a tentativa do roteiro em humanizar Doss acaba soando muitas vezes artificial e traz em seu seio uma construção errada das relações e motivações que levam o protagonista a ter aquela posição. Isso porque os roteiristas Robert Schenkkan e Andrew Knight decidem focar o primeiro ato do longa todo em cima do romance entre o soldado e Dorothy Schutte (Teresa Palmer) – e nesse sentido é interessante perceber que o filme brinca com si mesmo pelo fato de ser brega quando a enfermeira diz que a cantada que ouvira de Desmond é .. brega – esquecendo portanto de explicar como aquele menino violento que ataca o irmão com pedaço de tijolo se tornou um homem completamente religioso e com aversão às armas. E mesmo que se explique lá na frente através de um flashback, o roteiro não consegue construir bem a relação problemática de pai e filho que é tão importante na construção daquela personalidade. Soa ainda mais esquisito quando em um momento Doss pede para Dorothy dizer ao pai que ele o ama, para cerca de 30 minutos de projeção depois ele falar para Smitty (Luke Bracey) que o pai está morto em seu coração. Sem contar nas inúmeras tentativas de trazer alívio cômico para a trama, que no fundo funciona somente uma vez, justamente no diálogo entre Doss e Smitty enquanto estão passando a noite em um buraco na terra esperando o dia amanhecer para retomarem as batalhas.

Em contrapartida, há de se elogiar algumas questões trazidas pelo texto, destacando-se não só a violência contra a mulher, mas também como a violência da guerra causa estragos na vida de um homem. Tom Doss (Hugo Weaving, em uma atuação que valeria a indicação como ator coadjuvante) perdeu seus três melhores amigos durante a primeira guerra, o que o tornou um homem amargo, violento e que desconta suas frustrações na bebida e abusando da violência contra sua esposa, que em determinado momento fala para seu filho ainda pequeno, que ele devia ter conhecido o pai antes da guerra. É uma pena, porém, que o roteiro não explore melhor essas questões, já que são as verdadeiras motivações que movem a personalidade de Desmond Doss, que é bem interpretado por Andrew Garfield. Ainda que trazendo uma atuação discreta, ele consegue transmitir através do seu olhar a timidez e certo isolamento vivido por seu personagem, sem deixar de ter a força necessária nos momentos necessários. Ainda que brilhe menos que Weaving, Garfield entrega um trabalho também digno de sua indicação, mas acredito que longe de merecedor do prêmio.

Mel Gibson é um diretor sádico e sem pudor algum em mostrar a violência. Se abusa da religiosidade e acaba sendo também um pouco responsável pela “breguisse” contida durante o longa, não tem como deixar de elogiar suas decisões ao filmar as sequências de batalhas entre japoneses e norte-americanos. Quando os soldados chegam no campo de batalha que já havia presenciado algumas mortes, a câmera mostra o local repleto de mortos, sem medo algum de focar nas tripas caídas pelo chão e assim segue sendo a cada morte e ferimento. Consegue ainda, junto com a montagem e com a fotografia, trazer um tom mais realista para a tela. Isso porque a câmera nervosa, muito próxima das personagens faz com que o espectador seja imergido para dentro da história, enquanto o ritmo alucinante imposto pela montagem faz com que o olhar fique atento a tudo que acontece e traz uma tensão e um sentimento de urgência que todo filme de guerra pede. Dessa maneira, fica a impressão de que são dois filmes totalmente diferentes, já que a montagem arrastada existente no primeiro e parte do segundo ato soa completamente oposta àquela magnifica a partir do momento em que o filme se torna finalmente de guerra.

O pecado da direção de Gibson fica por não saber como terminar o filme, estendendo ele além do necessário com a única intenção de emocionar o espectador, coisa que até consegue, mas que se torna extremamente desnecessária ao tirar nos últimos 10 minutos o protagonismo de Desmond Doss e levando para o patriotismo excessivo. Além, é claro, do último take, que de tão cafona me remeteu ao final de A Garota Dinamarquesa.

Dessa forma, Até o Último Homem é um filme honesto que deixa o sentimento de que poderia ser bem melhor, ainda que cumpra seu papel em determinado momento ao não ter medo de enfrentar as batalhas.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.