27
jan
2017
Crítica: “Cinema Novo”
Categorias: Críticas • Postado por: Paulo Vitor Betiati

Cinema Novo

Eryk Rocha, 2016
Roteiro: Eryk Rocha
Vitrine Filmes

4

Ao contrário dos documentários convencionais, que costumam resgatar acontecimentos através de comentários atuais e de forma didática, Cinema Novo resgata a história do movimento que mudou o cinema nacional apenas através de antigos depoimentos, entrevistas, e as imagens dos próprios filmes que dão grande valor poético ao documentário.

Não vemos nenhum comentário atual ou relatos de pessoas que não participaram do movimento, ou seja, Eryk Rocha deixa que os próprios realizadores contem essa história. Entre eles se destacam nomes como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Cacá Diegues, Nelson Pereira do Santos, Leon Hirzman, e muitos outros.

O documentário de Eryk Rocha trata-se na verdade de um filme-ensaio, carregado de subjetividade, e não se preocupa muito em ser informativo, mas sim poético – característica que parece ter herdado de seu pai, Glauber Rocha –. O resultado é emocionante para aqueles que já conhecem alguns filmes produzidos pelo Cinema Novo, mas vale lembrar que infelizmente a maior parte dos brasileiros não conhece.

Há um momento do filme em que uma repórter pergunta às pessoas na rua se gostam do cinema nacional, e já naquela época é possível observar o desinteresse do público brasileiro pelo nosso cinema -se a entrevista fosse feita hoje as respostas não seriam muito diferentes. A discussão sobre a dificuldade de atingir o público e a necessidade de retratar a realidade do país nas telas do cinema é uma das coisas que tornam o documentário tão atual, além do cenário político da ditadura que, para Eryk Rocha, pode ser comparado à situação atual do Brasil. É importante notar que o golpe militar aconteceu justamente em um momento em que o movimento ganhava força, mas passou a dificultá-lo como fez com as demais produções artísticas da época, e se levarmos em consideração que Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, perdeu a chance de buscar uma vaga no Oscar 2017 por motivos políticos, podemos entender a opinião de Eryk Rocha.

Mas a proeza do documentário está em sua montagem, feita por Renato Valone, que reúne imagens de arquivos, entrevistas e depoimentos de vários diretores, e cenas marcantes de diferentes filmes. Vemos por exemplo, Rio, 40 Graus (1955), Vidas Secas (1963), Deus e o diabo na terra do sol (1964), entre outras obras, que tem suas cenas editadas de forma que parecem dialogar entre si. É dessa forma que o documentário consegue ser tão belo, principalmente para aqueles que já tiveram a oportunidade de assistir a algumas dessas obras.

Além disso, Cinema Novo faz uma bela homenagem ao cinema nacional tocando não apenas em filmes daquele período, mas também em importantes obras anteriores e posteriores ao movimento, como Limite (1931), de Mário Peixoto, que apesar de ter sido criticada por Glauber Rocha, é homenageada da mesma forma que o trabalho de Humberto Mauro que foi uma das principais influências para o cinema novo. Até mesmo Walter Hugo Khouri foi incluído, apesar de não ter se aproximado do movimento e ter sido mal visto por outros diretores, e essa opção de não deixar ninguém de lado indica uma busca pela identidade nacional.

O reconhecimento internacional que o filme tem conquistado, como a conquista do “Olho de Ouro” no Festival de Cannes, é uma das provas de que vale a pena olhar mais para o cinema nacional.

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Sou fascinado por cinema desde que vi uma exibição de "Taxi Driver" sem ter ideia do que o filme tratava, ou seja, a curiosidade me move. Logo depois descobri filmes do Kubrick que até hoje são meus favoritos, e mais tarde, Ingmar Bergman. Pretendo cursar Cinema e Filosofia, enquanto não chego lá, tento ocupar o tempo livre com tanta coisa que comecei a escrever sobre cinema.