04
jan
2017
Crítica: “Divinas”
Categorias: Críticas • Postado por: Pedro Bonavita

Divinas (Divines)

Houda Benyamina, 2016
Roteiro: Houda Benyamina
Netflix

4

Confesso que um dos primeiros pensamentos que vem à tona quando assisto a algum filme com uma temática de periferia em que mostra todos (ou parte) os problemas sociais existentes, podem ser classificado como um alento egoísta do tipo: “Ufa, não é só no Brasil”, mas segundos depois o que vem na minha cabeça é: “Caraca, não é só no Brasil”. Ou seja, aquilo que, por um momento, anestesia logo vira uma luz amarela na mente, piscando sem parar em sinal de alerta. Começo então a acreditar cada vez mais que essas questões devem ser discutidas pelo mundo todo: sociedade, Estado e iniciativa privada. Não me parece justo que as pessoas ainda vivam em condições tão diferentes umas das outras, e não falo somente daquelas econômicas, mas trazendo a discussão para um contexto geral.

Divinas, longa de estreia da franco-marroquina Houda Benyamina, tem seu roteiro ambientado na periferia de Paris, em um bairro repleto de imigrantes (legais e ilegais) e conta a história de Dounia, vivida maravilhosamente bem por Oulaya Amamra (são impressionantes seus diversos olhares por todo o longa, trazendo sensações diferentes a cada momento) e Maimouna (Déborah Lukumuena), duas adolescentes que sonham como todas as outras, mas que enfrentam diversas dificuldades pelo meio que vivem e que encontram (principalmente) na amizade a força para sobreviver a tudo aquilo.

É interessante perceber como um enredo tão convencional pode ser tornar uma grande história, já que a cineasta consegue trazer para a tela um retrato que me parece muito fiel ao cotidiano daquele subúrbio, deixando de lado por muitos momentos a inocência característica da idade das protagonistas para no momento seguinte deixar a fantasia levá-las, dando alguns segundos de afago para elas. Dessa forma, ao mesmo tempo em que temos diálogos duros e frios, com escolhas não muito honestas e atitudes menos ainda (roubos, drogas, apedrejamento, etc.), há espaço também para brincadeiras como, por exemplo, na sequência em que Dounia e Maimouna simulam estar andando em um carro chique, em um dos momentos mais divertidos do longa, que serve claramente como um alívio também para o espectador.

A fidelidade ao cotidiano ilustrado em tela fica ainda mais evidente não só pela escolha das locações e design de produção, como também pela fotografia assinada por Julien Poupard, que principalmente no início do longa escolhe utilizar a câmera na mão, trazendo um tom documental à trama que em certo momento acaba inserindo o espectador naquele universo. Os movimentos inquietos da câmera ajudam a criar tensão, ao mesmo tempo em que te aproxima daquelas personagens. Se, devido ao carisma das atrizes já era possível ter algum tipo de sentimento por elas, a linguagem proposta pela cineasta praticamente te força a estar dentro da tela. Isso principalmente porque somente é utilizada nos momentos em que precisamos sentir medo, alegria e dor junto delas.

Costumam dizer que criança é criança em qualquer lugar, com qualquer condição financeira e criação. Concordo com isso, muito pelo fato de uma criança brincar com a outra naturalmente, pra ela pouco importa se pertencem ou não à mesma classe social. Já com os adolescentes isso não é 100% verdade, mas não existem tantas diferenças assim, principalmente pelos desejos. A diferença talvez seja a realização desse desejo, já que se é muito fácil para uma garota rica ganhar um Iphone 6s Plus, Dounia, por sua vez, precisou ganhar de presente de uma traficante de drogas para quem ela trabalha. Mas, na verdade, a cena que me levou a criar essa discussão é a sequência onde bem vestidas, indo para uma festa, as duas meninas estão em um carro conversível andando com os braços abertos, que me fez lembrar muito de uma cena bastante parecida em As Vantagens de Ser Invisível em que os adolescentes retratados pertencem a uma classe totalmente diferente – mas é fácil perceber que há muitas semelhanças nos desejos deles.

Cinco Graças, filme francês indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro do ano passado, tem como uma de suas principais características a maneira como discute os problemas enfrentados por meninas adolescentes na Turquia, e Divinas também tem muito de sua qualidade pautada na mesma questão, só que trazendo agora a discussão para a França, abrangendo para a juventude de um modo geral. Porém, o fato das duas figuras centrais serem mulheres, trazendo inclusive uma terceira personagem importante também mulher, representada aqui pela traficante Rebecca (Jisca Kalvanda) fica evidente a vontade da cineasta em discutir também o feminismo e o papel da mulher na sociedade, seja ela qual for. Ilustrando esse ponto, temos não somente as sequências onde Diouna, mesmo machucada por apanhar de homens cria forças para revidar e sobreviver, como também pelo momento em que ela salva o dançarino Djigui (Kevin Mischel) de uma queda. Mas principalmente por duas frases ditas por Rebecca que me chamaram muito a atenção: “A polícia nunca para uma mulher de salto”, que demonstra o machismo inserido de maneira forte na sociedade, onde uma mulher bem vestida não representaria perigo algum; “Você tem clitóris” em uma clara referência ao famoso ditado “Você tem culhões” que costumamos dizer quando uma pessoa tem coragem de fazer alguma coisa inimaginável.

Divinas é uma grata surpresa e não é à toa que sua diretora ganhou o prêmio “Câmera de Ouro” como melhor diretora estreante no Festival de Cannes. Apesar de trazer uma importante discussão feminista, é muito mais sobre a adolescência e a linha tênue que existe entre ser adulto e criança na periferia, aqui muito bem representada por Dounia.



Paulista radicado no Rio de Janeiro, produtor e futuro diretor; formado em cinema e amante da sétima arte. Fã de Kubrick, Tarantino, Fincher e defensor do cinema nacional. Eterno sonhador: sonho tanto que acredito fielmente que um dia nosso cinema será reconhecido por aqui.