13
jan
2017
Crítica: “La La Land – Cantando Estações”
Categorias: Críticas, Maratona Oscar 2017 • Postado por: João Vitor Moreno

La La Land: Cantando Estações (La La Land)

Damien Chazelle, 2016
Roteiro: Damien Chazelle
Paris Filmes

4.5

Existem inúmeros motivos pelos quais a Arte é tão necessária e presente em nosso cotidiano, mas um dos principais é, sem dúvidas, o escapismo. É sempre comum procurar a Arte não como uma forma nova de enxergar seu próprio mundo, mas sim como uma maneira de fugir de seu dia a dia convencional e buscar novas experiências que de outra maneira seriam impossíveis de experimentar. E isso é algo que La La Land entende e explicita, sendo um filme que oferece diversas questões interessantes para serem pensadas, mas acima de tudo, se preocupa em criar um universo próprio que compreende seu próprio poder de, como Arte, proporcionar algo que é impossível de encontrar no “mundo real”.

Escrito e dirigido pelo jovem Damien Chazelle (que já havia surpreendido no ótimo Whiplash), o filme acompanha dois personagens que vivem em Los Angeles e procuram viver daquilo que amam: Mia (Emma Stone) é uma aspirante a atriz, mas que trabalha como garçonete em um estúdio de cinema, e Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista que após perder seu emprego em um clube de jazz que se transformou em clube de samba, ganha a vida tocando músicas desinteressantes em restaurantes.

Ambos os personagens buscam em alguma forma de arte o poder de se expressar, buscando um mundo diferente do real, e o próprio filme reconhece isso e faz questão de comentar. Sendo assim, é interessante notar como em diversos momentos as luzes dos cenários se alteram para assumir uma espécie de ponto de vista dos próprios personagens, como se transportasse o espectador para o local que eles tentam alcançar através de sua Arte: quando a personagem de Emma Stone está cantando em uma audição, por exemplo, ao poucos as luzes do local se apagam até restar apenas ela visível, ou então quando o personagem de Ryan Gosling se empolga em uma apresentação que até então estava monótona, as luzes assumem um caráter mais glamoroso e de “espetáculo”.

E também é interessante notar como o filme comenta sobre ele próprio, em um exercício de metalinguagem interessantíssimo: e não é à toa que o primeiro momento completamente romântico entre os protagonistas aconteça exatamente em uma sala de cinema (aliás, Emma Stone surge em certo momento exatamente sob a luz de um projetor, quase como se fosse uma imagem projetada), e o que é mais interessante é que justo quando vão se beijar pela primeira vez nesse mesmo cinema, são interrompidos por uma falha na projeção (que nesse caso interrompe não só o filme que eles estavam assistindo, mas também o filme em que eles estão).

Mas La La Land não é apenas um filme sobre o escapismo proporcionado pela Arte, é também sobre a necessidade de ser admirado e de alcançar o sucesso, e nesse quesito o filme funciona como um complemento ao trabalho anterior do diretor, Whiplash (2014), que também tinha uma temática parecida. Dessa forma, somos levados a refletir se compensa abrir mão de um sonho maior em troca de sucesso em um sonho menor, e sobre qual é a importância de ser admirado e se sentir importante. Aliás, é revelador como o personagem de Ryan Gosling diz em certo momento que Los Angeles é um lugar onde as pessoas “veneram tudo, mas não valorizam nada”.

E se tenho uma ressalva ao filme esta se encontra no fato de em alguns momentos o espetáculo visual e a discussão mais humana entrarem em leve conflito, fazendo o filme parecer um pouco sobrecarregado.

Mas na parte técnica o filme também é admirável. A direção de arte e os figurinos embarcam na lógica escapista de criar um universo próprio (ainda que, obviamente, com diversas referências e influência dos musicais clássicos de Hollywood), e impressionam esteticamente ainda que falte um pouco de coesão: por exemplo, o filme é dividido em capítulos que levam os nomes das estações do ano, e no Inverno a personagem de Emma Stone surge quase sempre com roupas azuis, enquanto na Primavera utiliza roupas amarelas, porém no Verão e Outono, ao invés de seguir a lógica e trazer outras cores características (Vermelho e Verde, talvez), os figurinos abandonam essa lógica e vestem a personagem com roupas de várias cores distintas, se preocupando apenas com a estética (o que em si não é um grande problema, principalmente tendo em vista a proposta do filme, mas quebra uma lógica que já havia sido estabelecida).

Já as músicas cantadas pelos personagens são envolventes e agradáveis mesmo para ouvir separadamente depois, e a trilha instrumental faz um ótimo trabalho ao brincar com as melodias dessas canções, sugerindo ao longo da projeção vários trechos dos temas principais, o que é agradável de ouvir e se torna ainda mais divertido para um ouvido mais atento.

E a direção de Damien Chazelle também está entre as melhores coisas da obra. Mais uma vez empregando artifícios que tornaram Whiplash tão memorável, como os giros rápidos de câmera em 180 graus que imprimem energia ao filme, o diretor demostra personalidade e acerta por apostar em coreografias elaboradas, que se tornam ainda mais fascinantes por serem filmadas quase sempre sem cortes, muitas vezes até mudando de cenários, o que demostra um ensaio detalhado e cuidadoso.

E essa opção de filmar longos planos elaborados sem cortes torna o trabalho do elenco ainda mais difícil e admirável. Enquanto Ryan Gosling, mesmo não sendo o mais talentoso dos cantores, se mostra uma opção extremamente acertada para o papel, já que além de carismático é também capaz de evocar um timing cômico único e uma sutil melancolia com o olhar, Emma Stone, por sua vez, oferece a que talvez seja a melhor interpretação de sua carreira, conseguindo divertir, mas quando necessário também é capaz de emocionar, e o momento que a traz cantando delicadamente em uma audição mais para o final do filme, é impressionante não apenas pela força da cena em si, mas principalmente por ter sido filmado em um só take.

Tendo também um invejável senso de humor (gosto particularmente da cena que envolve poses para uma sessão de fotos), La La Land encanta por seu universo único e nos lembra do poder da Arte. É um filme admirável, que funciona como uma homenagem aos musicais clássicos, mas também se mostra muitíssimo rico e complexo em sua discussão temática.



Cinéfilo. Crítico de cinema desde 2014. Músico.
“Quando os filmes são bons, nos fazem sentir mais vivos, e escrever sobre eles tem o mesmo efeito” – Pauline Kael